22 dezembro 2018

Crítica: "Dogman" (2018)

 Existem papéis que marcam a carreira dos actores. Ao terminarmos de visionar "Dogman" é praticamente impossível não ficarmos com a ideia de que Marcello Fonte tem aqui o grande personagem do seu percurso artístico, aquele que o vai marcar daqui em diante. O intérprete insere um tom submisso e gentil ao seu Marcello, um indivíduo de aspecto franzino e olhos expressivos, que possui um pequeno salão de beleza para cães, situado em Magliana, na periferia de Roma. Essa fragilidade é transmitida por diversas vezes através de pequenos actos ou da linguagem corporal do intérprete. Note-se quando tenta evitar que Simone (Edoardo Pesce) não assalte a loja de venda de ouro contígua ao seu local de trabalho, com as palavras do protagonista a serem proferidas num tom pouco confiante ao mesmo tempo em que o corpo recua constantemente em sinal de receio. O personagem a quem Edoardo Pesce imprime uma faceta agressiva e opressora é um antigo pugilista viciado em cocaína, que aterroriza o bairro onde vive e comete uma série de crimes, algo que conduz alguns habitantes deste espaço da periferia a ponderarem a contratação de um assassino para eliminá-lo.

A relação entre Simone e Marcello é marcada pela ambiguidade e pela ascendência que o primeiro tem sobre o segundo. Observe-se o momento em que o protagonista pede para que o interlocutor não consuma cocaína na presença de Alida (Alida Baldari Calabria), a sua filha, ainda que este último ignore o pedido, ou o modo despreocupado como o delinquente avança para um assalto que mexe com a vida do primeiro. Se o personagem principal é uma figura que deambula por uma zona cinzenta, sendo capaz de actos de enorme gentileza com os cães e Alida, ou pouco recomendáveis como traficar cocaína e participar em assaltos, já o antigo pugilista é uma figura bruta, egoísta, pouco preocupada com aqueles que o rodeiam, que parece sempre disponível para destruir tudo em seu redor. Este encara o protagonista como alguém que pode controlar, embora, a espaços, deixe transparecer alguma confiança no mesmo, uma situação que atribui alguma complexidade às dinâmicas da dupla. O medo parece ser a razão primordial para Marcello não se afastar totalmente de Simone. A certa altura também parece nutrir alguma admiração pelo criminoso. No entanto, a partir de um determinado momento, é notório que o ressentimento, a raiva e o desejo de recuperar a dignidade começam a tomar conta do âmago do protagonista, algo expresso de forma paradigmática por Marcello Fonte.

Como conviver com o desprezo daqueles que nos rodeiam? Qual a melhor forma de enfrentar as consequências de um silêncio que protege um criminoso e incrimina um inocente? Estas são questões que parecem assolar a mente do protagonista e contribuem para uma mudança de atitude do mesmo, algo que conduz a que a violência se envolva pelo interior do enredo até chegar uma trágica solidão. Um acto devastador traz consigo mais tristeza do que alegria. Esta ainda chega, mas é tão pífia e temporária ao ponto de sermos assolados por uma sensação de pena, ou não estivéssemos perante a vitória da violência perante a contenção e a ternura, do domínio da solidão e da queda do calor humano. O realizador Matteo Garrone efectua uma representação crua deste espaço e das suas gentes, enquanto regressa às influências neorealistas que pontuaram trabalhos seus como "Gomorra". Note-se o aproveitamento dos espaços de Magliana, uma espécie de selva urbana com regras muito próprias onde todos se parecem conhecer e os estabelecimentos encontram-se nas proximidades uns dos outros. O destaque à população das margens, aqueles que parecem esquecidos pelo Estado ou sem protecção é outro elemento em comum com "Gomorra", um pouco à imagem da câmara em movimento, pronta a explorar as especificidades do momento.

Em determinado ponto do filme, encontramos Marcello a confrontar Simone. A câmara acompanha o nervosismo que rodeia o trecho em questão e o fervor que perpassa pelo rosto do protagonista. É uma das ocasiões em que a cinematografia sobressai ao serviço do enredo, bem como o trabalho dos actores. Outro dos momentos decorre no interior de uma discoteca, onde as luzes vermelhas e o ambiente caloroso se destacam, naquela que é uma das raras situações em que assistimos a uma proximidade entre o dono da Dogman e o ex-pugilista. O estabelecimento do protagonista é uma pequena loja que conta com uma série de divisórias nas quais os cães ficam instalados, bem como locais para a higiene e alimentação canina e um sofá onde o primeiro dorme ou repousa. É um espaço decorado de forma bastante simples e pouco dotado de tonalidades quentes ou efusivas, que reflecte a personalidade contida de Marcello, o seu apreço pelos animais e as suas parcas condições financeiras. A decoração do Dogman permite reforçar alguns traços da essência do seu proprietário, enquanto a relação deste com a filha demonstra um pouco da sua bondade. Veja-se o momento em que nadam juntos, ou participam num concurso de beleza canino, com Alida Baldari Calabria e Marcello Fonte a conseguirem que acreditemos que existe uma ligação de proximidade entre os seus personagens.

Ainda que seja possível encontrar bondade e humanidade em Marcello, importa voltar a salientar que este não é representado como alguém livre de defeitos ou incapaz de cometer actos reprováveis. Essas características cinzentas atribuem-lhe densidade, ou não estivéssemos perante alguém que se ilude a uma altura que promete uma queda dolorosa. A relação deste com a mãe da filha (Laura Pizzirani), provavelmente a sua ex-mulher, não é explorada. O que está muitas das vezes em destaque é a dinâmica intrincada com Simone. Uma ligação permeada pelo medo e a violência, onde a procura pela dignidade pode ter um preço elevado e escapar à brutalidade pode ser um desiderato impossível de alcançar. Inspirado num caso real, "Dogman" leva-nos a um local onde a crueza está muitas das vezes enraizada no quotidiano dos seus habitantes, um espaço onde um indivíduo calmo e aparentemente ponderado lida com a incapacidade de fugir a um sistema ou a um destino em que a aspereza domina a delicadeza.

Título original: "Dogman".
Realizador: Matteo Garrone.
Argumento: Matteo Garrone, Ugo Chiti, Massimo Gaudioso.
Elenco: Marcello Fonte, Edoardo Pesce, Alida Baldari Calabria, Laura Pizzirani.

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