14 dezembro 2018

Crítica: "Avanti!" (1972)

 É comum visitarmos um ou outro local com regularidade. Já conhecemos o percurso e o lugar, mas em algumas situações estes parecem ganhar características especiais que contribuem para que certos momentos permaneçam na memória. Tanto pode ser uma especificidade inerente à temperatura, ou pura e simplesmente a presença de alguém que encontrámos, ou o nosso estado de espírito do momento, entre outras particularidades que nos compelem a observar algo distinto em ocasiões aparentemente rotineiras. "Avanti!" é um filme que conta com um destino que já conhecemos, que é como quem diz, suspeitamos desde cedo como o enredo vai terminar. No entanto, é praticamente impossível deixar de desfrutar do percurso que efectuamos ao longo das suas duas horas e cerca de vinte minutos de duração, seja pelos seus personagens, ou pela sensibilidade muito própria de Billy Wilder e a sua acidez nas observações, ou pela sua capacidade para captar as singularidades do território onde se desenrola a trama e utilizá-las ao serviço da mesma.

Caminhamos por terrenos bem conhecidos do realizador, ainda que nem por isso sejam menos agradáveis de percorrer, tais como a eficácia a reunir o drama, o humor, o romance e a melancolia no interior da narrativa. As características de Ísquia durante o Verão e das suas gentes contribuem para essa mescla de ingredientes de géneros distintos, com Billy Wilder e a sua equipa a transmitirem com acerto a personalidade deste espaço. Observe-se a presença da baía onde sentimentos e corpos libertam-se temporariamente de amarras sociais, ou um passeio que permite explanar algumas das especificidades das ruas, estradas e gentes da ilha, bem como a sensação de libertação que este lugar começa a trazer a uma personagem. Algumas dessas particularidades do território são expostas com recurso ao humor, tais como a burocracia local, a presença do crime, a personalidade temperamental de alguns habitantes, ou os hábitos de trabalho de diversos elementos. Note-se o modo quase religioso como as longas horas de almoço são respeitadas, ou como os Domingos são dias em que praticamente tudo pára, com "Avanti!" a aproveitar alguns dos lugares-comuns associados aos italianos ao serviço da comédia, ainda que a sua acutilância também esteja bem calibrada quando o assunto envolve cidadãos dos EUA.

Um desses americanos é Wendell Armbruster, Jr. (Jack Lemmon), um empresário de sucesso, arrogante, casado e pragmático, que se desloca a Ísquia. A viagem de Wendell conta com uma série de peripécias. Note-se quando encontramos o empresário a entrar à pressa no avião, vestido com o equipamento de golfe. Pouco depois, apresenta um olhar preocupado e começa a observar em seu redor. É então que se senta ao lado de Dr. Fleischmann (Harry Ray), um médico que utiliza um fato de cores escuras e discretas. O realizador omite o diálogo entre ambos e coloca-os a entrar na casa de banho do meio de transporte. O que estão a fazer? Essa é uma pergunta que elaboramos, bem como alguns dos passageiros e dos funcionários do avião, até os dois personagens saírem. Wendell conta com as roupas do médico, enquanto este utiliza as vestimentas de tonalidades garridas do primeiro, uma troca que desemboca num mal-entendido que muito tem dos filmes de Billy Wilder, com o início, o desenvolvimento e a conclusão deste episódio a permitirem explanar a perícia com que o cineasta domina os ritmos do humor. Esse mal-entendido contribui ainda para que fiquemos diante das razões que conduziram o protagonista a deslocar-se a Ísquia, nomeadamente, reconhecer o corpo do pai e transportá-lo para Baltimore, onde vai ser realizado o funeral.

Durante a viagem, Wendell depara-se com Pamela Piggott (Juliet Mills). Esta procura travar conversa com o empresário, mas esbarra em alguma da sua arrogância e incapacidade para controlar um ou outro comentário mais descortês. Essas características são particularmente notórias nas observações que o protagonista efectua sobre o aparente excesso de peso de interlocutora, com quem se volta a reunir no hotel. Neste espaço, descobre que o pai tinha um affair com a mãe de Pamela, algo que a londrina já sabia. O casal reunia-se entre os dias 15 de Julho e 15 de Agosto, um hábito que mantivera ao longo de dez anos, até falecer num acidente de viação. Se Armbruster pretende transportar rapidamente o corpo do pai para Baltimore, já Piggott prefere que os amantes fiquem enterrados em Ísquia, embora essa opção seja inicialmente descartada pelo primeiro. No entanto, uma série de contratempos levam a que o transporte do corpo seja constantemente adiado, algo que conduz os dois personagens a permanecerem no território e a conviverem um com o outro, bem como com os locais.

Quando se conhecem e os conhecemos, os dois protagonistas apresentam comportamentos amplamente distintos. Juliet Mills insere uma postura afável, insegura e romântica à sua personagem, uma britânica de cabelos loiros, simpática, que trabalha numa loja e começa a apreciar a estadia na ilha. A intérprete conta com uma dinâmica convincente com Jack Lemmon, com a dupla a apresentar uma química que é desenvolvida de forma coerente. O actor convence não só quando imprime um tom inicialmente desagradável ao seu personagem, mas também quando explana as mudanças comportamentais do mesmo ao longo do filme, enquanto desperta a nossa simpatia para com este indivíduo que surge inicialmente como um representante da prepotência dos EUA. Aos poucos, encontramos Wendell e Pamela a replicarem os actos dos seus pais e a aproximarem-se, seja através de um jantar na mesma mesa onde os amantes se reuniam, ou de um banho de Sol bastante revelador, com estes episódios a marcarem a aproximação dos protagonistas e a sublinharem a habilidade de Billy Wilder para reunir uma miríade de elementos distintos no interior da narrativa.

O momento em que os dois personagens estão na morgue é revelador dessa reunião do drama e da comédia, com a tristeza a perpassar pelo olhar da personagem de Juliet Mills, embora o excessivo rigor do médico legista permita inserir alguma leveza a um trecho marcado pelo sentimento de perda. A banda sonora contribui para sublinhar essa sensação de melancolia que rodeia o episódio em que Pamela e Wendell confirmam que os corpos pertencem aos seus progenitores, com o trabalho do compositor Carlo Rustichelli (colaborador habitual de Pietro Germi) a ser sentido em diversas ocasiões de "Avanti!". Veja-se quando Pamela circula pelo território, com a música a contar com tons bem vivos e associados a este espaço, algo que reforça os sentimentos calorosos que permeiam a protagonista. Temos ainda uma utilização muito eficaz da música diegética. Observe-se quando a banda do espaço hoteleiro toca a canção dedicada aos falecidos. Marcado por uma série de luxos, o hotel é um dos cenários primordiais do enredo, um espaço pontuado por diversas marcas deixadas pelos progenitores de Pamela e Wendell, bem como por uma série de figuras que colocam em evidência o talento de Billy Wilder para conceder destaque aos elementos secundários.

Um dos personagens secundários que sobressaem é Carlo Carlucci (Clive Revill), o gerente do hotel, um indivíduo solícito e cordial, que respeita os protagonistas e forma uma certa proximidade com ambos. Neste espaço encontramos ainda Bruno (Gianfranco Barra), o criado de quarto da unidade hoteleira, um indivíduo fascinado pelos EUA, que tem por hábito tirar fotografias comprometedoras dos hóspedes. Este encontra-se envolvido com Anna (Giselda Castrini), uma empregada siciliana com um buço saliente e uma certa propensão para a violência. Não faltam ainda os vários membros dos Trotta, uma família que viu o seu vinhedo ser destruído durante o acidente que vitimou os amantes e protagoniza algumas situações rocambolescas. Temos ainda a presença de Edward Andrews como J.J. Blodgett, um oficial do Departamento de Estado dos EUA, com o actor a inserir uma faceta quase caricatural a este elemento que surge como uma oportunidade para Billy Wilder criticar a postura de "quero, posso e mando" desta nação no que diz respeito à política externa (e não só).

"Avanti!" marca um regresso de Billy Wilder a sons e ritmos que já tocara em diversas das suas obras, sejam estes os enganos, a mescla de géneros, as falas que facilmente permanecem na memória, o domínio dos ritmos do humor, a capacidade de extrair o melhor do elenco, os comentários sobre a sociedade da época, entre outros elementos. O título do filme remete para o costume de alguém bater à porta e perguntar "permesso". Se a resposta for "Avanti", essa pessoa pode entrar. A certa altura do filme, encontramos o protagonista a efectuar essa pergunta a Pamela, numa das várias ocasiões em que Lemmon e Mills incutem uma honestidade tremenda aos diálogos trocados pelos seus personagens. Nesta fase do enredo já dissemos "Avanti" e deixámos esta longa-metragem avançar e conquistar-nos com os seus personagens, os seus cenários, a sua banda sonora e a habilidade de Billy Wilder para fazer com que apreciemos este passeio pela sua ilha cinematográfica.

Título original: "Avanti!".
Título em Portugal: "Amor à Italiana".
Realizador: Billy Wilder.
Argumento: Billy Wilder e I.A.L. Diamond.
Elenco: Jack Lemmon, Juliet Mills, Clive Revill, Edward Andrews, Gianfranco Barra, Giselda Castrini.

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