30 novembro 2018

Crítica: "Bostofrio, où le ciel rejoint la terre" (2018)

 A pequena aldeia de Bostofrio que é apresentada em "Bostofrio, où le ciel rejoint la terre" surge como um espaço onde as dualidades ou as dicotomias se reúnem: o céu e a terra; o passado e o presente; a aspereza e a delicadeza. O território e as suas gentes aparecem em destaque ao longo deste documentário, enquanto acompanhamos Paulo Carneiro em busca de informações sobre o avô. Para efectuar essa tarefa intrincada, o cineasta decidiu entrevistar os locais, aqueles que conviveram com o familiar, ao mesmo tempo em que se torna protagonista da obra. É este quem questiona as gentes da terra, que se embrenha pelo território e as suas particularidades, enquanto nos transporta para um "outro" Portugal, um espaço de ontem e hoje, simultaneamente próximo e isolado de tudo e todos, que mexe com a maneira de ser daqueles que o habitam. Muito é captado através de planos de longa duração, que transmitem as cadências próprias de cada momento e se envolvem pelas singularidades dos espaços onde decorrem as entrevistas. Note-se as especificidades da casa de Maria, uma senhora de idade avançada que expõe alguma informação sobre o avô de Paulo Carneiro, ou a festa popular que o realizador interrompe para perguntar se alguém que está ali conhece o seu familiar.

Essa interrupção do evento tem algo de corajoso e comovente no seu interior, um pouco à imagem desta investigação efectuada pelo cineasta. Domingos Espada não perfilhou o progenitor de Paulo Carneiro. A relação que o primeiro mantinha com o filho e Profetina, a avó do realizador, encontra-se envolta por um nevoeiro de parca informação e imensas dúvidas. Uns dizem que não se falavam. Outros que apenas contactavam em privado. O que é certo é que passavam por dificuldades e que na época a lei não actuava de forma ágil em relação aos pais que não queriam reconhecer os filhos. Ao longo do documentário ficamos a conhecer um pouco de Domingos Espada e de Profetina a partir das recordações difusas de diversas pessoas, com "Bostofrio, où le ciel rejoint la terre" a usar a história oral como um meio de chegar a um passado que não consta nas fontes escritas. No interior desses discursos encontramos também um pouco dos traços da personalidade dos seus entrevistados. Observe-se a facilidade de Casemira em praguejar, ou a crença de Albertina, Ana e Domingos em algo sobrenatural, ou a afabilidade de Maria, com todos a contribuírem um pouco para que Paulo Carneiro obtenha mais peças para completar este "puzzle".

29 novembro 2018

Crítica: "Leviano" (2017)

 Podemos inferir algo sobre um realizador a partir dos seus filmes? Se a resposta for sim, então o mais provável é que Justin Amorim tenha uma predilecção pela utilização da câmara lenta e por pontuar uma miríade de momentos do enredo com música, imenso estilo e ritmo. Estilo é algo que não falta a "Leviano", a primeira longa-metragem do cineasta. A substância está em falta, é certo. Os personagens contam quase todos com a densidade de um guardanapo de folha fina, o enredo está longe de ser tão intrincado e irreverente como inicialmente deixa transparecer, as temáticas pouco são desenvolvidas e a espaços tudo parece demasiado inconsequente (com excepção do seu desfecho, deliciosamente negro e delirante, ou de uma caminhada acelerada em direcção a uma casa de banho, filmada com enorme brilhantismo). No entanto, a sua atmosfera é estranhamente envolvente e inebriante ao ponto de não conseguirmos descartar "Leviano", mesmo quando pouco parece fazer sentido. Ou seja, aquilo que também podemos inferir sobre Justin Amorim é que conta com uma certa capacidade para criar um ambiente que nos predispõe a seguir os acontecimentos da fita, tendo como aliados a errática banda sonora, a fotografia e alguns elementos do elenco.

O trabalho de Edward Herrera na cinematografia exacerba as características solarengas do território algarvio onde decorre o enredo, com a luminosidade bem viva e os tons quentes a estarem muito presentes durante uma fase considerável da narrativa e a banharem os corpos e os cenários. Diga-se que o guarda-roupa, muito marcado por vestimentas leves, é outro dos componentes que contribuem para sublinhar as altas temperaturas que percorrem os espaços e os corpos, ou não estivéssemos perante uma obra que gosta de realçar a fisionomia dos seus intérpretes. "Leviano" começa in media res, nomeadamente, quando Anita Paixão (Anabela Teixeira) e as suas filhas, Adelaide (Diana Marquês Guerra), Júlia (Mikaela Lupu) e Carolina (Alba Baptista), preparam-se para conceder uma entrevista a uma jornalista sobre um crime controverso que envolveu este núcleo familiar. A primeira procura transmitir a ideia de que mantém uma relação de proximidade com as jovens, algo que contrasta com os rostos e os gestos amorfos deste trio. Percebemos que qualquer coisa não bate certo, ao mesmo tempo em que ficamos diante de um trecho que demonstra a eficiência das suas intérpretes. Logo recuamos um ano, com o enredo a ziguezaguear entre o passado e o presente, enquanto ficamos a conhecer aos poucos aquilo que as levou a estarem diante da repórter e alguns traços das mesmas.

28 novembro 2018

Crítica: "Porque é este o meu ofício" (2018)

 A banda sonora e o tom de voz que João Reis incute às palavras do protagonista e narrador de serviço contribuem e muito para a atmosfera comovente, terna e melancólica de "Porque é este o meu ofício", um filme que é pequeno em duração mas enorme nas suas qualidades. Essas falas remetem para as memórias que um filho guarda do seu pai, ou não estivéssemos perante uma curta-metragem de animação sobre essa relação muito especial entre rebentos e progenitores, uma ligação que ganha características distintas ao longo do tempo, mas nem por isso é esquecida ou apagada. Em "Porque é este o meu ofício" as recordações de um adulto chegam acompanhadas por palavras e imagens que remetem para a criatividade da infância, onde dragões marinhos, sereias e anjos podem aparecer da forma mais inesperada e revelar todo um mundo que se encontra a ser descoberto. Um mundo que em parte é dado a conhecer pelo nosso pai, que é mantido no nosso interior através das memórias quer estas estejam bem vivas ou encobertas por essa grande névoa que é a passagem do tempo, que o diga o protagonista desta fita.

O personagem principal de "Porque é este o meu ofício" é um artista que ganha a vida a contar histórias através de desenhos. Parece-nos que é o realizador a trazer as suas recordações para a curta-metragem e a prestar uma homenagem ao seu pai. Se é verdade, torna a vida complicada a qualquer filho. É difícil igualar um tributo tão belo, sentido e tocante. Se não é inspirado no próprio realizador e na relação deste com o pai, podemos elogiar a sua capacidade de nos embalar para o interior do enredo e de criar algo extremamente doce, melancólico e capaz de fazer com que as palavras do protagonista ressoem na nossa mente e tragam consigo as nossas memórias. Essa situação acontece praticamente desde os momentos iniciais, quando o personagem principal pergunta ao pai "Lembras-te como eu ficava feliz quando diziam que eu era parecido contigo?" A questão é feita em voiceover, um pouco à imagem de todas as palavras proferidas no filme, algo que atribui um tom quase confessional ao discurso do artista e contribui para transformar-nos em cúmplices dessa manifestação de apreço.

27 novembro 2018

Crítica: "Terra Franca" (2018)

 Depois de partir a loiça toda na curta "Balada de um Batráquio", Leonor Teles avança com desenvoltura pelo formato de longa-metragem em "Terra Franca", um documentário quase tão singelo e fascinante como as figuras que observa. É um filme sobre os pequenos episódios do quotidiano, que se embrenha quer pelo dia-a-dia de um pescador e da sua família, quer por alguns dos espaços de uma antiga comunidade piscatória à beira do Tejo. O quanto a câmara influencia ou não os comportamentos daqueles que nos são apresentados é algo que desconhecemos. No entanto, sentimos toda uma sensação de genuinidade e empatia em volta das acções de Albertino Lobo e do seu núcleo familiar. Os actos destes elementos são regularmente captados com recurso a planos de longa duração, prontos a deixarem tudo fluir com enorme naturalidade e a sublinharem a faceta observadora da câmara. Note-se quando somos colocados perante um jantar onde os diálogos se sobrepõem e os sentimentos aquecem, ou ficamos diante de Albertino e a sua esposa, Dália, a efectuarem uma viagem de carro em plena madrugada.

Na viagem mencionada encontramos o pescador a conduzir o carro, enquanto transporta a mulher para o café do qual é proprietária. Ambos acordam bastante cedo: Albertino para pescar; Dália para preparar o estabelecimento antes dos clientes aparecerem. A cumplicidade do casal é evidente, seja nos diálogos que troca ou no espaço que um cônjuge dá ao outro. Veja-se o trecho em que Dália salienta a facilidade que tem em sair sem a companhia do esposo, ou os fragmentos de "Terra Franca" onde encontramos o pescador sozinho enquanto observa o rio ou o território que o rodeia. A pesca é a sua fonte de sustento, embora tenha perdido recentemente a licença, algo que o preocupa e permite a Leonor Teles abordar este assunto a partir de uma perspectiva bastante particular. Diga-se que o acompanhamento deste indivíduo e da sua família surge praticamente como ponto de partida para a cineasta deixar-nos diante de situações que trazem ao de cima assuntos relacionados com o conflito de gerações, as relações entre pais e filhos, o matrimónio e a insegurança profissional, entre outros temas.

26 novembro 2018

Crítica: "Entre Sombras" (2018)

 Uma das obras mais imaginativas, delirantes e marcantes da 24ª edição do festival Caminhos do Cinema Português, "Entre Sombras" aparece como uma daquelas agradáveis surpresas que qualquer cinéfilo gosta de ter. Por vezes parece saída dos filmes noir (o forte contraste entre luz e sombras, os personagens de carácter dúbio, as figuras fumadoras, o clube nocturno), ainda que esteja disposta a desconstruir algumas das suas convenções (o facto da narradora ser mulher não é obra do acaso). A certa altura indica ter ido buscar uma certa criatividade, peculiaridade e saudável loucura a alguns dos trabalhos de Jean-Pierre Jeunet. Em outros momentos aparenta ter bebericado em fontes de inspiração como os filmes de assalto ou as inventivas obras de Georges Méliès. No final é algo com vida própria, que sobrevive às comparações e às possíveis referências, enquanto aproveita técnicas de animação como stop-motion e pixilation para apresentar-nos a um universo narrativo onde os corações podem ser guardados num banco, o irreal convive com o real e a criatividade não parece ter limites.

Brilhantemente realizada por Mónica Santos e Alice Guimarães, a curta coloca-nos diante de Natália (Sara Costa), uma empregada de um banco. Esta conta com rotinas laborais monótonas e enfadonhas, muito marcadas pela repetição diária das funções e uma relação nem sempre pacífica com a passagem do tempo. Para aumentar a produtividade, utiliza dois braços postiços, uma invenção que certamente agradaria a boa parte das empresas ansiosas por rentabilizarem ao máximo os seus funcionários, com "Entre Sombras" a efectuar um breve comentário sobre o mundo laboral, até rapidamente partir para outra. É filme sem tempo a perder, que sabe que conta com uma curta duração e precisa de expor tudo de modo preciso e conciso. Note-se a forma célere como Natália recebe um bilhete, entra no clube nocturno Private Eye e toma contacto com o indivíduo misterioso (Gilberto Oliveira) que enviou a missiva. O coração deste foi supostamente roubado e depositado no banco, algo que o conduz a procurar o auxílio da protagonista, um pedido que esta encara como um desafio às suas rotinas.

25 novembro 2018

Crítica: "Carga" (2018)

 Apontem nas vossas agendas ou cadernos o nome de Bruno Gascon. A sua primeira longa-metragem tem uma força e uma intensidade que afastam a indiferença. Por vezes utiliza uma ou outra coincidência escusada para potenciar a carga dramática de algumas situações ou tentar surpreender, ou descura o desenvolvimento de um ou outro personagem, mas os feitos positivos ultrapassam quase sempre os desacertos. "Carga" é um filme-denúncia duro, onde a felicidade raramente é sentida, a redenção é improvável de ser alcançada e a desesperança percorre os seus poros. Não é motivo para menos. Bruno Gascon envolve-se pelo mundo obscuro do tráfico humano, quase sempre de forma crua, sem ter receio de chocar o espectador ou de expor a violência que percorre este negócio ilegal, imoral e desumano. A espaços parece caminhar para um certo sensacionalismo, mas rapidamente percebemos que a intenção é outra. É explanar a violência que os olhos querem fingir que não observam, é deixar os gritos de desespero ecoarem quando os nossos ouvidos pretendem escapar aos seus sons, ao mesmo tempo em que procura alertar a sociedade e deixar-nos diante de um enredo onde o destino teima em entrelaçar a vida de Viktoriya (Michalina Olszanska) e António (Vítor Norte).

Viktoriya é uma imigrante clandestina que viaja em direcção a Portugal em conjunto com outros elementos oriundos de um país do Leste. Estes procuram melhores condições de vida, embora preparem-se para encontrar um pesadelo. A transportá-los rumo ao tormento encontra-se António, um camionista na casa dos sessenta anos que trabalha a contragosto para Viktor (Dmitry Bogomolov), um traficante do Leste. Se Viktoriya foge do seu país devido a estar desempregada e ter perdido a sua avó, já o camionista aceita este emprego para escapar aos efeitos da crise em Portugal e sustentar a esposa (Rita Blanco) e a neta (Beatriz Pires). Com uma barba saliente e cabelos brancos que teimam em expor os efeitos da passagem do tempo, António exibe no seu rosto e nos seus gestos claros sinais de arrependimento, ressentimento e desprezo pelo seu empregador, algo exposto de forma sublime por Vítor Norte. O carisma e o enorme talento do actor surgem ao de cima em diversos momentos do filme. Note-se quando o transportador confronta Viktor verbalmente, ou expõe as suas tormentas e a repulsa que sente por si próprio num monólogo poderosíssimo. Quando não fala, o seu olhar e o seu rosto tratam de expor aquilo que sente e deixar-nos diante de mais uma demonstração da perícia do intérprete, com Vítor Norte a contribuir e muito para que percebamos as atitudes do seu personagem.

16 novembro 2018

Crítica: "Manbiki kazoku" (Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões)

 Em determinado ponto de "Manbiki kazoku" (em Portugal: "Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões"), encontramos Osamu Shibata (Lily Franky), Nobuyo (Sakura Andô), Hatsue (Kirin Kiki), Aki (Mayu Matsuoka), Shota (Jyo Kairi) e Yuri (Miyu Sasaki) a observarem o fogo de artifício a subir às alturas e a colorir o céu de novas tonalidades. Hirokazu Koreeda não exibe o fogo de artifício. Apenas escutamos o mesmo a rebentar em fora de campo. Nos planos, no campo, na mira do espectador, estão os membros desta família, expostos a partir das alturas, em plongées que assinalam a união deste grupo, naquele que é um breve momento que resume um pouco a essência de "Manbiki kazoku": sensível, delicado, pronto a esconder algo e a fugir ao fogo de artifício enquanto abraça a subtileza. É filme onde uma fuga pode simbolizar uma vontade de contactar com o destino. É filme em que o conceito de família é problematizado, onde a crueza e a ternura caminham lado a lado, tal como a verdade e a mentira, a bondade e a maldade, a proximidade e a distância. É filme no qual os valores morais do espectador são colocados em conflito, um pouco à imagem do que acontece com alguns personagens. É filme que não julga os protagonistas e deixa-os explanarem toda a sua dimensão. É filme que mexe com o espectador, agarra a alma e apenas a larga quando a lágrima desliza vagarosamente pelo rosto e o soluço trava as palavras que pretendem verbalizar os sentimentos.

As relações familiares intrincadas e as ligações muito próprias dos membros de uma família encontram-se no cerne de diversas obras de Hirokazu Koreeda, sendo na maioria das vezes expostas com uma precisão, humanidade, subtileza e um estilo observacional que fazem com que facilmente associemos o seu toque pessoal ao de mestres como Yasujiro Ozu e Mikio Naruse. Os núcleos familiares depauperados, a falta de dinheiro de algumas figuras e a ligação das mesmas com o vil metal também estiveram no cerne de vários trabalhos do cineasta. Diga-se que o realizador também já nos tinha colocado perante protagonistas que se encontram numa zona cinzenta de difícil descrição, que não podem ser catalogados como bons ou maus, uma situação paradigmaticamente demonstrada a partir do personagem principal de "Umi yori mo mada fukaku". Em "Manbiki kazoku", Hirokazu Koreeda volta a alguns destes assuntos e estilo de personagens, ou seja, avança com aparente simplicidade por temas relacionados com a família, o crime, a velhice, a infância, a sexualidade, as dificuldades financeiras, a amizade e as injustiças sociais. Diga-se que a simplicidade é apenas aparente, algo que se torna evidente com o decorrer do enredo e a chegada a uma reviravolta que provoca impacto nos personagens e na audiência.

12 novembro 2018

Sobre a programação da 24ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português

 Local de reunião do Cinema Português e de união entre este e o público, o festival Caminhos do Cinema Português chega à sua 24ª edição com uma programação marcada pela heterogeneidade e um número assinalável de obras lusas a descobrir ou reencontrar. Ao todo foram seleccionadas vinte e seis longas-metragens, cento e dez curtas, dezassete documentários e vinte e uma animações. Se quisermos ser mais precisos, contamos com setenta e quatro horas, cinco minutos e cinquenta e cinco segundos dedicados à exibição de fitas. A jóia da Coroa do evento é a Selecção Caminhos, onde podemos encontrar uma mescla de experiência e sangue novo. Tanto somos colocados diante de nomes bem conhecidos como João Botelho ("Peregrinação"), Eugène Green ("Como Fernando Pessoa Salvou Portugal"), Lúcia Murat ("Praça Paris"), Edgar Pêra ("O Homem-Pykante" e "Caminhos Magnétykos") e Bruno de Almeida ("Cabaret Maxime") como de cineastas em busca de afirmação no formato de longas como Paulo Carneiro ("Bostofrio oú le ciel rejoindre la terre"), Justin Amorim ("Leviano"), Bruno Gascon ("Carga"), Leonor Teles ("Terra Franca"), entre outros.

A duração não é motivo para separação entre as diferentes secções da Selecção Caminhos. Curtas e longas convivem entre si, algo que podemos observar desde logo na secção de documentários. Observe-se como curtas como "Madness", um documentário de João Viana, vencedor do Grande Prémio de Documentário na edição de 2018 do Curtas de Vila do Conde, ou "Os Mortos" (Gonçalo Robalo) e "Pele da Luz" (André Guiomar) convivem com longas como "Terra Franca", "Turno do Dia" (Pedro Florêncio) e "O Canto do Ossobó" (Silas Tiny). O mesmo se aplica para a riquíssima secção de ficção, onde encontramos longas como "A Árvore" (André Gil Mata), "Aparição" (Fernando Vendrell), "Amantes na Fronteira" (Atsushi Funahashi), "Mariphasa" (Sandro Aguilar), "Soldado Milhões" (Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa) a partilharem o mesmo espaço com curtas como "Aquaparque" (Ana Moreira), "A Estranha Casa na Bruma" (Guilherme Daniel), "Equinócio" (Ivo M. Ferreira), "Russa" (João Salaviza e Ricardo Alves Jr.") entre outras películas que fazem parte do certame. Já as animações aparecem curtas em formato mas grandes em qualidade, ou não estivéssemos perante a secção que conta com duas das grandes obras desta edição do Caminhos do Cinema Português: "Entre Sombras" (Mónica Santos e Alice Guimarães) e "Porque este é o meu ofício" (Paulo Monteiro).

05 novembro 2018

Crítica: "Fahavalo, Madagascar 1947"

 A presença colonial francesa em Madagáscar ainda continua bem viva nas memórias de diversos habitantes desta nação insular. Em "Fahavalo, Madagascar 1947" a realizadora Marie Clémence Andriamonta-Paes regressa a um pedaço dessas memórias que marcaram a identidade e a História do seu país, em particular, a revolta malgaxe contra as autoridades coloniais gaulesas. A rebelião ocorreu entre 1947 e 1948, tendo resultado em fortes medidas repressivas da França e num número elevado de mortos. Marie Clémence Andriamonta-Paes revisita estes anos a partir da fala de diversos sobreviventes que recordam as suas experiências. "Existem algumas coisas que não consigo esquecer. Vou tentar contar aquilo que aconteceu. Não fique surpreendida no caso de algumas coisas escorregarem da minha mente ou parecerem enlameadas" diz Martial Korambelo à realizadora. Um dos participantes na insurreição, Martial esteve preso oito anos e nove meses, sendo um dos vários elementos que permitem a "Fahavalo, Madagascar 1947" apanhar o comboio do passado e transportá-lo para o presente a partir das recordações e das palavras daqueles que sobreviveram.

Todas as nossas memórias encontram-se rodeadas por uma névoa de subjectividade inerente ao facto de conterem no seu interior o modo como percepcionamos diversos acontecimentos das nossas vidas. Esta subjectividade resulta a favor de "Fahavalo, Madagascar 1947" ao contribuir para que o documentário aborde o contexto histórico e alguns eventos marcantes a partir da perspectiva muito particular daqueles que a viveram de perto. Note-se o caso de Iamby, um indivíduo de idade avançada que acredita no poder dos talismãs e das poções. Não é situação para menos. Se o contingente francês, pontuado pela presença senegalesa e argelina, contava com armamento pesado e mortal, já os guerrilheiros malgaxes tinham apenas ao seu dispor lanças, machetes, a magia e o desejo de se tornarem independentes. O combate era extremamente desigual, sendo marcado pela violência das forças gaulesas, algo notório quando encontramos os relatos da destruição e dos massacres provocados pelos colonialistas. Diga-se que o ressentimento e a desilusão fazem parte do discurso de Iamby, sobretudo para com a França e a atitude de alguns elementos de Nosy Varika que apoiaram os gauleses.

03 novembro 2018

Crítica: "Friedkin Uncut" (2018)

 "Eu não estou à procura da perfeição nos filmes que faço, estou à procura de espontaneidade" comenta William Friedkin em determinado ponto de "Friedkin Uncut". Essa originalidade que o cineasta procura captar e transmitir está presente não só nos seus trabalhos, mas também no seu modo de se expressar, algo notório ao longo desta masterclass em formato de documentário. O realizador Francesco Zippel aproveita o carisma, o talento nato de William Friedkin para dialogar e a relevância das obras que este criou para efectuar um documentário dinâmico, interessante e capaz de escapar a algumas armadilhas inerentes aos convencionalismos que fazem parte desta película. Marcado por uma reunião de entrevistas, trechos de filmes, vídeos e imagens de arquivo, "Friedkin Uncut" leva-nos a uma viagem guiada às fitas do cineasta do título, bem como às peripécias que envolveram o desenvolvimento das mesmas e aos métodos de trabalho deste nome de relevo da Sétima Arte.

"Para mim, as duas principais figuras da História do Mundo são Hitler e Jesus" diz William Friedkin numa fase inicial do documentário, quase como aquecimento para falar sobre a relação entre o bem e o mal, um tema que serve para Francesco Zippel chegar a "The Exorcist". Ficamos diante de algumas cenas poderosas do filme e de um dos principais atributos de "Friedkin Uncut", nomeadamente, a assertividade com que coloca em diálogo a matéria-prima que tem à disposição, seja esta as falas dos entrevistados, os trechos das fitas ou as imagens de arquivo. No caso de "The Exorcist" encontramos nomes como Wes Anderson, Ellen Burstyn, Walter Hill, Francis Ford Coppola a abordarem elementos sobre o que torna a obra tão especial, a sua relação com a mesma, ou algumas curiosidades relacionadas com os bastidores ou o contexto da época. Note-se o caso de Ellen Burstyn a salientar o momento em que Max Von Sydow bloqueou a proferir um diálogo, ou a ocasião em que encontramos o realizador de "Pulp Fiction" a mencionar que foi proibido pela progenitora de ir ao cinema ver aquele que foi um filme-evento em 1973.

01 novembro 2018

Crítica: "Yonlu" (2018)

 A depressão e os pensamentos suicidas andam regularmente lado a lado. Formam uma companhia difícil de travar, que ataca muitas das vezes quando menos se espera e pode provocar estragos irreparáveis. É algo complicado de enfrentar em qualquer idade. Na adolescência esta combinação explosiva chega acompanhada das inseguranças próprias da idade e das emoções fervilhantes que a espaços contribuem para tudo ser sentido de modo mais intenso. Junte-se à equação uma sensação de deslocamento constante e a dificuldade dessa pessoa em conviver consigo própria nos momentos de solidão e tudo pode ganhar um carácter mais perigoso. Essa situação é particularmente notória quando observamos os receios, desejos, angústias e anseios do protagonista de "Yonlu". Simultaneamente sensível, angustiante, bela e poética, a primeira longa-metragem realizada por Hique Montanari capta a essência do personagem principal, o jovem Vinicius Gageiro Marques, mais conhecido como Yoñlu. Natural de Porto Alegre, fluente em cinco línguas, músico, ilustrador, participante em diversos fóruns online, Vinicius cometeu suicídio aos dezasseis anos de idade, um acto desesperado que provocou perplexidade e debate.

Nos momentos iniciais do filme, encontramos o terapeuta (Nélson Diniz) do protagonista a ser entrevistado por uma jornalista. Nélson Diniz incute credibilidade e sobriedade aos diálogos do seu personagem, enquanto este fala sobre os perigos dos fóruns online, a sua relação com o paciente e expõe algumas das especificidades do caso do mesmo, tendo em vista a alertar a opinião pública e a gerar debate sobre o tema. Estes trechos contribuem e muito para atribuir uma faceta positivamente pedagógica ao filme e expor alguns dos elementos que conduziram o protagonista a cometer este acto. Observe-se a posição contundente do psicólogo contra o fórum frequentado por pessoas potencialmente suicidas, um espaço do qual Yoñlu fazia parte e de onde tirou ideias e recebeu uma parte do gatilho para avançar para a morte. A partir daqui, Hique Montanari apresenta-nos o personagem do título em toda a sua complexidade. Para essa tarefa recorre não só a um argumento de grande nível e a uma interpretação sublime de Thalles Cabral, mas também a uma mistura de linguagens. Não faltam trechos de animação, linguagem de videoclipe e elementos musicais, com esta reunião a remeter para as diferentes facetas deste jovem e para a sua criatividade. Diga-se que as músicas, boa parte dos desenhos e algumas falas de Yoñlu são da autoria do jovem e introduzidas de modo harmonioso e preciso no interior do enredo.