30 outubro 2018

Crítica: "The Endless" (O Interminável)

 Pontuado por uma atmosfera que regularmente desperta o receio ou a sensação de que algo nefasto está para acontecer, "The Endless" esgueira-se habilmente pelas margens do drama familiar, do terror, da ficção-científica e das obras que envolvem cultos, enquanto reforça a ideia de que Justin Benson e Aaron Moorhead merecem o nosso interesse e admiração. Esse ambiente misterioso que pontua o filme não é obra do acaso. Uma parte advém do argumento e da ligação que criamos com os personagens. A outra parte remete e muito para o trabalho de Aaron Moorhead na cinematografia e de Jimmy Lavalle na banda sonora, bem como para o labor dos elementos responsáveis pelo design sonoro. Observe-se um plongée absoluto que realça o carro dos protagonistas a percorrer o território, quase que a transmitir a sensação de que estão a ser observados por uma entidade, ou o modo como a iluminação é utilizada para adensar a incerteza em volta de um convívio nocturno, ou a faceta desvanecida das cores que percorrem o âmago do filme, um recurso que sublinha a dubiedade e o cepticismo que envolvem alguns episódios do enredo.

Inseridos de maneira extremamente harmoniosa, a banda sonora e os efeitos sonoros permitem potenciar essa sensação de receio. Note-se como os elementos mencionados sublinham a faceta bizarra de um desenho e o seu significado, ou como uma caminhada solitária de um dos protagonistas ganha uma tensão acrescida devido à utilização precisa desses ingredientes. Diga-se que não estamos perante um filme de sustos avulsos, ou que permite que os mesmos dominem a narrativa. Já "Resolution", com quem "The Endless" partilha o mesmo universo narrativo, era assim, com Justin Benson e Aaron Moorhead a criarem uma espécie de franquia de baixo orçamento que tem na mescla de géneros e no ambiente misterioso alguns dos seus principais atributos. Em "The Endless", a dupla assume o protagonismo quer atrás das câmaras, quer à frente das mesmas, nomeadamente, a dar vida aos dois personagens principais, com quem partilha os nomes próprios. Ou seja, Aaron Moorhead interpreta Aaron, enquanto Justin Benson é Justin, com a dupla de intérpretes a contar com um trabalho eficiente quer a expor as especificidades de cada um dos irmãos, quer a explanar aquilo que os une e separa.

Os diversos planos de conjunto que agrupam os protagonistas realçam essa ligação forte entre estas duas figuras que se preparam para regressar ao local de onde fugiram há dez anos. No início da película, encontramos Aaron a receber uma cassete de uma integrante da comunidade ou seita da qual fugiram. Justin foi o elemento que estimulou a fuga. Este acredita que o grupo é uma seita suicida que dedica culto a um extraterrestre. Aaron tem uma recordação bem mais benigna desta comunidade onde parecia ter uma vida mais calma e segura. Fora do Camp Arcadia, os dois protagonistas tardam em encontrar um emprego estável ou minimamente estimulante, que lhes consiga proporcionar um quotidiano financeiramente mais desafogado. A cassete reacende o desejo de Aaron em regressar ao local. Sem nada a perder, Justin decide aceder e voltar apenas por um dia e uma noite a esta comunidade situada à margem dos grandes espaços citadinos, num lugar relativamente isolado - uma característica que adensa o sentimento de perigo em volta dos episódios que decorrem nesta povoação.

A presença de um indivíduo extremamente sorridente na entrada do Camp Arcadia, quase como se estivesse possuído ou num estado alterado, contribui para potenciar as nossas dúvidas em relação a este lugar, ainda que estas sejam parcialmente dissipadas pela forma acolhedora com que os dois familiares são recebidos por Hal (Tate Ellington), o líder não oficial da irmandade. Embora sejam expostos vários sinais de que este local está longe de ser tão benigno como aparenta, também não deixa de ser notório que os comportamentos de alguns personagens a espaços começam a quebrar algumas das nossas defesas e dos protagonistas. Note-se a proximidade que Aaron tem com Anna (Callie Hernandez), ou a afabilidade de Lizzy (Kira Powell) para com Justin. Esta recepção aumenta ainda mais o desejo do irmão mais novo em permanecer no local, embora o familiar queira sair o mais rapidamente possível deste espaço. Diga-se que o argumento explora eficazmente as dinâmicas intrincadas dos dois irmãos, com a ligação de Aaron e Justin a ser vincada por ingredientes tão dicotómicos como amizade, confiança, desconfiança, cumplicidade, mentiras, segredos por revelar e personalidades algo distintas que a espaços entram em eclosão.

Justin é mais dominador e procura assumir regularmente o controlo. Aaron é mais optimista e submisso, embora exiba um certo desejo de começar a impor a sua opinião. Moorhead e Benson são competentes a exibir estes comportamentos e as dinâmicas dos personagens que interpretam, enquanto conduzem o enredo com uma eficácia assinalável. Note-se a habilidade com que inserem algumas reviravoltas ou nova informação, ou a maneira assertiva como despertam o nosso receio em relação à irmandade (seja através da câmara a acompanhar os rostos taciturnos, ou de um jogo aparentemente inocente). Aos poucos somos colocados diante de saltos temporais, figuras peculiares, momentos dotados de alguma violência ou bizarria, impasses difíceis de resolver, ao mesmo tempo em que ficamos perante a incerteza que rodeia os protagonistas. Entre essas figuras com quem um dos personagens principais contacta encontram-se Chris (Vinny Curran) e Michael (Peter Cilella), os protagonistas de "Resolution". Os dois filmes partilham ainda a presença da irmandade, bem como a aura misteriosa e o gosto da dupla de realizadores pela utilização de vídeos amadores. Com um ambiente marcado pela incerteza, uma dupla de protagonistas que facilmente capta a nossa atenção, um trabalho de câmara e uma banda sonora que se adequam à atmosfera do enredo, "The Endless" comprova a maturidade dos seus cineastas e a capacidade de ambos em deambularem pelas franjas dos diversos géneros e subgéneros.

Observação: "O Interminável" estreia em Portugal a 1 de Novembro, sendo distribuído pela Cinema Bold.

Título original: "The Endless".
Título em Portugal: "O Interminável".
Realizadores: Justin Benson e Aaron Moorhead.
Argumento: Justin Benson.
Elenco: Justin Benson, Aaron Moorhead, Callie Hernandez, Kira Powell, Vinny Curran, Peter Cilella.

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