05 agosto 2018

Crítica: "Yu wo wakasuhodo no atsui ai" (Her Love Boils Bathwater)

 Filme dotado de alma e coração, que concilia harmoniosamente o humor e o drama, "Yu wo wakasuhodo no atsui ai" conta com doses assinaláveis de humanidade e ternura, deixa os intérpretes comporem personagens que despertam empatia e aborda a complexidade que envolve o conceito de família. O que é fazer parte de um núcleo familiar? Esta é uma pergunta a que os personagens vão ter de responder e atravessa boa parte do enredo, com o realizador Ryôta Nakano a deixar-nos diante de uma série de figuras que nem sempre estão ligadas por laços de sangue, mas encontram-se unidas por sentimentos muito fortes. A cinematografia é sóbria o suficiente para deixar quase todo o destaque nos actores e actrizes, enquanto estes correspondem e elevam o argumento. O nome que se encontra mais em evidência é o de Rie Miyazawa, com a actriz a incutir simpatia, credibilidade, força e bondade à sua Futaba Sachino, a protagonista. A notícia de que padece de cancro no pâncreas e a certeza de que tem pouco tempo de vida conduz a protagonista a ter de lidar com o aproximar da morte, enquanto tenta resolver uma série de pontas soltas da sua vida e criar alicerces para que Azumi (Hana Sugisaki), a sua filha, uma adolescente, não fique desamparada.

Kazuhiro (Joe Odagiri), o esposo da protagonista e progenitor da jovem, desapareceu há um ano e desde aí não deu sinais de vida, um acto que conduziu ao fecho temporário do negócio desta família, nomeadamente, um sênto (casa de banho comunal). Perante a descoberta de que lhe resta pouco tempo de vida, Futaba decide entrar em contacto com o desaparecido, fruto de ter recorrido aos serviços de Takimoto (Tarô Suruga), um detective privado. O reencontro do casal permite sublinhar a capacidade de Ryôta Nakano para mesclar elementos cómicos e trágicos, ou a reunião destes personagens não contasse com humor físico e uma revelação importante, com Futaba a deixar claro que não quer gastar o pouco tempo que tem de vida em ressentimentos que não levam a lado nenhum. Kazuhiro regressa a casa após este episódio, tendo a companhia de Ayuko (Aoi Itô), uma rapariga de nove anos de idade, que supostamente é sua filha, fruto de um affair passageiro. A mãe da jovem desapareceu misteriosamente, algo que conduziu este indivíduo a cuidar do suposto rebento, com a entrada em cena destes dois elementos a mexer com o dia a dia da protagonista e de Azumi.

Esperamos alguns conflitos e discussões, mas aquilo que recebemos na maior parte das vezes é uma valente dose de sobriedade e leveza, com "Yu wo wakasuhodo no atsui ai" a criar uma atmosfera muito própria em volta destes personagens e das suas dinâmicas, enquanto se embrenha por temáticas relacionadas com o abandono, a paternidade, a maternidade, a adolescência e a família. É certo que Azumi demonstra algum ressentimento pelo facto do pai ter desaparecido, embora também não deixe de ser notório que aos poucos estes elementos começam a formar uma ligação forte e muito particular. Note-se a amizade que se inicia entre Azumi e Ayuko, ou o modo sincero como esta última começa a encarar Futaba como uma figura maternal, ou os trechos em que todos dividem tarefas no sênto. Ryôta Nakano utiliza as refeições como as ocasiões quase perfeitas para reunir os membros desta família e trabalhar as suas dinâmicas ou exibir os sentimentos dos diversos personagens. Observe-se logo no início, quando encontramos mãe e filha a tomarem a primeira refeição do dia, com esta última a salientar que a comida tem um sabor estranho, algo que a primeira não sente, naquele que é um dos primeiros sinais da sua doença, ou o jantar que marca o regresso de Kazuhiro a casa.

No jantar mencionado, ficamos diante de alguns planos de conjunto que permitem explanar os gestos de cada personagem e o modo como encaram esta improvável reunião familiar, enquanto todos comem shabu-shabu. Tal como nos filmes de Hirokazu Koreeda, a alimentação e a culinária contam com uma relevância notória no interior de "Yu wo wakasuhodo no atsui ai", seja o mencionado shabu-shabu, um prato que é confeccionado por esta família em ocasiões especiais, ou um caranguejo-aranha-gigante acompanhado de uma carta. Veja-se a viagem que Futaba efectua com Azumi e Ayuko, tendo em vista a conviver com as jovens, revelar alguns segredos e comer caranguejo-aranha-gigante. A doença de Futaba faz com que exista quase sempre um peso acrescido em volta destes episódios, embora Ryôta Nakano esteja longe de utilizá-la para criar situações excessivamente manipuladoras e melodramáticas. É certo que em um ou outro momento ameaça resvalar para esses caminhos, mas também é notório que o realizador sabe como fugir desse percurso. Note-se um trecho que tinha tudo para ser completamente arrasador, embora essa dor seja matizada com o acto da protagonista atirar uma peça de porcelana a uma janela e provocar o caos.

Rie Miyazawa exibe um domínio notável dos ritmos do humor e uma enorme capacidade para exprimir a situação delicada da sua personagem, seja através dos seus gestos, ou das suas expressões, com a actriz a incutir um estilo muito prático a esta mulher. O elenco tem um desempenho globalmente positivo, com Ryôta Nakano a permitir que um número considerável de personagens principais e secundários tenham os seus momentos de destaque. Com um olhar expressivo, Hana Sugisaki exprime com eficácia a timidez da sua personagem e a sua falta de confiança, bem como o amor que sente pela progenitora, mesmo quando descobre uma informação de relevo. Diga-se que Azumi permite ainda que o argumento aborde a temática do bullying, embora a mesma seja descartada a partir de uma fase relativamente prematura do desenvolvimento. Se as rotinas da adolescente na escola são esquecidas, já o conhecimento que esta tem de linguagem gestual contribui para alguns momentos extremamente tocantes. A jovem Aoi Itô também está em destaque, com a actriz a conseguir exprimir a inocência e a espontaneidade de Ayuko, uma jovem que tem de lidar com uma série de mudanças. Por sua vez, Joe Odagiri tem talvez o personagem mais difícil de classificar, um indivíduo irresponsável, que tanto parece não sentir o peso dos seus actos como exprime algum sentimento de culpa.

Do elenco secundário sobressai ainda Tarô Suruga como um detective extremamente simpático, viúvo e pai de uma rapariga, bem como Tori Matsuzaka como Takumi, um viajante que forma amizade com a protagonista. Quem também ganha alguma relevância no interior do enredo a partir de uma fase relativamente adiantada é Kimie (Yukiko Shinohara), uma funcionária de um restaurante, surda-muda, que envia todos os anos um caranguejo-aranha-gigante para Azumi. Boa parte destes personagens são tocados pelos gestos da protagonista, enquanto esta também é surpreendida por alguns actos daqueles que o rodeiam, com o esperado e o inesperado a fazerem parte das fundações de "Yu wo wakasuhodo no atsui ai". Tudo é abordado com uma aparente simplicidade e alguma candura, sejam assuntos relacionados com as dificuldades de enfrentar uma doença terminal, ou as dinâmicas muito específicas de uma família que se encontra unida por laços de sangue ou de afinidade, ou temas que envolvem a paternidade, a maternidade e a adolescência, entre outros exemplos.

Ryôta Nakano insere a informação com cuidado no interior do enredo, muitas das vezes de forma ágil e precisa (com excepção de um flashback extremamente redundante). Observe-se a já mencionada informação da linguagem gestual ou do caranguejo. Já a agilidade é notória quando encontramos um personagem a dizer que tem um plano e logo de seguida ficamos perante a colocação do mesmo em prática ao invés de sermos obrigados a lidar com falas extremamente expositivas, um recurso que se repete no reencontro entre a protagonista e o esposo, após um ano de ausência. Diga-se que o plano resulta num dos momentos mais comoventes e doces do filme, sobretudo por surgir numa fase do enredo em que já formámos um vínculo com estes elementos. A banda sonora sublinha a reunião de tons melancólicos, leves, ternos e comoventes que rodeiam o enredo, enquanto Rie Miyazawa tem uma daquelas interpretações que elevam o seu currículo e o filme, com a sua Futaba a mexer com aqueles que a rodeiam e com o espectador. A cor preferida desta personagem é o vermelho "como a paixão". É uma tonalidade que se adequa na perfeição a Futaba, uma figura vivaz, tal como a esta obra que conta com um encanto muito especial.

Título original: "Yu wo wakasuhodo no atsui ai".
Título em inglês:"Her Love Boils Bathwater".
Realizador: Ryôta Nakano.
Argumento: Ryôta Nakano.
Elenco: Rie Miyazawa, Hana Sugisaki, Aoi Itô, Tarô Suruga, Joe Odagiri, Yukiko Shinohara.

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