04 julho 2018

Crítica: "Lean on Pete" (O Meu Amigo Pete)

 Drama sensível e envolvente, que conta com ingredientes de road movie e uma delicadeza assinalável, "Lean on Pete" (O Meu Amigo Pete) parte da história do jovem Charley (Charlie Plummer) para abordar temáticas sobre a adolescência, o luto, o sentimento de perda, a incerteza em relação ao futuro, a população das franjas dos EUA, a importância dos laços familiares e a ligação do protagonista com o cavalo do título. Charley é um jovem de quinze anos de idade, que gosta de correr e vive com Ray, (Travis Fimmel), o seu pai, com quem se mudou recentemente para Portland. Se o protagonista encontra-se a lidar com uma série de incertezas muito próprias da idade, já Ray é um adulto que apresenta comportamentos semelhantes a um adolescente, embora ame o filho e tenha uma relação relativamente próxima com o mesmo, algo exposto desde cedo, em particular, num plano de longa duração em que ambos falam de Lynn (Amy Seimetz), uma secretária casada que passou a noite com o segundo. Travis Fimmel é competente a exibir essa faceta extrovertida, relaxada e irresponsável do seu personagem, um indivíduo com parca disponibilidade financeira e uma enorme capacidade para se envolver em problemas, com o actor a contar com uma dinâmica convincente com Charlie Plummer.

Plummer é essencial para o filme funcionar. Este transmite o feitio reservado e solitário do seu Charley, bem como as dúvidas e a inquietação que assolam a sua mente a partir de uma determinada fase do enredo em que a esperança ameaça ser consumida pela desesperança. Em plenas férias de Verão, o personagem interpretado pelo jovem actor acaba por encontrar trabalho junto de Del (Steve Buscemi), um treinador de cavalos que exibe uma atitude algo fria no que diz respeito à sua profissão. Steve Buscemi alterna entre a afabilidade e a rispidez como este indivíduo peculiar que ensina alguns dos seus conhecimentos ao protagonista e coloca-o a cuidar do cavalo do título, um equídeo que apresenta algumas semelhanças com o adolescente, ou não estivéssemos perante dois corredores que nem sempre se destacam e estão longe de terem um rumo definido. A partir do momento em que começa a trabalhar para Del, o adolescente começa a frequentar os estábulos, os circuitos de corridas e a formar uma ligação com Lean on Pete, algo exposto por Andrew Haigh sem recurso a grandes romantismos ou acordes em falso, com o realizador a optar quase sempre pela perspectiva mais verosímil e honesta.

"Não te apegues ao cavalo (...). Não são animais de estimação. Eles estão aqui para correr" diz Bonnie (Chloë Sevigny), uma jóquei que trabalha para Del, um aviso desapaixonado que o protagonista não parece querer ouvir. Tanto Del como Bonnie surgem como figuras secundárias de relevo e evidenciam uma atitude experiente e distante em relação aos equídeos com quem trabalham, um comportamento que embate de frente com o idealismo de Charley, com o jovem a apresentar uma postura muito típica da adolescência, uma fase onde tudo é vivido com uma intensidade acrescida e o poder para mudar o Mundo parece estar ao virar da esquina. Plummer deixa em evidência o respeito que o seu personagem tem por Lean on Pete, com a presença deste "quarto de milha" a parecer trazer um propósito à sua vida e uma companhia que o faz escapar temporariamente da solidão. Uma tragédia e a possibilidade de Pete ser vendido e abatido conduzem o protagonista a envolver-se pelo interior de uma odisseia pontuada pela incerteza, enquanto se desloca por uma série de locais e contacta com diversas pessoas, tendo como objectivo reencontrar Margy (Alison Elliott), a sua tia, com quem outrora partilhara alguns momentos de afinidade.

Esta odisseia permite que Andrew Haigh se embrenhe pelo interior dos EUA, seja pelos restaurantes baratos, pelos espaços desérticos, ou pela sua incapacidade para auxiliar os mais desfavorecidos e pelas suas gentes. Observe-se o caso de dois ex-militares que ajudam temporariamente o protagonista, ou Silver (Steve Zahn), um indivíduo aparentemente afável e extremamente violento. Diga-se que o argumento (inspirado no livro homónimo de Willy Vlautin) é bastante competente quer na construção do protagonista e a atribuir algum destaque aos elementos secundários (e aos seus intérpretes), quer a abordar os dilemas que perpassam pela mente de Charley. Este nem sempre comete os actos mais recomendáveis ou acertados, embora muitas das vezes também pareça praticamente impossível que siga o caminho mais correcto, com o protagonista a lidar com uma série de episódios que o colocam à prova. Não faltam situações marcadas por alguma violência física ou emocional, bem como alguns trechos pontuados por uma certa dose de ternura ou tristeza. Note-se um momento em que a poeira sobe na companhia de uma alma e traz consigo uma angústia cortante, ou as ocasiões nas quais o personagem principal desabafa com Lean on Pete, ou um reencontro onde a felicidade e a incerteza andam lado a lado.

Os momentos em que encontramos Charley a falar com o equídeo permitem explanar a sensibilidade e a solidão do jovem, bem como alguma informação sobre o seu passado e aquilo que vai na sua alma, quase como se este estivesse a narrar o seu estado de espírito. São trechos arquitectados com enorme sensibilidade, com Andrew Haigh a balancear entre as situações enternecedoras e a aspereza, enquanto deixa o protagonista a lidar com uma miríade de imponderáveis que mexem com as suas rotinas e a sua vida. Esses imprevistos marcam a transição de Charley para a idade adulta e contribuem para o desvanecer de alguma da sua inocência, algo demonstrado ao longo deste drama bastante humano. Boa parte dessa humanidade e dos acertos de "Lean on Pete" entroncam não só no trabalho de Andrew Haigh na realização e na escrita do argumento, mas também no labor de diversos elementos da sua equipa. Observe-se o cuidado design de produção, com a casa de Ray, recheada de caixas por abrir e pouca comida, a reflectir uma mudança recente e algum descuido, ou uma habitação marcada por fotografias que remetem para um passado mais apolíneo e uma possibilidade de um futuro mais risonho.

O trabalho de Magnus Nordenhof Jønck na cinematografia também é merecedor de algum destaque. Note-se o trecho já mencionado em que a poeira e a iluminação incutem uma sensação de poesia trágica a um momento devastador, ou o modo preciso com que as características dos territórios por onde o protagonista circula são captadas (nomeadamente, as regiões do Pacífico Noroeste). Observe-se os planos bem abertos que realçam a vastidão dos espaços percorridos ou os trechos nocturnos nos quais a parca iluminação tanto transmite uma certa sensação de incerteza como permite algumas situações dotadas de lirismo. Temos ainda uma série de planos de longa duração que contribuem para sublinhar alguma da autenticidade que permeia a troca de diálogos entre personagens, seja o trecho onde pai e filho dialogam sobre Lynn, ou uma conversa entre Bonnie e o adolescente na qual o desapego desta contrasta com a inexperiência deste último. Entre a esperança e a desesperança, "Lean on Pete" embala-nos para o interior da intrincada jornada de Charley, uma epopeia dotada de sentimento, sensibilidade, melancolia e uma enorme capacidade para deixar marca no protagonista e no espectador.

Título original: "Lean on Pete".
Título em Portugal: "O Meu Amigo Pete". 
Realizador: Andrew Haigh.
Argumento: Andrew Haigh.
Elenco: Charlie Plummer, Amy Seimetz, Travis Fimmel, Steve Buscemi, Steve Zahn.

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