15 julho 2018

Crítica: "Intouchables" (Amigos Improváveis)

 Buddy movie inspirado numa história real, "Intouchables" (Amigos Improváveis) utiliza uma série de lugares-comuns associados ao subgénero, enquanto beneficia das dinâmicas extremamente convincentes de Omar Sy e François Cluzet e da perícia de ambos para dominarem os ritmos do humor. Uma dessas convenções dos buddy movies é a reunião de dois personagens de características antagónicas ou oriundos de meios distintos, um ingrediente que é inserido com perícia pelos realizadores e argumentistas Olivier Nakache e Éric Toledano. A dupla é formada por Philippe (François Cluzet) e Driss (Omar Sy). O primeiro é um milionário francês, pai de uma adolescente, viúvo, admirador de música clássica, subtil na escolha das palavras e dotado de sentido de humor, que ficou tetraplégico após sofrer um acidente de parapente. O segundo é oriundo do Senegal, habita nos subúrbios, é fã dos Earth, Wind and Fire, gosta de dançar, é mulherengo, extremamente espirituoso, saiu há seis meses da prisão e acaba por ser contratado como cuidador de Phillippe quando apenas queria que carimbassem um papel para obter um subsídio social de desemprego. 

Os dois formam gradualmente uma relação de amizade, respeito e proximidade, com as suas diferenças a complementarem-se e a contribuírem para uma série de momentos que variam entre o terno, o cómico e o dramático, algo arquitectado de modo eficiente pelos realizadores. Olivier Nakache e Éric Toledano não têm problemas em recorrer ao humor politicamente incorrecto, ou a alguns estereótipos e a clichés, com a proposta de ambos a passar acima de tudo pela criação de algo leve. Essa singeleza é particularmente notória não só na construção dos personagens, mas também na abordagem das temáticas, sejam estas relacionadas com o choque de culturas, a imigração, a vida nos subúrbios, com algumas das limitações do argumento a serem ultrapassadas graças à humanidade e genuinidade que Sy e Cluzet incutem aos protagonistas, mesmo quando se embrenham pelos lugares-comuns. Sy insere uma postura descomplexada, extrovertida e divertida ao seu Driss, um indivíduo que inicialmente parece pouco preparado para cuidar do seu novo empregador. Cluzet imprime uma faceta relativamente afável ao seu Philippe, um milionário que lida com o seu funcionário como um igual e parece claramente satisfeito por este não o tratar como alguém incapacitado. 

A certa altura de "Intouchables" encontramos Driss a esquecer-se que Philippe não pode segurar o telemóvel, ou a fazer piadas sobre este não se conseguir movimentar, algo que permite colocar em evidência o humor negro que pontua alguns trechos da fita e a capacidade de Sy em transformar situações aparentemente desagradáveis ou problemáticas em episódios dotados de comicidade. O intérprete consegue exprimir com competência a surpresa e a inadaptação inicial do seu personagem, bem como aquilo que o leva a conquistar facilmente aqueles que o rodeiam, em particular, a sua personalidade vivaz, por vezes algo inocente e a sua frontalidade e a espaços a sua sensibilidade. Por sua vez, Cluzet deixa transparecer o feitio mais contido do seu personagem, um indivíduo que não quer que tenham pena da sua pessoa. A química destes dois personagens e dos seus intérpretes eleva o filme, tal como a capacidade dos cineastas em jogarem com algumas convenções e em utilizarem o humor negro. No entanto, também é notório que muitas das vezes algo parece ficar por dizer. Note-se a simplicidade com que uma atitude racista é descurada, ou a incapacidade para desenvolver os assuntos relacionados com a vida nos subúrbios e os problemas familiares de Driss. 

Se é certo que Olivier Nakache e Éric Toledano poderiam aprofundar mais alguns temas que lançam para o interior do enredo, também não deixa de ser notório que a proposta de ambos passa acima de tudo pela criação de algo frugal e bem-disposto. Diga-se que são extremamente bem-sucedidos nesse quesito, seja pelas situações já mencionadas, ou pelos gags que envolvem Driss a tentar conquistar Magalie (Audrey Fleurot), uma das várias funcionárias de Philippe, entre outros exemplos. A mansão do milionário permite espelhar as finanças avultadas deste indivíduo, bem como o seu gosto pela arte e o modo como as diversas divisórias estão preparadas para lidarem com as suas limitações, com o trabalho a nível da decoração dos cenários a ser bastante preciso. Já a banda sonora representa paradigmaticamente este jogo de acertos e escorregadelas de "Intouchables", com esses tropeços a serem sobretudo visíveis quando a música tenta sobrepor-se ao enredo ou manipular descaradamente o espectador. Com uma série de momentos de humor que funcionam com enorme precisão, uma química saliente entre a dupla de protagonistas, uma humanidade assinalável e uma leveza que aos poucos nos conquista, "Intouchables" parte das convenções dos buddy movies para proporcionar uma agradável, cómica e comovente experiência cinematográfica.

Título original: "Intouchables".
Título em Portugal: "Amigos Improváveis". 
Realizadores: Olivier Nakache e Éric Toledano.
Argumento: Olivier Nakache e Éric Toledano.
Elenco: François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny, Audrey Fleurot.

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