21 julho 2018

Crítica: "Happy End" (2017)

 A certa altura de "Happy End", Eve (Fantine Harduin), uma pré-adolescente de treze anos de idade, comenta o seguinte junto de Thomas Laurent (Mathieu Kassovitz), o seu progenitor: "Eu sei que não amas ninguém. Não amaste a mãe, não amas a Anaïs, não amas essa Claire e não me amas. Não há problema. Eu só não quero acabar em um abrigo". Este não consegue refutar o comentário seco e certeiro da filha, com o golpe a reverberar pela sua alma e a deixar a nu a distância que sempre existiu entre os dois. A reunião forçada da dupla ocorre quando a mãe da jovem, a ex-mulher de Thomas, é internada no hospital devido a uma ingestão excessiva de sedativos. O parco convívio entre pai e filha reflecte-se no pouco à vontade que um tem com o outro, expresso de modo paradigmático por Fantine Harduin e Mathieu Kassovitz ao longo de diversos trechos do filme. Diga-se que a distância, o egocentrismo, o egoísmo e as dificuldades de comunicação são temáticas que atravessam o cerne de "Happy End", uma longa-metragem realizada por Michael Haneke que se envolve ainda por assuntos relacionados com as dinâmicas familiares, a crise dos migrantes, a solidão e a alienação.

As rotinas dos Laurent são marcadas pelo distanciamento, algo exibido desde um fase precoce do filme, em particular, quando encontramos Georges (Jean-Louis Trintignant), Anne (Isabelle Huppert), Pierre (Franz Rogowski) e Anaïs (Laura Verlinden) a jantarem à mesa, com os luxos do espaço que os rodeia a destoar da míngua de afectos que percorre as suas interacções. Diga-se que o trecho em questão é exposto em dois planos de longa duração, com este recurso a permitir exacerbar a incapacidade que os membros desta família apresentam para dialogarem de forma amena ou desfrutarem da presença uns dos outros. Note-se que Georges procura não ser importunado por uma possível discussão entre Anne e Pierre, enquanto estes parecem divididos por um muro criado pelo personagem interpretado por Franz Rogowski, ao passo que Anaïs tenta desanuviar a conversa, ainda que as suas palavras não obtenham qualquer reacção entusiasmada ou interessada. O que une esta família? Acima de tudo os laços de sangue, bem como a maioria dos seus integrantes contar com alguns segredos negros ou comprometedores, sejam Georges, Thomas, ou Eve, com "Happy End" a aproveitar estes personagens para esgueirar-se pelas profundezas de uma família burguesa e da nossa sociedade.

Georges é um indivíduo vetusto, financeiramente abonado, pai de Anne e Thomas, viúvo, demente, pretende cometer suicídio e deixou os seus negócios a cargo da filha. Jean-Louis Trintingnant incute dimensão a este personagem e expressa de modo sublime a arrogância, a solidão e a frieza que pontuam os actos do veterano, algo particularmente notório num diálogo com a neta em que a morte é o tema dominante e o cunho pessoal de Michael Haneke está bem saliente. Fantine Harduin é uma das grandes revelações deste filme, com a intérprete a transmitir a mescla de maturidade e infantilidade da sua personagem, uma pré-adolescente dotada de alguma malícia, que lidou ao longo da vida com a indiferença dos pais e envenena a sua mãe com sedativos. Este acto é revelado numa etapa prematura da fita, em trechos expostos como se tivessem sido gravados pela jovem com recurso ao telemóvel, com Michael Haneke a incluir plataformas como o Youtube e redes sociais como o Snapchat e o Facebook no interior do enredo. Note-se os trechos filmados por Eve num formato semelhante aos vídeos do Snapchat, ou os diálogos entre Thomas e a amante num chat, onde estes dois últimos expõem algumas das suas fantasias mais escabrosas.

Esta inclusão das redes sociais e de plataformas como o Youtube permite que "Happy End" se embrenhe pelo modo como estes meios podem não só aproximar ou afastar os seres humanos, mas também libertá-los (para o bem e para o mal) de algumas amarras sociais que seriam impossíveis de retirar de modo presencial. A espaços também é elaborado um comentário relacionado com a possibilidade destes meios poderem acentuar o egocentrismo e o isolamento, uma situação visível quando encontramos um youtuber a fazer humor consigo próprio, ou observamos os já mencionados diálogos entre Thomas e a amante, ou Eve isolada ao computador. Diga-se que as cenas que envolvem o chat estão longe de resultar na totalidade, sobretudo por Michael Haneke não incutir dinâmica e interesse a estes diálogos não falados, embora consiga expor a relevância deste meio para o rebento de Georges exprimir as suas fantasias. Mathieu Kassovitz imprime uma certa frieza ao seu Thomas, um médico que parece incapaz de amar totalmente alguém, seja a filha, com quem pouco contactou até ao momento em que os conhecemos, ou a esposa, uma figura relativamente apagada. Anaïs é uma das personagens menos desenvolvidas do filme, com Laura Verlinden a pouco ter para fazer como a mãe do segundo filho de Thomas. 

Quem tem espaço para sobressair é Isabelle Huppert como uma empresária que se encontra noiva de Lawrence (Toby Jones), um banqueiro, com a intérprete a transmitir o estilo pragmático da sua Anne, bem como a preocupação desta mulher no que diz respeito aos comportamentos erráticos de Pierre, o seu filho. Franz Rogowski deixa bem saliente a faceta instável do seu personagem, um indivíduo que não pretende carregar o peso de gerir os negócios da família, sobretudo quando ocorre um acidente numa obra a cargo da empresa. São os elementos desta família que acompanhamos ao longo deste filme que conta com um título recheado de ironia e nos deixa perante uma série de ingredientes transversais a alguns trabalhos de Michael Haneke, seja os nomes dos personagens, a frieza de alguns elementos, as relações familiares problemáticas, o comentário sobre a sociedade, o uso exímio das elipses ou os planos de longa duração. O cineasta volta a retirar desempenhos assinaláveis de intérpretes como Isabelle Huppert e Jean-Louis Trintignant, enquanto transporta-nos para o interior do quotidiano de um núcleo familiar que se encontra fragilizado na sua alma e coração.

Se o quotidiano dos Laurent é pontuado por uma notória pobreza de afectos, já a habitação de Georges, situada em Calais, é marcada por características que sublinham a segurança financeira do veterano, algo que contribui para efectuar um contraste entre a abastança de divisas e a míngua de amor que percorre o quotidiano destes elementos. Com divisórias espaçosas, diversos quadros, candeeiros requintados, estátuas e afins, a casa reflecte de modo paradigmático a "bolha" na qual vivem os vários personagens. Note-se a indiferença com que a maioria lida com a crise dos migrantes que ocorre no "seu quintal", uma temática que Michael Haneke atira para o interior do enredo, embora não seja capaz de a desenvolver. No entanto, é exímio a deixar a imaginação do espectador a funcionar, seja quando nos priva dos diálogos entre Georges e um grupo de jovens, ou ao exibir uma agressão em pano de fundo, a partir de um plano bem aberto. Entre segredos, violência física e emocional, relações destruídas ou mantidas sob o signo da frieza, distâncias que tardam em ser diminuídas e solidões alimentadas à base de indiferença e egoísmo, "Happy End" nem sempre cumpre aquilo que promete, mas nem por isso deixa de funcionar como um drama dotado de alguma aspereza que se envolve pelas areias movediças da humanidade. 

Título original: "Happy End".
Realizador: Michael Haneke.
Argumento: Michael Haneke.
Elenco: Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant, Mathieu Kassovitz, Fantine Harduin, Franz Rogowski, Toby Jones, Laura Verlinden.

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