23 julho 2018

Crítica: "Desde allá" (À Distância)

 Não são raros os trechos de "Desde allá" em que encontramos diversos elementos fora de foco, sejam objectos, cenários ou personagens. É um recurso utilizado de forma eficaz pelo realizador Lorenzo Vigas e pelo director de fotografia Sergio Armstrong quer para reforçarem a incerteza e a ambiguidade que percorrem os actos e os sentimentos de Armando (Alfredo Castro) e a estranha ligação que se arquitecta entre este e Elder (Luis Silva), quer para estimularem a imaginação e as dúvidas do espectador. Diga-se que o cineasta aposta imenso nos não ditos, nos diálogos que ficam por dizer, ou nos actos que ocorrem no fora de campo ou no decorrer das elipses, algo que em certa medida permite sublinhar a ambiguidade e o mistério em redor do enredo, para além de remeter para a personalidade comedida do protagonista e para o meio que o rodeia, uma cidade de Caracas marcada pelas assimetrias sociais e pelas distâncias entre os seus habitantes.

Armando trabalha a elaborar próteses dentárias, é rico, de meia-idade, solitário e tem o estranho hábito de atrair jovens adultos até sua casa. Não pretende ter sexo com os mesmos, mas sim observá-los desnudos enquanto se masturba, um hábito que tem tanto de estranho como de esclarecedor sobre as tentativas que efectua para não estabelecer laços ou grandes proximidades. Note-se os momentos iniciais do filme, quando encontramos o protagonista a masturbar-se perante um mancebo, com os filtros de um tom semelhante a amarelo seco e desprovido de vida a adensarem a frieza emocional deste episódio. É numa dessas procuras por rapazes garbosos e necessitados de dinheiro que Armando contacta com Elder, um pandillero que trabalha numa oficina e pratica alguns crimes. O primeiro diálogo entre os dois é praticamente omitido e exposto a uma certa distância, um meio utilizado por Vigas para adensar as nossas questões em relação a este episódio. Pouco depois, a dupla reúne-se na casa de Armando, em momentos pontuados pela incerteza que terminam com o jovem a agredir e a roubar o seu interlocutor.

Surpreendentemente, ou talvez não, o personagem interpretado por Alfredo Castro volta a reunir-se com o pandillero e a exibir o seu interesse por este último. Será que Armando sente desejo ou curiosidade em relação ao jovem? Provavelmente uma mistura de ambos e de doses consideráveis de obsessão, embora nem sempre seja fácil ler os pensamentos e os sentimentos deste indivíduo, seja pela procura do argumento em jogar com os silêncios ou pelos traços incutidos pelo seu intérprete. Castro transmite a solidão e a estranheza que percorrem o âmago do seu personagem, um indivíduo que mantém uma relação cordial com a irmã e que segue regularmente o pai, embora não fale com este último. Não sabemos o que conduziu a esta distância entre o progenitor e o seu rebento, mas o que é certo é que este afastamento parece ter mexido com o protagonista, uma temática que não é abordada na justa medida (em grande parte devido ao argumento por vezes abusar nos silêncios e nas "não respostas"). Se o intérprete de Armando conta com um currículo assinalável, já Luis Silva é uma quase revelação que surpreende pela naturalidade com que insere personalidade ao seu Elder. Observe-se as particularidades que incute ao modo de andar do rapaz, sobretudo quando este se quer impor, ou a rispidez que imprime a uma miríade de pequenos actos que muito dizem sobre o personagem.

Os dois intérpretes convencem a expressar a ambiguidade, a repressão e as particularidades que envolvem a interacção entre Elder e Armando. A uni-los encontra-se um passado conturbado com os pais, embora a separá-los exista toda uma condição social e uma educação distinta. Elder é brusco, impulsivo, violento, pouco polido e inquieto, mas marcado por alguma sensibilidade. Armando quer distância, é algo contido na exposição dos sentimentos e endinheirado. As atitudes homofóbicas do primeiro remetem para uma problemática que atravessa a sociedade venezuelana (e não só). Diga-se que o argumento aborda uma série de assuntos relacionados com a sociedade deste país, seja as assimetrias sociais, a criminalidade, a violência, a falta de diálogo entre classes, a alienação no interior do espaço urbano, a homofobia, entre outros. Essas diferenças sociais são particularmente visíveis na relação que cada um dos protagonistas tem com o dinheiro, com Armando a apresentar uma postura mais desprendida e desafogada que contrasta com as constantes necessidades de Elder, algo exposto em algumas ocasiões.

A dupla de protagonistas conta com uma certa dose de complexidade. Inicialmente poderíamos ser repelidos pelo estranho hábito de Armando pagar a estranhos para masturbar-se enquanto os observa, mas existe algo de mais profundo a marcar as acções deste indivíduo. O mesmo é válido para Elder, com as suas atitudes mais violentas e homofóbicas a poderem rechaçar inicialmente o nosso interesse, embora este indivíduo seja capaz de surpreender-nos. Por vezes fica a ideia de que o argumento usa e abusa dos silêncios e das omissões, embora este recurso contribua em algumas situações para intrigar-nos em relação à dupla de protagonistas. Armando tanto parece querer manter uma certa distância como deixa entreaberta uma porta para uma aproximação. Elder assume uma atitude machista e arisca, apesar de a espaços exibir uma fragilidade e necessidade de afecto que não esperávamos depois de observarmos alguns dos seus actos, com Vigas a explorar a incerteza que rodeia as acções dos personagens principais. O cineasta constrói um drama onde a distância é a palavra de ordem, embora tenha o estranho efeito de provocar o sentimento diametralmente oposto e de nos trazer para o interior desta peculiar e intensa ligação que se forma entre Armando e Elder.

Título original: "Desde allá".
Título em Portugal: "À Distância".
Realizador: Lorenzo Vigas.
Argumento: Lorenzo Vigas e Guillermo Arriaga.
Elenco: Alfredo Castro, Luis Silva, Jericó Montilla.

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