25 julho 2018

Crítica: "Ant-Man and the Wasp" (Homem-Formiga e a Vespa)

 Pouco propenso a efectuar grandes surpresas ou a demonstrar ambição, "Ant-Man and the Wasp" partilha com "Ant-Man" a faceta comedida, o carisma de Paul Rudd e a honestidade da sua proposta. Também partilha a incapacidade de atribuir densidade dramática aos acontecimentos que apresenta, alguns diálogos genéricos e um antagonista sensaborão (neste caso, dois), bem como a eficácia a apresentar a escala a que os personagens percepcionam aquilo que os rodeia ou a dimensão que certos elementos adquirem devido à tecnologia criada por Hank Pym (Michael Douglas). Não faltam carros em miniatura que ganham dimensões mais elevadas, ou um fato de Ant-Man com problemas que faz com que o protagonista se envolva em situações caricatas, ou o herói do título a ganhar características gigantescas, com Paul Rudd a sobressair quer no humor físico, quer de situação. O actor incute carisma e simpatia ao seu Scott Lang, para além de conseguir que as falas mais simples ou pueris soem sinceras junto do espectador. Note-se logo nos momentos iniciais do filme, quando encontramos Scott a brincar com Cassie (Abby Ryder Fortson), a sua filha, com a dupla a simular que se encontra a efectuar um assalto e a exibir uma união assinalável.

Numa fase inicial do filme, o protagonista encontra-se a cumprir os últimos dias de prisão domiciliária, após ter sido detido devido a ter quebrado os Acordos de Sokovia. Essa situação supostamente impede-o de sair de casa, embora um sonho com Janet van Dyne (Michelle Pfeiffer), a desaparecida esposa de Hank Pym e mãe de Hope van Dyne (Evangeline Lilly), conduza Scott a contactar com estes, após um longo período sem dialogarem. Janet encontra-se perdida no quantum realm desde 1987, quando ficou em tamanho subatómico para desintegrar uma bomba que colocava um número elevado de população em risco, um episódio exposto de forma rápida no prólogo. No entanto, o facto de Scott ter conseguido sair do quantum realm conduz Hank a trabalhar num túnel quântico que permite transportar a esposa para a nossa realidade. Escusado será dizer que o sonho do protagonista pode conter informação valiosa, bem como que o personagem do título vai reunir-se com Hank e Hope, embora estes apresentem inicialmente algum ressentimento devido aos episódios que ocorreram na Alemanha (em "Captain America: Civil War").

O realizador Peyton Reed sabe trabalhar a relação de Hank, Scott e Hope, e permite que os seus intérpretes sobressaiam, com o trio a apresentar uma dinâmica próxima a uma família disfuncional que se envolve numa série de berbicachos. Michael Douglas transmite o amor que o seu personagem sente pela esposa e a sensação de culpa que guarda no seu interior, bem como a ligação forte que tem com a filha e a amizade que nutre por Lang. De Paul Rudd já mencionámos algumas das suas qualidades, mas não a química que este tem com Evangeline Lily, com as dinâmicas dos seus personagens a contribuírem e muito para incutir uma certa atmosfera de screwball comedy a "Ant-Man and the Wasp". Evangeline Lilly tem mais tempo para trabalhar a sua personagem do que em "Ant-Man", uma situação que contribui para imprimir mais dimensão à mesma e expor o lado decidido e duro da sua Hope, seja quando esta entra em acção como Wasp ou lida em "modo civil" com os seus interlocutores. Diga-se que tanto Hope como Hank encontram-se temporariamente instalados num laboratório que pode ser encolhido e transportado para qualquer lugar, uma habitação que é alvo da cobiça de dois dos antagonistas e transforma-se numa espécie de macguffin que anda de mãos em mãos durante uma parte considerável do filme.

Os antagonistas são Ava Starr aka Ghot (Hannah John-Kamen) e Sonny Burch (Walton Goggins). Ambos contam com uma espessura imensamente reduzida, sobretudo o segundo, um traficante de material tecnológico que trai Hank e Hope, tendo como objectivo roubar o laboratório da dupla e vendê-lo no mercado negro. Se Walton Goggins parece perdido nos terrenos pantanosos do typecasting, já Hannah John-Kamen está imersa num vazio que não lhe permite atribuir densidade à faceta trágica da sua personagem, uma jovem que consegue atravessar objectos e pessoas. Note-se quando encontramos Ava a tentar tocar um rosto, embora seja incapaz de o fazer devido a perder o controlo do seu corpo. Esperamos que esse momento seja aproveitado para explanar paradigmaticamente o quanto a jovem tem sofrido com a instabilidade do seu corpo, mas o argumento rapidamente assobia para o lado e descarta a possibilidade de inserir alguma genuína carga dramática no interior desta figura. Pelo meio temos imensas cenas de acção, algumas delas arquitectadas com engenho, embora a necessidade constante de tudo ter de ser leve ou contar com algumas doses de comédia conduza a que diversos trechos percam fulgor. 

Essa necessidade de imprimir humor em tudo é notória quando observamos uma cena de perseguição e fuga nas estradas, onde a montagem, a coreografia, a banda sonora, o trabalho dos actores e dos duplos funcionam para incutir ritmo e intensidade ao momento. No entanto, Peyton Reed logo insere três pessoas no interior de um café, que se encontram absortas nos seus computadores ou tablets, enquanto lá fora Ant-Man está com uma dimensão acima da média a travar um veículo. Não funciona como humor (falha o timing). Não funciona como comentário social e, embora seja um trecho muito breve, ainda tem o "mérito" de travar a cena de acção. Diga-se que Luis (Michael Peña) é um exemplo emblemático dessa irregularidade no uso do humor, ou não estivéssemos perante um personagem que parece uma máquina de piadas ambulante, com a taxa de acerto dessas tiradas a variar e muito consoante a tolerância que temos para com o mesmo. Desta vez, Luis e os seus companheiros trabalham numa agência de segurança (peculariarmente chamada X-Con), com o trio a ser inserido em diversas situações mais intrincadas, ainda que raramente acreditemos que algum personagem esteja em perigo. 

Outro dos personagens secundários é Bill Foster, um antigo amigo e colega de Hank Pym, com Laurence Fishburne a sobressair acima de tudo pela presença que incute ao cientista, embora ainda tenha mais espaço para conseguir algum destaque do que Judy Greer e Bobby Cannavale. Greer tem praticamente uma participação especial como a ex-mulher de Scott, um pouco à imagem de Cannavale como o actual marido desta, um polícia que apresenta uma capacidade para distribuir abraços semelhante à de Bas Dost. No entanto, o que mais incomoda em "Ant-Man and the Wasp" não é o parco desenvolvimento dos elementos secundários, mas sim a procura de Peyton Reed e da Marvel em tornarem tudo o mais inofensivo possível. Carros esvoaçam pelas ruas, edifícios aumentam em espaços com pessoas nas imediações, mas nada parece colocar em perigo os cidadãos comuns, com o filme a deixar sempre a sensação de que nada do que é feito pelos personagens provoca consequências palpáveis. Diga-se que também não consegue vender a ideia de que existe perigo a rodear os protagonistas e convence ainda menos no que diz respeito à possibilidade destes poderem falhar no cumprimento dos seus objectivos, algo que não destoa do seu antecessor.

Percebemos que a proposta passa por proporcionar entretenimento escapista. Nada contra. Mas poderia ter sido incutida mais espessura e dimensão ao enredo. Reed não o faz, mas aproveita com enorme acerto as dinâmicas entre o Ant-Man e a Wasp, bem como a química entre os seus intérpretes. Estes demonstram não só que existe algo de forte a unir Scott e Hope, mas também que ambos contam com cada vez mais à vontade e intimidade um com o outro, enquanto formam uma dupla que se complementa quase na perfeição. A juntar a Rudd e Lilly temos ainda Michael Douglas num bom nível e Michelle Pfeiffer a dar um curto ar da sua graça, bem como alguns momentos marcados pela aventura e acção que funcionam relativamente bem. O que também resulta é a dinâmica entre Scott e Cassie, com Rudd e a jovem Abby Ryder Fortson a transmitirem a ligação forte que existe entre os seus personagens. Já a banda sonora varia entre o satisfatório e o intrusivo, quase a parecer saída de um template que serve para qualquer filme da Marvel. Sem correr riscos ou cometer grandes escorregadelas, "Ant-Man and the Wasp" é honesto nas suas pretensões, sabe a escala a que se movimenta e cumpre com relativa competência aquilo a que se propõe: proporcionar escapismo. No entanto, é completamente inconsequente.

Título original: "Ant-Man and the Wasp".
Título em Portugal: "Homem-Formiga e a Vespa".
Realizador: Peyton Reed.
Argumento: Paul Rudd, Chris McKenna, Erik Sommers, Andrew Barrer, Gabriel Ferrari.
Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas, Michael Peña, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, Hannah John-Kamen, Laurence Fishburne, Michelle Pfeiffer.

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