18 junho 2018

Crítica: "Vinterbrødre" (Winter Brothers)

 Estreia de Hlynur Palmason na realização de longas-metragens, "Vinterbrødre" surge como uma espécie de masterclass sobre como utilizar o design de som e a cinematografia ao serviço do enredo. O trabalho de Maria von Hausswolff na cinematografia acentua a frieza que pontua os cenários, seja a exibir os tapetes de neve que cobrem o território, ou as árvores despidas, ou a escuridão que percorre as minas onde boa parte dos personagens laboram, com a parca iluminação a realçar a dureza que envolve as actividades que decorrem neste espaço e os perigos e a incerteza que permeiam o mesmo. Note-se os trechos iniciais do filme, quando encontramos um grupo de trabalhadores no interior da mina, com a única iluminação a provir dos seus capacetes, uma situação que dificulta a nossa capacidade para discernirmos as acções destes indivíduos.

O barulho das máquinas e dos aparelhos da fábrica e da mina fazem parte da banda sonora do quotidiano do protagonista e da narrativa, algo realçado em diversos momentos do filme. Hlynur Palmason e a sua equipa exibem ainda todo um cuidado a captar e destacar outros sons aparentemente banais que envolvem os personagens e potenciam certas características de alguns episódios ou cenários. Observe-se o destaque que é concedido à queda da chuva e ao barulho da mesma, algo que antecede e acompanha a tempestade que se avizinha no interior de uma habitação, ou o som efusivo das balas que esvoaçam ao ritmo do desespero. A banda sonora também é utilizada com enorme acerto. Atente-se à banda sonora desconcertante que acompanha Emil (Elliott Crosset Hove) durante a colocação de um plano perigoso em prática, com estes ruídos inquietantes a dialogarem imenso com os actos do protagonista e as imagens em movimento. A elevar este personagem está Elliott Crosset Hove, com o actor a inserir um estilo peculiar, solitário, introvertido, intempestivo e invulgar ao seu Emil, um indivíduo que vive com Johan (Simon Sears), o irmão, com quem mantém uma relação nem sempre pacífica.

Os dois irmãos trabalham na fábrica e mina de calcário, embora sejam encarados de modo distinto, com Johan a ser respeitado e conhecido por um estilo calmo, enquanto Emil é visto como um indivíduo que é capaz dos actos mais bizarros. Diga-se que o protagonista é conhecido ainda por vender bebidas alcoólicas que fabrica em sua casa com produtos químicos que rouba da fábrica. No entanto, a partir do momento em que um colega de trabalho fica gravemente doente, a desconfiança em relação a Emil sobe de tom e os problemas deste com os companheiros de trabalho acentuam-se, sobretudo quando é chamado ao escritório de Carl (Lars Mikkelsen), o seu chefe. Quase todos pensam que a culpa daquilo que aconteceu ao companheiro é da bebida fabricada pelo protagonista, algo que o leva a ficar cada vez mais isolado e a colocar as suas atenções na sua espingarda e nos vhs com tutoriais de um sargento que ensina a manejar uma arma. O sargento também é interpretado por Lars Mikkelsen, algo que permite efectuar uma ligação entre os comportamentos desta comunidade que trabalha na mina e o exército, com o protagonista a surgir como uma espécie de desertor ou rebelde sem causa que não se encaixa no interior do grupo. 

Por vezes parece que Emil pondera utilizar a arma para eliminar alguém, sobretudo quando as posições se extremam, com "Vinterbrødre" a fazer questão de expor em diversas ocasiões que estamos perante um indivíduo imprevisível, que tanto parece querer ser amado como repele aqueles que se aproximam da sua pessoa. "Eu apenas quero ser amado e fodido" diz num sonho ou num delírio para Anna (Victoria Carmen Sonne), a sua vizinha, por quem nutre um interesse notório. Diga-se que o seu irmão também se sente atraído por esta mulher, algo que adensa os problemas entre ambos. A relação entre Emil e Johan é marcada por alguma instabilidade, uma inconstância que atinge o seu ponto de ebulição quando estes se envolvem num confronto intenso e parecem esquecer-se momentaneamente dos laços que os unem. No caso concreto, ficamos perante alguns planos de longa duração que contribuem para potenciar a atmosfera inquietante deste episódio, enquanto a câmara acompanha minuciosamente os sentimentos convulsos dos dois personagens e Simon Sears e Elliott Crosset Hove dão o corpo ao manifesto. Hlynur Palmason capta a fisicalidade e a intensidade deste momento, ao mesmo tempo que expõe paradigmaticamente o quão magoado Emil ficou por um acto de Johan. Não é a última vez que encontramos estes personagens completamente despidos ou praticamente sem vestimentas, com o realizador a fazer questão de despir os actores de roupa e deixar as suas emoções a descoberto. 

Boa parte do enredo encontra-se centrado em Emil, o personagem mais complexo, um indivíduo que conserva no seu interior uma mescla de bondade e maldade que o torna profundamente humano. Hlynur Palmason preocupa-se com este personagem, bem como com os espaços que o rodeiam e influenciam, algo muitas das vezes captado com planos de longa duração que variam entre a mobilidade e a imobilidade. Tudo é explanado a um ritmo muito próprio, por vezes de forma nem sempre ágil e com alguns devaneios que pouco acrescentam, enquanto ficamos diante das rotinas destes elementos, tanto no espaço de trabalho como fora do mesmo. A fábrica surge representada como um lugar cinzento e impessoal, povoado por uma comunidade muito própria, com esta profusão de tons de cinza a realçar a frieza deste cenário e a falta de calor humano que o protagonista sente no mesmo, seja por se isolar dos colegas ou por ser colocado de parte. Fora deste espaço, a brancura da neve aparece em realce, bem como as folhas castanhas e despidas de vida que marcam esta pequena cidade dinamarquesa, um território onde muito e pouco acontece, que contribui para exacerbar uma sensação de isolamento e alienação que permeia as figuras que povoam o enredo.

Outro dos cenários em destaque é a casa dos dois irmãos, um espaço modesto que reflecte o pouco calor que existe no quotidiano da dupla (e a sobriedade e o acerto dos responsáveis pelo design de produção). É neste espaço que encontramos Emil a fabricar bebidas alcoólicas, a dialogar com Anna ou a ver com enorme atenção os vídeos anteriormente mencionados. A certa altura do filme, o áudio destes tutoriais é reunido com um episódio que decorre em plena mina, marcado pela presença da luz vermelha, algo que aliado à banda sonora e às expressões dos trabalhadores contribui para exacerbar a inquietação em redor deste momento extremamente bem arquitectado. É um dos vários trechos de "Vinterbrødre" em que o som, a iluminação, o trabalho de câmara e dos actores funcionam ao serviço do enredo e contribuem para elevar esta obra cinematográfica que coloca Hlynur Palmason como um nome a seguir com enorme interesse e atenção.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da edição de 2018 do Fest

Título original: "Vinterbrødre".
Realizador: Hlynur Palmason.
Argumento: Hlynur Palmason.
Elenco: Elliott Crosset Hove, Simon Sears, Victoria Carmen Sonne, Lars Mikkelsen.

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