20 junho 2018

Crítica: "Matar a Jesús" (2017)

 "Matar a Jesús" transporta-nos para o interior de uma cidade de Medellín marcada pela insegurança, incerteza e criminalidade, um espaço onde vidas se esfumam à velocidade de uma bala, um jogo de futebol mexe com uma parte considerável da população e uma jovem adulta procura eliminar o assassino do seu pai. Muitas das vezes inquieta, a câmara acentua essa instabilidade, enquanto acompanha Paula (Natasha Jaramillo), também conhecida como Lita, uma estudante de artes que é apaixonada por fotografia. Os momentos iniciais desta longa-metragem realizada por Laura Mora Ortega permitem estabelecer de forma rápida e eficaz a personalidade descontraída da protagonista, bem como a proximidade que esta tem com o pai, José Maria Ríos (Camilo Escobar), um professor universitário afável, que tem ideias e ideais que desafiam o sistema. O assassinato deste indivíduo ocorre numa fase inicial do filme, nomeadamente, quando o docente está a sair do carro, após ter vindo da universidade na companhia da filha, com este episódio a mexer imenso com a estudante universitária e a contribuir para o argumento abordar temáticas relacionadas com o luto, a violência na Colômbia, a corrupção policial, o crime e se envolva pelos meandros do filme de vingança.

Na esquadra, Paula depara-se com a indiferença e a corrupção daqueles que deveriam combater o crime. Note-se quando ouvimos um indivíduo a reclamar devido à inoperância das autoridades (em fora de campo), ou o misterioso desaparecimento do relógio que estava no corpo do falecido. Para a família de José Maria Ríos, a morte deste indivíduo é uma catástrofe que abre uma ferida impossível de sarar. Para a polícia, este episódio é apenas mais um assassinato, algo comentado por um dos oficiais encarregues da investigação quando salienta que todos os dias recebem entre cinco a dez casos relacionados com homicídios. É um problema sistémico que contamina uma sociedade colombiana muito marcada pela criminalidade, algo que revolta a protagonista. Numa saída nocturna, pontuada pelo consumo de álcool, tabaco e drogas, Paula encontra na discoteca o possível assassino do seu pai. É um dos vários momentos em que a iluminação, o trabalho de câmara e o design de som são utilizados ao serviço do enredo para adensar a inquietação. Observe-se o rosto da protagonista e a multitude de sentimentos que deixa transparecer, algo intensificado pela música da discoteca e as luzes azuis que percorrem a face da estudante enquanto repara em Jesús (Giovanny Rodríguez), o assassino do seu pai, um jovem que esta conseguira ver de raspão durante o homicídio. Impelida por uma certa curiosidade e desejo de vingança, Paula segue este indivíduo a outra discoteca e trava conversa com o mesmo, embora não revele as suas intenções ao seu interlocutor, com "Matar a Jesús" a estabelecer uma dinâmica complexa entre os dois personagens. 

Estreante nas lides cinematográficas, Natasha Jaramillo transmite a incerteza, a dor e os sentimentos contraditórios que perpassam pela alma da sua personagem. Paula tanto parece sentir raiva, dor e receio em relação a Jesús como também deixa transparecer uma certa curiosidade e até algum desejo pelo assassino do seu progenitor. Um dos méritos de Laura Mora Ortega passa pela decisão de não transformar este jovem num indivíduo desprovido de dimensão ou complexidade. Jesús é simultaneamente perigoso, temível, violento, vulnerável e atencioso, com Giovanny Rodríguez a incutir estas características contraditórias ao personagem. Veja-se a violência que o jovem exibe quando escuta um barulho suspeito, ou a ligação que tem com polícias corruptos, ou o modo atencioso como cuida da protagonista após esta ter sido assaltada. Tanto um como outro depararam-se com o assassinato de familiares que lhes eram próximos e lidam com inquietações e anseios muito próprios da idade, embora exista muito a separá-los, seja o meio em que foram criados ou a noção que Paula tem de que o seu interlocutor é o assassino do seu pai. Entre estes dois elementos forma-se uma ligação que é marcada pelo desejo, o receio e as dúvidas que a protagonista exibe, mas também por uma estranha cumplicidade que desafia as nossas expectativas. 

A certa altura do filme, encontramos Paula na sala de revelação a transformar a película fotográfica em imagem visível. A iluminação, pontuada por tons avermelhados, adensa o fervor de sensações que atravessam a protagonista, enquanto esta revela a última fotografia que tirou ao seu pai e um conjunto de fotografias de Jesús. De um lado temos um último momento de alegria, imobilizado numa fotografia, ao passo que no outro encontramos um símbolo da incerteza e da dor da protagonista. É um dos trechos mais inspirados de "Matar a Jesús", um pouco à imagem do episódio em que encontramos a protagonista a caminho de uma festa. No momento mencionado, a estudante encontra-se no interior de um veículo, com o fumo emanado pelo cigarro que esta traga, a iluminação e o trabalho de som a exacerbarem a confusão que perpassa pela sua mente. Se as dinâmicas entre Paula e Jesús são bem trabalhadas, já a ligação da primeira com a família e as suas rotinas na universidade são descuradas a partir de um determinado momento do filme. Note-se o pouco desenvolvimento da relação da protagonista com a mãe (Carmenza Cossio) e o irmão (Juan Pablo Trujillo), ou o modo extemporâneo como Sancho (José David Medina), um amigo da primeira, é praticamente esquecido. Temos ainda a presença de elementos secundários como Gato (Juan Camilo Cárdenas), um traficante com quem Paula contacta, um indivíduo que representa a facilidade com que os criminosos se movimentam pelos diversos espaços desta cidade. Por sua vez, as dinâmicas de Jesús com a mãe, ainda que expostas de modo demasiado conciso, permitem sublinhar eficazmente a faceta protectora deste elemento. 

Será que os problemas endémicos da sociedade colombiana conduziram Jesús a este estilo de vida? Podemos dizer que o jovem entrou no mundo do crime por vontade própria? O facto de podermos responder de forma afirmativa a estas duas questões permite realçar a densidade deste personagem e a complexidade do meio onde habita, com Jesús e Paula a serem afectados pelo contexto que os rodeia e pelas perdas que marcaram as suas vidas. Laura Mora Ortega exibe a violência de Medellín a partir do olhar desta jovem, com a cineasta a expor as ruas deste espaço, as suas particularidades, os locais mais problemáticos e um ou outro cenário mais calmo, enquanto desperta a nossa curiosidade em relação às dinâmicas que se formam entre os personagens interpretados por Natasha Jaramillo e Giovanny Rodríguez, bem como no que diz respeito à possibilidade da protagonista praticar o acto do título. Curiosamente, ou talvez não, uma parte considerável do enredo decorre durante o mês de Dezembro, o mesmo em que é comemorado o feriado religioso que assinala o nascimento de Jesus Cristo, com quem o personagem do título partilha o prenome. O Jesús interpretado por Giovanny Rodríguez não faz milagres, nem morreu pelos nossos pecados, mas mexe imenso com a protagonista. E é precisamente a ligação destes personagens que contribui para acrescentar espessura a este drama com um forte pendor documental, que se envolve pelo interior do crime e da violência em Medellín e pelos anseios dos jovens, sobretudo de Paula, uma universitária que pondera eliminar o assassino do seu pai. 

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da edição de 2018 do Fest

Título original: "Matar a Jesús".
Título em inglês: "Killing Jesus".
Realizadora: Laura Mora Ortega.
Argumento: Laura Mora Ortega e Alonso Torres.
Elenco: Natasha Jaramillo, Giovanny Rodríguez, Camilo Escobar, Carmenza Cossio, Juan Pablo Trujillo, José David Medina, Juan Camilo Cárdenas.

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