21 maio 2018

Crítica: "Umimachi Diary" (Our Little Sister)

 "Umimachi Diary" contém diversos traços transversais a várias obras de Hirokazu Koreeda, embora estejamos diante de um dos raros trabalhos do cineasta e argumentista que adapta material já existente, em particular, a série de manga homónima. É filme profundamente sensível e terno, onde os conflitos nunca atingem proporções extremas e as temáticas são abordadas com imensa subtileza, tendo no seu centro quatro personagens femininas dotadas de personalidade, carisma e dimensão. A união destas é realçada em diversos planos de conjunto e exposta com enorme precisão por Hirokazu Koreeda, com o cineasta a embrenhar-se pelo interior de temáticas e assuntos que envolvem as relações familiares, as ausências, o luto, as especificidades da cultura e da sociedade japonesa, a religião e as memórias, sempre sem descurar uma enorme atenção a todos os pormenores e aos pequenos gestos do quotidiano que muito dizem sobre os personagens. O realizador é fiel a si próprio, seja na escolha das temáticas ou no modo sublime com que desenvolve os assuntos e as relações dos personagens, tendo ainda o auxílio de um elenco principal que conta com uma enorme química, algo essencial para explorar as dinâmicas de Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa), Chika (Kaho) e Suzu (Suzu Hirose), as quatro irmãs que dominam as atenções desta doce longa-metragem.

No início do filme, Sachi, Yoshino e Chika recebem a notícia de que o pai de ambas faleceu. Estas não contactavam com o progenitor há mais de quinze anos, nomeadamente, após este se ter divorciado de Miyako (Shinobu Ôtake), a mãe do trio. No funeral, encontram Suzu, a meia-irmã, com quem nunca tinham dialogado, embora a adolescente logo desperte a atenção de Sachi, que decide convidá-la para ir viver na casa do trio, em Kamakura. Estão lançadas as peças para a integração da jovem no interior da habitação das irmãs, um espaço que conta com uma atmosfera muito própria, tendo na personagem interpretada por Haruka Ayase a figura mais responsável. A intérprete é eficaz a transmitir a faceta sóbria, madura e honesta de Sachi, a irmã mais velha, uma enfermeira que lida diariamente com pacientes terminais e mantém uma relação com um médico casado (Shin'ichi Tsutsumi), algo que a coloca perante uma série de dilemas interiores. Esta é uma das figuras centrais do filme, bem como Suzu. A integração da jovem num novo espaço e no interior das dinâmicas da família surge como um elemento essencial desta obra, com Suzu Hirose a incutir uma certa candura à sua personagem, uma adolescente que está a formar e a afirmar a sua personalidade, gosta de jogar futebol, tem algum receio de falar sobre o pai com as irmãs e guarda no interior da sua alma uma certa dor pelo facto da mãe pouco se preocupar consigo.

Suzu é recebida com enorme afecto por boa parte dos locais, inclusive pelas suas três irmãs, enquanto começa a conhecer os cantos à casa e a contactar com as especificidades das familiares. Sachi aparece como uma figura quase maternal, fruto de ter assumido desde cedo uma série de responsabilidades no interior da casa. Yoshino tem bom coração, uma péssima habilidade para escolher namorados e um enorme gosto por cerveja, com Masami Nagasawa a explanar estas características da sua personagem de forma convincente. Já Chika é a mais nova das irmãs Koda, com Kaho a transmitir a personalidade peculiar e inocente desta jovem que desde cedo forma amizade com a meia-irmã. A casa do quarteto surge como um espaço quase intemporal, que reflecte muitas das histórias que estas viveram e contém no seu interior uma série de memórias. Note-se a ameixoeira que foi plantada pela avó das três irmãs, algo que leva a que estas colham anualmente os frutos que provêem da mesma, ou a ombreira da porta em que a altura de cada elemento do trio foi assinalada até chegarem à idade adulta, com a casa a conter "diferentes camadas" que foram introduzidas pelas três gerações que viveram no seu interior (algo que revela ainda um meritório e cuidado trabalho a nível do design de produção).

O espaço habitacional conta com uma larga varanda, diversas divisórias e um lugar onde as familiares prestam culto aos falecidos avós, com "Umimachi Diary" a expor de forma rápida e directa a importância que estes últimos tinham para as irmãs. A casa pertencia aos avós de Sachi, Yoshino e Chika, tendo ficado para estas após a mãe ter saído deste espaço, quando as protagonistas ainda eram jovens, um abandono que conduz a algum ressentimento por parte de Sachi. É exactamente no interior desta habitação que encontramos as irmãs a estabelecerem ou a fortalecerem laços, ou a protagonizarem um ou outro momento mais acalorado, sobretudo quando envolve alguma troca de falas entre Sachi e Yoshino, com "Umimachi Diary" a focar imenso as suas atenções nas situações em que o quarteto está reunido. Existe uma certa candura e ingenuidade a envolver as relações destas personagens, com Hirokazu Koreeda a conseguir muitas das vezes transformar episódios aparentemente simples, tais como as irmãs a comerem, ou a cozinharem, em algo simplesmente especial. Observe-se quando encontramos a enfermeira a ensinar um prato cozinhado pela progenitora à irmã mais jovem, ou o trecho em que as quatro colocam as suas iniciais nas ameixas, ou o momento em que Suzu fala com Chika sobre o pai.

A culinária surge como uma parte relevante das obras de Hirokazu Koreeda, inclusive do filme em análise, com diversas receitas e alimentos a trazerem consigo certas memórias e momentos de união entre alguns personagens. Um desses pratos é a cavala frita do restaurante da Srª Ninomiya (Jun Fubuki), um espaço frequentado por uma série de locais, inclusive pelos estudantes, que surge como um dos vários cenários que contribuem para a sensação de harmonia que existe em volta do enredo e do território, mesmo quando nem sempre tudo corre bem. Diga-se que a cidade costeira de Kamakura conta com uma relevância notória no interior do enredo, sejam as suas praias, as suas montanhas, ou os seus eventos, inclusive o fogo de artifício de dez de Agosto, com a atmosfera muito particular deste espaço citadino a contribuir para a brandura e a delicadeza que permeiam esta obra, enquanto ficamos perante os dilemas, revezes, conquistas, alegrias e tristezas das quatro irmãs, com especial foco em Suzu e Sachi.

Baseado na série de manga de Akimi Yoshida, "Umimachi Diary" aposta não só nos momentos em que as irmãs estão reunidas, mas também nas situações e episódios em que se encontram separadas umas das outras, ou duas a duas, algo que permite atribuir mais dimensão a estas personagens e exacerbar a individualidade de cada uma. Note-se a amizade que Suzu forma com o jovem Fûta (Ohshirô Maeda), um colega de equipa e de escola, ou a relação intrincada entre Sachi e o médico, ou a forma empenhada como Yoshino dedica-se ao seu novo ofício, ou a ligação muito especial que existe entre Chika e Sanzo Hamada (Takafumi Ikeda), o gerente da loja de desporto onde esta trabalha. Takafumi Ikeda consegue sobressair como Sanzo, um personagem peculiar e afável, que perdeu seis dedos a escalar o Evereste e aprecia imenso futebol. Outra das personagens secundárias que se destaca, embora esteja pouco tempo em cena, é Fumiyo (Kirin Kiki), a tia-avó de Sachi, Yoshino e Chika, uma senhora de idade algo avançada, relativamente conservadora e ponderada, que permite abordar a forma distinta como os elementos de diferentes gerações lidam com algumas situações, uma temática presente em diversas obras de Hirokazu Koreeda.

Quem também sobressai é Shinobu Ôtake, com a actriz a incutir uma dimensão inesperada à sua personagem, uma mãe ausente que tem consciência dos seus erros, algo particularmente perceptível quando a encontramos num cemitério com Sachi. Os rituais religiosos, o luto a conservação das memórias dos mortos e a morte surgem como ingredientes muito presentes ao longo do filme, com Hirokazu Koreeda a deixar-nos regularmente diante da efemeridade da vida, seja através da história de Srª Ninomiya, ou do funeral que decorre no início do filme, ou das flores de cerejeira, ou da exibição regular dos comboios (símbolos de chegada e partida, bem como da transitoriedade da vida). Essa atenção aos comboios remete para diversas obras de Yasujiro Ozu, um pouco à imagem da subtileza, honestidade e equilíbrio com que Hirokazu Koreeda aborda as relações familiares e as especificidades da sociedade japonesa, com as comparações entre os dois cineastas a estarem longe de serem descabidas ou exageradas. A banda sonora realça precisamente os ritmos harmoniosos e a delicadeza desta obra, com "Umimachi Diary" a transmitir uma sensação de serenidade, enquanto nos envolve pelo interior de Kamakura e das dinâmicas fascinantes e muito particulares de quatro irmãs cheias de alma e personalidade.

Título original: "Umimachi Diary".
Título em inglês: "Our Little Sister".
Realizador: Hirokazu Koreeda.
Argumento: Hirokazu Koreeda.
Elenco: Haruka Ayase, Suzu Hirose, Masami Nagasawa, Kaho, Takafumi Ikeda, Kirin Kiki, Shinobu Ôtake, Shin'ichi Tsutsumi, Ohshirô Maeda, Jun Fubuki.

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