10 maio 2018

Crítica: "Umi yori mo mada fukaku" (After the Storm)

 Como lidar com a noção de que não concretizámos os nossos sonhos ou objectivos? Qual a melhor forma de enfrentar a sensação de que não conseguimos corresponder a todas as expectativas que criaram em nosso redor? Estas são perguntas que parecem acompanhar e atormentar Ryota (Hiroshi Abe), o protagonista de "Umi yori mo mada fukaku", um detective endividado, que outrora chegou a ser considerado um escritor promissor. Diga-se que a espaços parece que Hirokazu Koreeda também está a confrontar-nos com essas questões, com o realizador a mesclar com precisão diversos elementos tipicamente japoneses com situações e sentimentos amplamente universais que ressoam e muito junto do espectador. O cineasta volta a agarrar em pequenos pedaços da vida e a transportá-los para o interior do enredo de um filme da sua autoria, enquanto regressa às temáticas e assuntos que envolvem as relações familiares, as ausências, o luto, a religião, o embate entre a modernidade e a tradição, as permanências e divergências entre gerações, a memória, sempre num estilo muito sóbrio, honesto e extremamente delicado.

Existe um enorme sentimento e sentido de harmonia a rodear não só os vários acontecimentos de "Umi yori mo mada fukaku", mas também a banda sonora, a composição dos planos e os gestos dos personagens, com Hirokazu Koreeda a deixar tudo fluir com imensa naturalidade e brandura. No centro de boa parte dos acontecimentos estão as relações familiares dos diversos elementos que passamos a conhecer ao longo do enredo, bem como as memórias que guardam e a forma como enfrentam o facto das suas vidas nem sempre terem prosseguido pelos caminhos que estes esperavam percorrer. A certa altura do filme, encontramos Yoshiko (Kirin Kiki), a mãe de Ryota, a questionar-se: "Pergunto-me porque os homens não conseguem amar o presente. Ou continuam a perseguir o que já perderam, ou continuam a sonhar além do seu alcance. Como podem aproveitar a vida desse jeito?" É uma pergunta pertinente, que reflecte paradigmaticamente os dilemas da maioria dos personagens desta longa-metragem, sobretudo do rebento da veterana. Diga-se que, em certa medida, Ryota depara-se com alguns dos problemas do falecido pai e apresenta comportamentos semelhantes ao mesmo, sobretudo no que diz respeito à capacidade de se endividarem, algo que preocupa a progenitora.

Hiroshi Abe incute um tom simultaneamente bem intencionado e errático ao seu personagem, um detective privado que faz questão de salientar que apenas está neste trabalho para pesquisar material para o seu novo livro. O problema é que a sua nova obra tarda em sair do campo das ideias, com o êxito do primeiro livro a prender o protagonista ao passado, embora, no presente, esteja numa situação financeira delicada, sobretudo por perder quase tudo no jogo. É mais forte do que ele. Recebe dinheiro e o pensamento seguinte passa por torrá-lo em apostas, típico de quem pretende comprar um sonho, ou a ilusão, embora estes sejam extremamente fugazes, pois a realidade logo trata de aparecer e demonstrar que os bolsos de Ryota estão ainda mais vazios depois deste jogar. No trabalho, este assume comportamentos pouco éticos, tais como extorquir dinheiro de um adolescente, ou enganar um cliente para conseguir uma verba mais elevada, tendo muitas das vezes a companhia de Machida (Sôsuke Ikematsu), o seu parceiro, um detective compreensivo que o ajuda em diversas ocasiões. É certo que Ryota não é má pessoa, mas também é notório que comete alguns actos reprováveis, inclusive para com os seus familiares, com Hirokazu Koreeda a conseguir incutir várias camadas a este personagem deveras complexo e problemático.

Por vezes o detective desperta a nossa simpatia, em outras ocasiões a nossa reprovação, enquanto tarda em aprender a conviver com o presente, seja no que diz respeito à sua vida profissional ou privada. Note-se a sua dificuldade em lidar com o facto de que Kyoko (Yôko Maki), a sua ex-mulher, mantém um caso com outra pessoa e pretende seguir em frente com a sua vida. "Não era para ter acabado assim", diz Ryota a certa altura do filme, algo corroborado por Kyoko, com ambos a demonstrarem que outrora existiu algo de muito forte a ligá-los e tinham a expectativa de serem felizes, embora também haja imenso a separá-los, sobretudo a incapacidade do primeiro em ganhar responsabilidade. A unir estes dois personagens encontra-se o jovem Shingo (Taiyô Yoshizawa), o filho do antigo casal, um rapaz que tem de lidar com os problemas dos adultos ao mesmo tempo que se depara com questões típicas da idade. O antigo escritor apenas pode ver o filho uma vez por mês, teme que a aproximação da ex-mulher a outro homem o afaste ainda mais do rebento e falha regularmente o pagamento da pensão, com os encontros entre ambos a serem sempre muito ansiados pelo primeiro. A relação entre pai e filho é marcada por imensas ausências e pela dificuldade do primeiro em ganhar responsabilidade, sendo exposta com enorme subtileza ao longo do filme, com o argumento e o trabalho dos actores a contribuírem para transmitir a noção de que estamos diante de personagens que se conhecem muito bem uns aos outros.

Esse conhecimento é visível quando encontramos Shingo a perguntar ao pai se este precisa de dinheiro, ou nos deparamos com os receios de Ryota em relação à possibilidade de Chinatsu (Satomi Kobayashi), a sua irmã mais velha, aproveitar-se da mãe, um sentimento que é recíproco, com os diálogos a contribuírem e muito para sublinharem alguns traços da personalidade destes elementos e diversos ingredientes das suas dinâmicas. Diga-se que Hirokazu Koreeda volta a deixar-nos perante três gerações de uma família e as relações intrincadas dos seus membros, com Kirin Kiki a sobressair como a veterana Yoshiko, a avó paterna de Shingo. Kirin Kiki exibe exemplarmente a solidão, o sentido de humor e a afabilidade da sua personagem, uma idosa que ficou viúva há relativamente pouco tempo e tem na música clássica uma forma de socializar com os vizinhos e fugir à solitude. Esta vive num dos vários apartamentos do Complexo Habitacional de Asahigaoka, situado em Kiyose, um local que a espaços parece reforçar o isolamento da veterana. De notar que Hirokazu Koreeda viveu neste território de Kiyose entre os nove e os vinte e oito anos de idade, com o cineasta a voltar a inserir elementos pessoais no interior da sua obra, um pouco a fazer recordar "Aruitemo aruitemo", onde também ficamos perante as dinâmicas de uma família e a sensibilidade e a sagacidade típicas do cineasta a abordar as temáticas que povoam o enredo. 

O estilo do realizador a espaços traz à memória a subtileza com que Mikio Naruse ou Yasujiro Ozu abordavam as dinâmicas familiares e as divergências e confluências geracionais, bem como as particularidades da sociedade japonesa. Diga-se que de Naruse encontramos ainda a falta de dinheiro como um elemento que afecta e muito a vida de alguns personagens. Essa sensibilidade de Hirokazu Koreeda é particularmente notória quando fecha boa parte dos seus personagens no interior da habitação de Yoshiko. No caso mencionado, a chegada de um tufão coincide com a presença de Shingo, Kyoko, Ryota e Yoshiko na casa desta última. É um recurso que Hirokazu Koreeda utiliza não só para reunir estes personagens, mas também para colocá-los a falar sobre o presente, o passado e o futuro, algo que resulta em momentos dotados de alguma candura, humor, ou tristeza, ou seja, por uma multitude de sentimentos. Note-se como um diálogo comovente entre a personagem interpretada por Kirin Kiki e Ryota sobre a morte logo adquire alguma ligeireza, ou a tocante troca de falas entre a primeira e o neto, ou a terna conversa entre esta e a antiga nora.

Se a tempestade ocorre fora da habitação, já no seu interior decorre uma partilha de sentimentos e de palavras, com a sensibilidade e a franqueza a marcarem uma fatia considerável dos diálogos. Boa parte desta troca de falas é exposta ou em planos de conjunto ou em subtis jogos de planos e contraplanos, enquanto o elenco destaca-se pela capacidade de atribuir espessura aos seus personagens e de transmitir a sensação de que estamos a observar algo profundamente sincero. Yôko Maki deixa transparecer a responsabilidade da sua personagem e o apreço que esta tem pela antiga sogra e os sentimentos antagónicos que nutre pelo ex-marido, enquanto Taiyô Yoshizawa tem um desempenho extremamente competente como este rapaz que pretende ser um funcionário público, gosta de estar com o pai e é bastante próximo da mãe. É certo que já realçámos as qualidades de Kirin Kiki e Hiroshi Abe, embora seja impossível deixar de lado uma menção a um trecho em que Teresa Teng é trazida ao barulho e muito é sentido, com Hirokazu Koreeda a fazer com que tudo se mantenha num equilíbrio que diz muito sobre estas figuras.

Realizador sempre atento aos pormenores, Hirokazu Koreeda consegue que alguns "pequenos" gestos transmitam imenso sobre os personagens e tragam as nossas memórias pessoais ao de cima. Observe-se quando Yoshiko começa a dizer adeus aos familiares a partir da sua janela, um gesto que exprime a doçura da personagem e é uma fotocópia daquilo que acontece quando vou a casa da minha avó paterna. Note-se ainda o momento em que encontramos o protagonista a partilhar um momento com o filho semelhante àquele em que viveu na infância com o pai, ou a explicar pormenores sobre o passado deste espaço ao rebento, um conjunto de episódios que se repetem de forma sistemática quando vou com o meu progenitor a casa da minha avó ou quando este fala do seu passado, com Hirokazu Koreeda a conseguir que "Umi yori mo mada fukaku" dialogue de modo bem vivo com o espectador. A unir esta obra a outros trabalhos do realizador estão também a religião e a espiritualidade. Veja-se quando Yoshiko trata uma borboleta como se fosse o esposo, algo que traz à memória o trecho em que Toshiko pensa que o mesmo animal é o falecido filho no já mencionado "Aruitemo aruitemo". 

Os dois episódios mencionados são conectados não só por Kirin Kiki, a intérprete das duas personagens, mas também pela forma muito própria como estas lidam com a morte e o luto. No caso da mãe de Ryota, esta não esconde a solidão, embora também não tenha problemas em fazer algumas piadas sobre o falecido, quase como se este ainda estivesse vivo e fosse capaz de ouvir as suas palavras, com a veterana a contar com uma espirituosidade que a espaços contribui e muito para aligeirar o enredo. Esta demonstra alguma dificuldade em compreender a facilidade com que os casais terminam as relações nos dias de hoje, algo que permite explanar o contraste na forma como as diferentes gerações encaram a vida, uma temática que percorre alguns momentos do filme. A casa de Yoshiko surge como um espaço com algum relevo no interior do enredo, com o trabalho de decoração deste espaço a revelar-se extremamente eficaz. Observe-se os bilhetes da lotaria que reflectem o gosto do progenitor do protagonista pelo jogo, ou as fotografias que conservam uma série de memórias, ou o pé de tangerina que parece simbolizar a estagnação de Ryota, ou a cozinha preenchida por uma panóplia de instrumentos que reflectem o gosto da veterana pela cozinha.

A culinária e as receitas surgem como uma parte relevante de diversos filmes de Hirokazu Koreeda, com alguns pratos a trazerem diversas memórias ao de cima e a permitirem um contacto entre gerações. No caso, o elemento de união é o curry de Yoshiko, uma das personagens mais marcantes deste drama pontuado por algumas doses de humor, delicadeza e uma enorme humanidade. Tudo é abordado de forma subtil e extremamente sensível, enquanto somos gradualmente invadidos por uma enorme sensação de paz interior e um revigorar da nossa paixão pelo cinema. 

Título original: "Umi yori mo mada fukaku".
Título em inglês: "After the Storm".
Realizador: Hirokazu Koreeda.
Argumento: Hirokazu Koreeda.
Elenco: Kirin Kiki, Hiroshi Abe, Yôko Maki, Taiyô Yoshizawa.

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