27 maio 2018

Crítica: "Fuchi ni tatsu" (Harmonium)

 "Fuchi ni tatsu" começa com os sons cadenciados de um harmónio, quase a transmitir uma sensação de paz e inocência. No final, não escutamos um som controlado, mas sim o barulho proveniente de uma respiração ofegante e descompassada, algo que sublinha de forma paradigmática a tensão crescente e a inquietação que envolvem o enredo desta longa-metragem realizada por Kôji Fukada. Esses sentimentos mais irrequietos tomam forma a partir do momento em que Yasaka (Tadanobu Asano) se envolve no interior da casa de Toshio (Kanji Furutachi) e Akié (Mariko Tsutsui), um casal que mantém uma relação relativamente fria e conta com uma filha, a jovem Hotaru (Momone Shinokawa). Tadanobu Asano é essencial para adensar o mistério em redor de Yasaka, um amigo de longa data de Toshio, que cumpriu pena de prisão, guarda alguns segredos sobre este último e conta com objectivos nem sempre claros. O intérprete incute uma faceta simultaneamente enigmática, perigosa e afável ao seu personagem, um indivíduo algo fechado, que mexe com o quotidiano do casal, sobretudo a partir do momento em que o antigo companheiro o convida para trabalhar consigo e para viver num quarto da sua casa. Akié fica perplexa com a decisão do esposo, embora a relação de ambos seja marcada por um distanciamento notório, algo que ajuda a explicar o facto desta não ter sido consultada. 

Essa distância é exposta de forma bastante precisa nos momentos iniciais do filme, em particular, quando encontramos o casal à mesa com a filha, com Toshio a pouco ou nada a falar com a esposa. Note-se ainda quando observamos Hotaru e Akié a rezarem antes de começarem a comer, um acto que não é partilhado pelo personagem interpretado por Kanji Furutachi, naquele que é um dos vários gestos que sinalizam o afastamento entre ambos. O actor insere uma personalidade fechada ao seu personagem, um indivíduo aparentemente introvertido, que conta no seu interior com um certo sentimento de culpa e receia o amigo de longa data, embora integre o mesmo no seio do seu lar e da sua oficina (situada no interior da habitação). Kôji Fukada deixa inicialmente no ar algum mistério em relação às verdadeiras razões que conduziram Toshio a trazer Yasaka para o seu lar e para o seu local de trabalho, enquanto joga com as emoções dos personagens e dos espectadores. Note-se a amizade que o antigo presidiário forma com Akié, com ambos a partilharem momentos reveladores e sentimentos quentes, com Mariko Tsutsui e Tadanobu Asano a contarem com uma química relativamente convincente e a expressarem com precisão as especificidades que permeiam as dinâmicas dos seus personagens. 

Akié e Yasaka sentem-se solitários e feridos na alma, embora este último pareça esconder no seu interior um vulcão de emoções que a qualquer momento pode entrar em erupção e trazer problemas. O guarda-roupa contribui para adensar o mistério em redor do antigo presidiário, com o trabalho de Keiko Murashima a merecer ser realçado. Observe-se a farda branca de Yasaka, pronta a enfatizar uma sensação de vazio e impessoalidade, ou a camisa da mesma tonalidade e as calças pretas que este utiliza, algo que desperta um sentimento semelhante às vestes que usa no trabalho. Note-se ainda a camisola de manga curta vermelha que o personagem interpretado por Tadanobu Asano tem vestida numa fase crucial da primeira metade do filme, uma tonalidade que realça uma sensação de ameaça e os sentimentos contraditórios que permeiam a alma deste indivíduo. A escolha desta cor não é inocente e tem uma finalidade bastante precisa, com este recurso a ser repetido em diversas ocasiões do filme, inclusive no âmbito do guarda-roupa de outros personagens. Veja-se o vestido encarnado que Hotaru tem no seu corpo quando está numa situação de maior perigo. Esta mantém uma relação relativamente próxima com a mãe e começa gradualmente a formar uma certa amizade com o amigo do pai, sobretudo a partir do momento em que o antigo presidiário começa a ajudá-la para os ensaios de um espectáculo no qual esta vai tocar harmónio. 

A partir de um determinado momento ocorre uma reviravolta que mexe com a família de Toshio e contribui para que Kôji Fukada explore mais a fundo a relação pouco calorosa deste núcleo familiar e a desintegração do mesmo. O enredo avança oito anos, algo que permite desenvolver as consequências desse episódio negro, com a chegada de Takashi (Taiga), um jovem, para trabalhar na oficina de Toshio, a contribuir para reabrir feridas mal saradas. Nesta fase de "Fuchi ni tatsu" é Mariko Tsutsui quem mais sobressai, com a actriz a explanar a dor, a culpa e as perturbações com que a sua personagem conviveu ao longo destes últimos anos. Praticamente não fala com o esposo, pelo menos até descobrir um segredo, tendo assumido ainda uma atitude excessivamente protectora no que diz respeito à filha. Hotaru é interpretada nesta fase do enredo por Kana Mahiro, uma intérprete que cumpre a expor as limitações da sua personagem. Por sua vez, Kanji Furutachi apresenta a espaços uma atitude que varia entre uma surpreendente leveza e uma sensação de culpa e um certo desejo de vingança, com o seu Toshio a esconder uma panóplia de segredos negros. 

Em alguns momentos quase parece que estamos a ser atirados para o interior de uma tragédia grega, com "Fuchi ni tatsu" a captar e expor o colapso de uma família. O ressentimento, a tensão e a culpa marcam algumas das dinâmicas destes personagens, seja entre Yasaka e Toshio, ou entre este último e a esposa, algo bastante bem arquitectado por Kôji Fukada. Essa mescla de mágoa e remorso é particularmente notória quando encontramos o antigo presidiário a proferir um conjunto de falas mais duras junto do amigo. Pouco depois, Yasaka salienta que está a explanar aquilo que Toshio pensa que ele quer dizer, apesar de parecer claro que queria mesmo expor a dor que sente em relação ao seu interlocutor. No momento concreto, a câmara pode manter-se imóvel, mas as palavras e os sentimentos estão em pleno movimento, enquanto o som dos pássaros insere um ambiente inesperadamente bucólico a este episódio inquietante.  

O trecho mencionado decorre num espaço florestal, um lugar onde mais tarde encontraremos dois personagens a cederem temporariamente ao desejo. Esse momento de cedência aos prazeres fugazes decorre precisamente junto de hibiscos, cujas flores são vermelhas, uma tonalidade que sublinha o fervor que pontua este episódio e conta com uma enorme relevância no interior desta poderosa obra cinematográfica. É uma cor que se relaciona na justa medida com o enredo e a atmosfera de "Fuchi ni tatsu", um drama emocionalmente intenso, que nos transporta gradualmente para o interior das profundezas da alma humana e das dinâmicas intrincadas que envolvem os seus protagonistas. Entre ressentimentos antigos e segredos que conhecem a luz do dia, relações em erosão e affairs inesperados, momentos de acalmia e situações inquietantes, os personagens desta obra cinematográfica demonstram toda a sua complexidade e a consistência do argumento de Kôji Fukada, um cineasta que tem aqui um trabalho de um calibre assinalável.

Título original: "Fuchi ni tatsu". 
Título em inglês: "Harmonium". 
Realizador: Kôji Fukada.
Argumento: Kôji Fukada.
Elenco: Tadanobu Asano, Kanji Furutachi, Mariko Tsutsui, Momone Shinokawa, Kana Mahiro, Taiga.

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