14 abril 2018

Crítica: "La tenerezza" (2017)

 O título de "La tenerezza" não engana. Estamos diante de um drama terno, que a espaços tem a capacidade de partir o nosso coração, mesmo quando cede excessivamente ao sentimentalismo, ou cai em redundâncias. A selecção da canção "Mia fora thumamai" para abrir o filme exacerba a faceta melancólica, doce e comovente desta obra cinematográfica inspirada no livro "La tentazione di essere felici", com a restante banda sonora a acompanhar a música de abertura. A banda sonora é inserida de maneira harmoniosa no interior do enredo, com o realizador Gianni Amelio a saber utilizá-la ao serviço da história e dos acontecimentos que retrata. No início de "La tenerezza" somos colocados diante de Elena (Giovanna Mezzogiorno) a traduzir em tribunal as palavras que um migrante profere diante de um juiz. Pouco tempo depois, acompanhamos a tradutora no hospital, onde encontra Saverio (Arturo Muselli), o seu irmão, com os dois a terem ido visitar Lorenzo (Renato Carpentieri), o pai de ambos, um advogado caído em desgraça que sofreu um ataque cardíaco. Esta fala com o pai, enquanto o veterano finge que se encontra a dormir, algo que permite dar a conhecer que os dois contam com uma relação conturbada. Inicialmente pensamos que esta é a protagonista, sobretudo pelo realizador Gianni Amelio conceder-lhe imensa atenção, embora o destaque passe rapidamente para o personagem interpretado por Renato Carpentieri, com o actor a surgir como a grande alma do filme. 

 Renato Carpentieri tem o dom de fazer com que acreditemos no seu personagem, um veterano que tanto tem de egoísta e pouco caloroso como de prestável e afável, com o actor a conseguir transmitir a solidão do veterano e o seu estilo desembaraçado, bem como a sua personalidade vincada. Sabemos que não é perfeito, mas é exactamente isso que o torna profundamente humano e completo como personagem, com Gianni Amelio a fornecer-nos gradualmente mais informações sobre o protagonista ao mesmo tempo que concede espaço para Renato Carpentieri ter diversos momentos merecedores de atenção. Lorenzo é um viúvo que habita sozinho no interior de um apartamento situado em Nápoles, uma cidade que é exposta com sobriedade em alguns momentos do filme. Quando regressa a casa, após o internamento, depara-se com Michela (Micaela Ramazzotti), a sua nova vizinha, sentada nas escadas do prédio. Logo travam conversa e rapidamente formam amizade. Ela esqueceu-se das chaves, tem um sorriso contagiante e permite a Micaela Ramazzotti colocar mais uma vez em evidência que é uma actriz de enorme talento. Esta expõe as inquietações da sua personagem, o seu lado mais frágil e doce, bem como a afeição que nutre pelos filhos e por Fabio (Elio Germano), o seu esposo. Se a relação de Lorenzo com os filhos é contaminada por mágoas, desentendimentos antigos e um certo afastamento, já a ligação que este forma com a família de Michela é marcada pela ternura e cumplicidade. 

Tanto Michela como Fabio parecem ser boas pessoas, embora este último apresente uma instabilidade emocional que deixa antever problemas. Note-se quando Fabio e os familiares são importunados por um vendedor de rua, com o primeiro a perder o controlo e a partir para uma atitude mais violenta. Elio Germano tanto se destaca nestes momentos mais tensos como a expor o amor que Fabio sente pela esposa e os filhos, ou as suas inquietações como pai, com o actor a exibir uma dinâmica convincente com Micaela Ramazzotti e Renato Carpentieri. Observe-se ainda o momento em que Fabio tenta adquirir um brinquedo que lhe traz a infância à memória, com os gestos nervosos e inquietos do intérprete e o seu tom de voz a permitirem expressar a fragilidade emocional do personagem. A partir de um determinado momento ocorre uma reviravolta que incute momentaneamente um tom mais negro ao filme e surpreende-nos de sobremaneira. Não podemos revelar mais pormenores, embora este plot twist traga consigo uma tragédia ao mesmo tempo que permite exibir a capacidade destrutiva do ser humano e um lado mais introspectivo e sensível do protagonista. 

Lorenzo tanto tenta isolar-se como procura contactar com pessoas que outrora tiveram importância na sua vida, embora nem sempre consiga compreender a filha ou ser entendido pela mesma. A relação entre o antigo advogado e Elena é complicada, com ambos a contarem com personalidades muito semelhantes, ou seja, vincadas e fechadas, embora exista algo de forte a ligá-los, seja o respeito mútuo, os laços de sangue, ou o afecto por Francesco (Renato Carpentieri Jr.), o filho da tradutora, um rapaz que tem alguma proximidade com o avô. Se Elena tem alguns momentos de relevo (e permite que Giovanna Mezzogiorno sobressaia), já Saverio praticamente não evolui ao longo do enredo, com Arturo Muselli a contar com um dos personagens mais desinteressantes do filme. As dificuldades de comunicação entre Saverio e o pai pouco são desenvolvidas ou sentidas, com as dinâmicas entre estes personagens a raramente serem exploradas ao longo do filme. Diga-se que nem tudo é desenvolvido na justa medida ou de forma pertinente, algo que se torna evidente em episódios como a inauguração do bar de Saverio, ou a visita do protagonista à mulher com quem manteve um caso quando a esposa ainda era viva, com estes dois acontecimentos a acrescentarem pouco ao enredo. 

Se a dinâmica entre Saverio e Lorenzo não funciona, já entre este último e Michela convence, bem como entre o protagonista e a filha. Não podemos ainda deixar de mencionar uma personagem secundária que se consegue destacar, nomeadamente, Aurora (Greta Scacchi), a mãe de Fabio. Esta partilha alguns episódios de relevo com Lorenzo, sobretudo aquele em que dialogam no interior do elevador de um hospital, com o reflexo de ambos a aparecer em destaque nas paredes do ascensor, algo que reforça a duplicidade que envolve as suas presenças neste espaço, ou a dupla não utilizasse identidades falsas para contactar com uma paciente. A cena do elevador é um dos trechos bem arquitectados de "La tenerezza", com Gianni Amelio a realizar uma obra singela nas suas pretensões, que não engana em relação ao seu objectivo de comover o espectador e de puxar ao sentimento (por vezes em excesso), enquanto aborda temáticas como a solidão, a faceta destruidora do ser humano, as memórias que marcam a alma, as dificuldades de comunicação entre pais e filhos, ou entre casais. Diga-se que este é também um filme sobre um homem solitário que se aproxima e afasta daqueles que lhe são próximos, que surpreende aqueles que o rodeiam e é surpreendido pelo destino. Tudo é abordado com enorme simplicidade e de forma muitas das vezes afectuosa, sempre sem deixar de lado as características de melodrama que marcam as fundações de "La tenerezza".

Título original: "La tenerezza"
Realizador: Gianni Amelio.  
Argumento: Gianni Amelio. 
Elenco: Renato Carpentieri, Giovanna Mezzogiorno, Micaela Ramazzotti, Elio Germano, Arturo Muselli, Greta Scacchi, Maria Nazionale.

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