15 abril 2018

Crítica: "L'ora legale" (2017)

 Capaz de despertar reflexão e de fazer com que questionemos os nossos valores e práticas diárias, "L'ora legale" surge como uma comédia mordaz, extremamente certeira nos seus comentários e a escarnecer dos hábitos do povo e dos políticos italianos, sobretudo no que diz respeito ao enraizamento da ilegalidade. O enredo tem como pano de fundo uma cidade ficcional do Sul de Itália, embora boa parte das suas temáticas sejam extremamente universais, algo que potencia o efeito de alguns dos comentários e dos gags que pontuam a quinta longa-metragem realizada por Ficarra e Picone. Será que queremos que as leis sejam respeitadas? Desejamos que os políticos cumpram todas as suas promessas eleitorais? Pretendemos alguém verdadeiramente honesto a governar? Os cidadãos de Pietrammare, uma cidade situada na Sicília, pretendem uma mudança. Diga-se que no início do filme quase todos os habitantes deste espaço citadino responderiam afirmativamente a estas três questões, ou o local onde habitam não estivesse num estado caótico e em campanha eleitoral.

Nos momentos iniciais de "L'ora legale" somos colocados perante as campanhas de Pierpaolo Natoli (Vincenzo Amato) e Gaetano Patanè (Tony Sperandeo) para a presidência da câmara municipal. O primeiro é um professor conhecido pela seriedade e honestidade, tem um programa muito claro para governar o território e é respeitado pela comunidade local. O segundo é o actual presidente, um indivíduo que procura continuar as suas políticas pouco claras, é contestado e não tem problemas em fugir à verdade ou em desrespeitar a lei. Note-se quando defende em entrevista o serviço que efectuou ao longo dos seus mandatos, enquanto somos colocados perante o caos que reina no território, seja o trânsito excessivo, o lixo pelas ruas ou o desrespeito pelas leis. É um momento pontuado por algum humor, que transmite paradigmaticamente a ideia de que é necessária uma mudança no interior deste espaço citadino. A contestação a Patanè é notória, embora o político conte com o apoio de elementos como Salvo (Ficarra), o irmão da falecida esposa de Natoli. Salvo possui um quiosque em sociedade com Valentino (Picone), o esposo de Francesca (Ersilia Lombardo), a irmã do professor. Por sua vez, o personagem interpretado por Picone é um apoiante de Natoli, algo que leva a um ou outro choque entre os dois sócios e protagonistas desta comédia.

Ficarra imprime uma faceta algo insolente, extrovertida e peculiar ao seu personagem, um indivíduo que pretende estar ao lado de quem se encontra no poder para poder beneficiar da situação. Por sua vez, Picone insere um estilo mais sóbrio ao seu Valentino, com a dupla a exibir um domínio notório dos ritmos do humor e uma dinâmica extremamente convincente. A vitória do professor é celebrada por quase tudo e todos, inclusive por Salvo que logo procura retirar benefícios do facto de ser cunhado do actual presidente. No entanto, tudo muda a partir do momento em que Natoli começa a colocar as leis em prática e a quebrar com o ciclo de corrupção e desleixo que dominava Pietrammare. Veja-se quando a polícia entra em cena e começa a passar multas, ou o ultraje que todos sentem pela subida de um imposto semelhante ao "nosso" IMI, ou a tristeza dos guardas-florestais quando são chamados a cumprir serviço. Temos ainda situações hilariantes como os funcionários camarários a exibirem uma enorme surpresa por terem de ir picar o ponto e trabalhar, com o argumento de "L'ora legale" a utilizar falhas na engrenagem da nossa sociedade e da política local ao serviço do humor, sempre com alguns exageros e mordacidade à mistura.

Picone e Ficarra sabem utilizar esses exageros, o absurdo e a sátira, com a dupla a investir imenso na comédia de costumes e de situação. Tudo é exposto de forma simples, mas extremamente eficaz, com o elenco a destacar-se e a criar personagens que se adequam à atmosfera caótica que rodeia este território incapaz de conviver com o cumprimento da lei. Os elementos do elenco que mais se destacam são Picone e Ficarra como uma dupla peculiar que pretende ampliar o seu quiosque de forma a aumentar as possibilidades de negócio durante o Inverno, embora a presença do cunhado na presidência esteja longe de facilitar os objectivos de ambos. As medidas de Natoli mexem momentaneamente com as dinâmicas destes personagens e da cidade, com a revolta contra o novo presidente a começar a ser geral, enquanto "L'ora legale" aproveita para expor com alguma sagacidade e humor a dicotomia entre aquilo que queremos e o que pretendemos cumprir, com o argumento a questionar alguma da nossa hipocrisia.

"Nesta cidade nunca funcionou nada" comenta Valentino. "E sempre estivemos bem" responde imediatamente Salvo, uma afirmação que expõe de forma paradigmática que o incumprimento das leis é algo enraizado no interior desta cidade (e não só). Diga-se que os diálogos contam com uma série de observações que realçam as falhas da nossa sociedade. Desde a procura dos familiares em quererem ser favorecidos, passando pelas tentativas que diversos elementos efectuam para obterem favores, até à fuga aos impostos e ao desleixo para com a lei, "L'ora legale" utiliza o humor para comentar assuntos sérios e escarnecer com as figuras que pontuam o enredo e satirizar a nossa sociedade. Como já foi salientado, muito é exposto com recurso a alguns exageros para efeitos humorísticos, embora algumas dessas situações não estejam assim tão distantes da realidade, com Picone e Ficarra a utilizarem o riso para comentarem algumas das especificidades do Sul de Itália, ainda que estes comentários ecoem e muito ao redor do Mundo, inclusive aqui em Portugal.  

Em determinado momento do filme, encontramos alguns cidadãos exaltados devido ao facto de Salvo e Valentino não poderem passar à frente na fila. É um dos episódios em que o humor é utilizado para expor e satirizar alguns dos vícios da nossa sociedade, nomeadamente, a diferenciação de tratamento e a tentativa de utilizar os contactos para retirar benefícios. Natoli não quer favorecer os familiares, nem utilizar o poder para proveito próprio, com Vincenzo Amato a conseguir incutir sinceridade ao seu personagem e a transmitir o apreço que este tem pela lei, algo que o distingue do seu antecessor. Por sua vez, Tony Sperandeo encarna o estereótipo do político corrupto e oportunista, sempre sem incutir grande densidade ao personagem, embora consiga sobressair em alguns momentos da fita. "L'ora legale" conta ainda com uma série de figuras que atribuem mais tempero ao enredo, seja o padre (Leo Gullotta) que cedo se revolta com a perda de regalias, ou o arrumador de carros que não se conforma com a extinção do seu ganha-pão, ou os polícias que não aguentam mais passar multas, com a maioria a ser integrada no interior de uma série de episódios que tanto têm de divertidos como a espaços trazem um amargo de boca ao espectador.

A capacidade de encontrar o humor na tragédia e os comentários sobre a sociedade do seu tempo surgem como ingredientes de peso das chamadas comédias à italiana. "L'ora legale" não é diferente, sobretudo no último terço, quando a dupla de realizadores surpreende ao esvaziar um discurso emotivo e exibir um certo cinismo em relação à humanidade. A felicidade vem acompanhada pela desesperança, enquanto a lei e o bem comum são regularmente derrotados pelo "amiguismo" e pelo individualismo. Diga-se que o filme também aborda o risco de aplicar a lei de forma cega e encontra espaço para aqui e ali expor a relação dos dois protagonistas com a família. Salvo é casado com Maria (Alessia D'Anna), com quem tem um filho, um jovem que recebe alguns conselhos peculiares do pai, com o casal e o petiz a serem afectados pelas políticas de Natoli. As dinâmicas entre Valentino e a esposa também são marcadas pelos actos do professor, com a segunda a procurar defender o irmão, enquanto o primeiro, aos poucos, começa a deixar de estar ao lado do familiar. Já Natoli é viúvo, tendo na sua filha (Eleonora De Luca), uma jovem que se encontra no conservatório, um apoio extremamente importante.

O título da obra remete para o horário de Verão, com a alteração da hora a trazer também uma mudança política. No entanto, o calor da lei começa a ser demasiado abrasador para os cidadãos desta cidade, com a maioria a começar a clamar por uma brisa outonal e o regresso ao horário de Inverno. Com uma dupla de protagonistas que conta com dinâmicas extremamente convincentes, uma capacidade notória de utilizar o humor para observar alguns dos problemas da nossa sociedade e para provocar reflexão, "L'ora legale" surge como uma agradável e divertida surpresa da programação da 11ª Festa do Cinema Italiano.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª Festa do Cinema Italiano

Título original: "L'ora legale".
Realizadores: Ficarra e Picone.
Argumento: Ficarra, Picone e Edoardo De Angelis.
Elenco: Ficarra, Picone, Vincenzo Amato, Tony Sperandeo, Eleonora De Luca, Alessia D'Anna.

Sem comentários: