13 abril 2018

Crítica: "L'intrusa" (2017)

 A humanidade, a delicadeza, a subtileza e a precisão com que aborda as suas temáticas e desenvolve os seus personagens são alguns dos maiores trunfos de "L'intrusa", a segunda longa-metragem de ficção realizada por Leonardo di Costanzo. Outro dos seus trunfos é Raffaella Giordano, com a intérprete a conseguir transmitir a bondade e o altruísmo da sua Giovanna, uma assistente social que tem um papel activo a ajudar os outros, nomeadamente, através do centro "La masseria", que fundou há largos anos e gere com afinco. O centro foi criado com o objectivo de cuidar das crianças mais desfavorecidas no período pós-escolar e proporcionar actividades e apoios que permitam evitar que estes rapazes e raparigas se envolvam em problemas. Diga-se que as rotinas desta instituição são apresentadas com uma eficácia notória, com os momentos iniciais a deixarem-nos desde logo perante algumas das actividades que decorrem no local, bem como com a interacção entre os jovens com os vários assistentes sociais. Uns jovens estão no grupo destinado à pintura, outros a arranjarem bicicletas, com Giovanna a surgir como o grande elo de ligação e alma deste espaço. No entanto, esta é colocada perante um dilema intrincado que não só coloca o funcionamento do centro em risco, mas também desafia os seus valores e as dinâmicas deste espaço.

O dilema nasce de um episódio que ocorre ainda numa fase bastante prematura do filme. Diga-se que este episódio permite colocar em evidência a forte influência da máfia no território, ou o centro não estivesse situado em Nápoles. Giovanna deixara que Maria (Valentina Vannino) e os seus dois filhos permanecessem temporariamente numa casa no interior do centro que é destinada aos mais desfavorecidos. O que a protagonista não sabia é que Maria é esposa de Amitrano (Carmine Paternoster), um membro da Camorra. Muito menos que este é perseguido pelo assassinato de um indivíduo e está escondido no interior deste espaço habitacional. A protagonista descobre tudo isto da pior forma: quando a polícia cerca a habitação onde a personagem interpretada por Valentina Vannino está instalada. Esta abandona temporariamente o local, mas regressa passado pouco tempo, algo que gera alguma apreensão tanto nos trabalhadores como nos pais dos petizes e no grupo de responsáveis da escola que deixa os alunos deslocarem-se ao centro. Giovanna é pressionada por quase tudo e todos para expulsar Maria e os dois rebentos do local, embora a protagonista faça questão de tentar que os seus valores prevaleçam e de evitar tomar decisões precipitadas. Nesse sentido, a assistente social procura manter Maria no centro, bem como integrar Rita (Martina Abbate), a filha mais velha da segunda, junto dos outros jovens.

"Fora daquela cabana existe apenas o mundo do qual ela está a tentar escapar, em que o seu filho vai ficar como o seu pai. A La masseria existe apenas para tentar interromper este ciclo" diz Giovanna para o director da escola, enquanto exprime aquela que é para si uma das funções primordiais do centro que criou com o esposo. A protagonista conta com argumentos extremamente válidos para tentar manter Maria naquela habitação precária. Diga-se que o argumento também concede algumas justificações pertinentes aos elementos que pretendem a expulsão desta mulher, algo que deixa o espectador em debate consigo próprio. Por um lado, a melhor opção a tomar parece ser ajudar esta família. Por outro, é impossível não nos questionarmos se deixaríamos um familiar nosso num sítio em que esteja alguém tão ligado à máfia, sobretudo após o aparatoso cerco policial. Leonardo di Costanzo não julga os personagens, enquanto opta quase sempre pelo caminho mais subtil, sincero e delicado. Essa sinceridade e subtileza são particularmente visíveis no diálogo entre a protagonista e o director, ou quando o cineasta decide não revelar o que acontece no interior de uma reunião entre Maria e a família do esposo. 

No episódio mencionado encontramos um carro preto a aparecer e a trazer consigo uma sensação de receio e incerteza. Do veículo saem duas mulheres, que logo entram na casa. Pouco depois, Rita abandona temporariamente a habitação. Não são necessários diálogos para percebermos que a conversa vai ser séria e subir de tom, embora nunca saibamos totalmente o que foi dito. Ainda ouvimos algumas vozes exaltadas em fora de campo, mas Leonardo di Costanzo prefere concentrar as suas atenções no olhar triste de Rita, enquanto Giovanna tenta entrar em contacto com a jovem e fazer com que esta se sinta à vontade. Martina Abbate consegue transmitir que estamos diante de uma rapariga que foi criada num meio marcado pela violência e alguma crueza, embora conserve no seu interior uma certa inocência e um bom coração. Diga-se que o argumento aborda com eficácia o quanto os filhos sofrem com os actos dos pais ou com situações relacionadas com os mesmos, bem como a forma como a jovem é discriminada devido às acções do progenitor. Note-se o receio que Rita tem da polícia, ou o momento em que exibe ter vergonha do pai, ou o caso que envolve Ernestina, uma rapariga que se encontra traumatizada devido a ter presenciado um acto violento. 

Rita é integrada no interior do grupo de Giulio (Gianni Vastarella), o responsável por organizar os arranjos das bicicletas. Não faltam momentos de acalmia e de tempestade entre os jovens, bem como de alguma criatividade, sobretudo quando envolvem a criação do Mr. Jones, uma criatura metálica movida a pedais que está a ser desenvolvida para uma festa organizada pela instituição. A mexer com os ritmos da instituição está a presença de Maria, a intrusa do título. Valentina Vannino incute um tom inicialmente arisco à sua personagem, uma mulher introspectiva e lacónica, que procura cortar os laços com a máfia e a família do esposo. Esta procura manter uma certa distância de Giovanna, nem sempre é polida nas suas respostas, mas exibe um certo sentido de honra e dignidade. Note-se quando proíbe que a filha tire comida sem autorização da cozinha do centro, ou a sua atitude quando percebe que a sua presença está a mexer em demasia com as dinâmicas deste espaço. Giovanna tenta ajudar Maria, embora nem sempre consiga derrubar a "capa" que esta coloca para se proteger. Diga-se que a esposa do mafioso está numa encruzilhada que a deixa praticamente sem ninguém para expor os seus sentimentos ou problemas, algo que dificulta ainda mais a sua tentativa de reorganizar a sua vida fora do meio que a rodeava. 

A certa altura do filme encontramos Maria a pintar os lábios e a colocar uns brincos. Estará pronta para se reerguer da queda e iniciar um novo percurso? Poucos segundos depois demonstra que ainda não está preparada, com o seu rosto a transmitir dor e um certo desencanto, com Leonardo di Constanzo a saber utilizar os silêncios ao serviço do enredo e a contribuir para a construção de um dos momentos mais notáveis do filme. É um dos vários momentos de "L'intrusa" em que o realizador faz com que praticamente esqueçamos a presença da câmara, com a cinematografia a ser pautada por uma aparente simplicidade que permite deixar todo o destaque nos intérpretes e nas figuras a quem dão vida. Leonardo di Costanzo aborda as histórias destes personagens e os seus dilemas com uma mistura de humanidade, sinceridade e realismo, enquanto desenvolve e observa as dinâmicas internas deste centro, estimula a reflexão e coloca-nos perante a enorme força interior e o idealismo de Giovanna. Esta sente que precisa de ajudar Maria. Nós sentimos que a sua ajuda é necessária. No entanto, nem todos têm a mesma perspectiva da protagonista, algo que a coloca perante uma posição difícil, embora esteja decidida a lutar por aquilo em que acredita. Raffaella Giordano transmite com sobriedade o empenho e a bondade da sua personagem, com a actriz a sobressair no interior deste drama subtil e relevante, sendo auxiliada pelo sólido argumento de Maurizio Braucci, Bruno Oliviero e Leonardo di Costanzo.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª Festa do Cinema Italiano.

Título original: "L'intrusa".
Realizador: Leonardo di Costanzo.
Argumento: Maurizio Braucci, Bruno Oliviero e Leonardo di Costanzo.
Elenco: Raffaella Giordano, Valentina Vannino, Martina Abbate, Carmine Paternoster, Gianni Vastarella.

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