07 abril 2018

Crítica: "La ragazza nella nebbia" (A Rapariga no Nevoeiro)

 "A primeira regra de um grande romancista é copiar" diz o professor Loris Martini (Alessio Boni) aos seus alunos num determinado momento de "La ragazza nella nebbia". O realizador Donato Carrisi (um conhecido escritor de policiais) segue à letra a regra de um dos personagens principais da sua primeira longa-metragem e embrenha-se pelos meandros dos noir, dos whodunit e dos policiais. Não faltam personagens moralmente ambíguos, a atmosfera de malaise, o crime, as dúvidas em relação à inocência do possível criminoso, as sombras de estores que transmitem uma sensação de prisão, a utilização de flashbacks, os fortes contrastes entre luz e sombra (algo realçado pelo trabalho de Federico Masiero na cinematografia), o mistério, entre outros elementos associados aos géneros e subgéneros mencionados. Pelo caminho, Donato Carrisi transporta-nos para o interior de Avechot, uma pequena cidade ficcional que se encontra situada no interior dos Alpes, um espaço onde quase todos se conhecem, embora, aparentemente, ninguém saiba as razões que conduziram ao desaparecimento de Anna Lou, uma adolescente de dezasseis anos de idade.

É precisamente no âmbito da investigação desse desaparecimento que o Inspector Vogel (Toni Servillo) é chamado à cidade de Avechot na véspera de Natal, sendo acompanhado pelo Agente Borghi (Lorenzo Richelmy), o seu assistente. No início do filme encontramos Vogel algo desorientado, após um aparente acidente de viação. Quem é chamado para o consultar é o doutor Flores (Jean Reno), um psiquiatra à beira da reforma que tem como hobbie pescar peixes da mesma espécie. "La ragazza nella nebbia" começa praticamente in media res (ainda temos uma espécie de prólogo), com o diálogo entre o médico e o inspector a surgir como o ponto de partida para Vogel explicar os acontecimentos que o conduziram ao consultório e a ter sangue nas suas roupas. Os flashbacks permitem dar a conhecer as peripécias que rodeiam a investigação liderada por Vogel, com Toni Servillo a aparecer como o maior trunfo desta obra. O actor imprime carisma, densidade, segurança e ambiguidade ao seu Inspector Vogel, naquele que é seu regresso aos personagens que têm de desvendar um mistério intrincado, um pouco à imagem do Comissário Sanzio em "La ragazza del lago". As comparações entre Vogel e Sanzio começam no seu intérprete e terminam praticamente nas suas funções, já que o primeiro assume uma postura muito particular para tentar resolver os seus casos: lançar um circo mediático em volta dos acontecimentos e dos potenciais culpados.

A postura de Vogel roça a imoralidade, embora permita que este consiga os recursos que pretende para a investigação. Em certa medida esta atitude do protagonista traz à memória algumas práticas políticas que envolvem a utilização da imprensa para desbloquear casos que se encontram num impasse, com Donato Carrisi a aproveitar ainda para abordar o papel nebuloso dos meios de comunicação social em casos do género. Estes tanto podem contribuir para culpar um inocente como para ajudar a investigar um caso, sendo maioritariamente representados por Stella Honer (Galatea Ranzi), uma jornalista ambiciosa e mordaz. Galatea Ranzi expressa com enorme à vontade estes traços da personalidade da sua personagem, algo que é sublinhado pelo seu guarda-roupa e a sua maquilhagem. Note-se o casaco vermelho que utiliza quando é apresentada, uma cor semelhante à do seu batom, ou as vestimentas arroxeadas que utiliza durante a apresentação de um directo, algo que remete para a faceta inquieta desta jornalista. Vogel pretende utilizar os serviços de Stella, enquanto esta procura receber informação privilegiada, com ambos a manterem dinâmicas pontuadas pela desconfiança e a partilharem a capacidade de protagonizarem actos moralmente duvidosos. 

O personagem interpretado por Toni Servillo busca fazer justiça a todo o custo e parece confiar pouco nos procedimentos que regem o seu código profissional e a lei. Este começa por analisar o território e por dialogar com os pais de Anna Lou, um casal bastante religioso, até encetar as buscas por suspeitos, com as suas acções a mexerem com o quotidiano desta pequena cidade. Até aos quarenta minutos de duração, "La ragazza nella nebbia" consegue envolver-nos para o interior desta investigação. Os planos e os movimentos de câmara contribuem para a atmosfera desconcertante e misteriosa, tal como o trabalho de iluminação, enquanto que os personagens despertam facilmente a atenção e o protagonista exibe um código de conduta muito próprio. No entanto, a primeira grande escorregadela de Donato Carrisi acontece quando apresenta Loris, algo que nos coloca perante dois problemas: a forma abrupta como o personagem é introduzido; os flashbacks estarem supostamente a ser contados do ponto de vista de Vogel. O primeiro exemplo é relativamente problemático devido a quebrar temporariamente o ritmo do enredo e parecer ter nascido de um erro de cálculo e de um trabalho de montagem mal-amanhado. O segundo demonstra descuido, pois é completamente impossível que o protagonista tenha um conhecimento tão aprofundado dos episódios que não presenciou.

Alessio Boni consegue despertar a dúvida em relação à inocência ou culpabilidade do personagem que interpreta, com o argumento a jogar com essa incerteza enquanto deixa inicialmente no ar a possibilidade deste poder ser vítima da tentativa do protagonista procurar encontrar um culpado à força. Se a introdução deste personagem no interior do enredo quebra o ritmo de "La ragazza nella nebbia", também não deixa de ser notório que permite, ainda que de forma pouco homogénea e subtil, introduzir as dinâmicas deste com a esposa e a filha. Percebemos que existe um episódio delicado no passado recente de Loris e Clea (Lucrezia Guidone) e que estes pretendem recomeçar de vida nesta cidade, embora o facto do primeiro ser considerado o principal suspeito do desaparecimento de Anna Lou mexa com os planos de ambos. Diga-se que o filme recupera a partir do momento em que a história destes personagens é interligada com a investigação, com "La ragazza nella nebbia" a saber compensar alguns dos seus tropeços com um considerável sentido de ritmo, reviravoltas que nem sempre convencem mas agilizam o enredo e a introdução à bruta de uma série de figuras que despertam a atenção. 

O elenco é competente e contribui para atribuir credibilidade a boa parte das situações, sejam os já mencionados Toni Servillo, Alessio Boni e Galatea Ranzi, ou Jean Reno, Lorenzo Richelmy e Daniela Piazza. Jean Reno imprime cordialidade e simpatia ao seu personagem, embora a presença de um actor deste calibre como uma figura aparentemente tão secundária seja motivo de sobra para desconfiarmos do psiquiatra. Por sua vez, Lorenzo Richelmy tem um trabalho marcado pela sobriedade, sendo capaz de realçar a faceta fiável e ponderada do seu personagem, enquanto que Daniela Piazza transmite a dor que o desaparecimento de Anna Lou provocou em Maria Kastner, a mãe da adolescente. Note-se o momento tocante em que a encontramos completamente fragilizada junto das velas que deixaram em frente à sua casa. É um trecho em que a banda sonora funciona ao serviço do enredo, com os seus ritmos melancólicos a reforçarem a tristeza que perpassa pela mente de Maria. Diga-se que a banda sonora nem sempre é utilizada na justa medida. Veja-se o momento em que somos colocados perante o aumento do contingente e dos recursos de Vogel, com a música a contar com uma solenidade destoante em relação àquilo que está a ser apresentado. 

Outro elemento que desperta relativamente à atenção é o trabalho efectuado na decoração dos cenários interiores para reforçar alguns dos traços da personalidade dos personagens. Observe-se o quarto de Anna Lou, pronto a evidenciar o afecto que esta nutre por gatos e a sua religiosidade, ou a sala dos pais da adolescente, uma divisória que permite realçar a rigidez deste casal extremamente devoto. Já os cenários exteriores pouco são aproveitados ao serviço do enredo, algo incompreensível, sobretudo se tivermos em conta as características supostamente opressivas e frias do espaço citadino onde se desenrola boa parte do enredo (Donato Carrisi tenta compensar isso ao exibir repetidamente uma maqueta da cidade). Também os possíveis conflitos entre os métodos de Vogel e da polícia local raramente são desenvolvidos, algo que contrasta com a capacidade do argumento em saber criar uma certa sensação de ansiedade em volta do possível momento em que o primeiro e Loris ficam frente a frente. Ficamos assim perante uma obra irregular, que compensa aquilo que nem sempre tem em conteúdo ou coerência com mais uma interpretação de bom nível de Toni Servillo, uma atmosfera pontuada pelo mistério, figuras ambíguas que captam a atenção e uma abordagem deveras interessante sobre o papel dos media em situações melindrosas.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano.

Título original: "La ragazza nella nebbia".
Título em Portugal: "A Rapariga no Nevoeiro".
Realizador: Donato Carrisi.
Argumento: Donato Carrisi.
Elenco: Toni Servillo, Alessio Boni, Lorenzo Richelmy, Galatea Ranzi, Lucrezia Guidone, Daniela Piazza.

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