06 abril 2018

Crítica: "La guerra dei cafoni" (2017)

 O calor percorre os cenários e os sentimentos em "La guerra dei cafoni", a segunda longa-metragem de ficção realizada por Davide Barletti e Lorenzo Conte, com a dupla a transportar-nos para o interior de um conflito marcante entre dois grupos de adolescentes. De um lado temos os "cafoni", os descendentes dos camponeses, liderados por Scaleno (Donato Paterno). Do outro temos os senhores, os filhos dos ricos e poderosos, que contam com Francisco Marinho (Pasquale Patruno) como líder. O conflito entre os dois bandos surge como ponto de partida para "La guerra dei cafoni" abordar temáticas relacionadas com a intolerância, as assimetrias sociais, a luta de classes, o preconceito, o despertar da sexualidade e a violência da guerra, sempre a deambular entre a fantasia e a realidade. Esse jogo entre os elementos bem reais e a fantasia é adensado pelas especificidades do território onde se desenrola o enredo, em particular, Torrematta, um espaço quase atemporal que é predominantemente habitado por jovens que caminham em passos largos para a idade adulta.

O trabalho de Duccio Cimatti na cinematografia permite realçar as características simultaneamente belas e inóspitas de Torrematta, sejam as suas estradas de terra, as suas zonas áridas ou verdejantes, ou um rio que tanto une como separa os dois grupos, ou as estruturas que parecem saídas da Idade Medieval. Veja-se os planos abertos do prólogo, nos quais a terra e a temperatura elevada aparecem em realce, bem como um pai e um filho que se deparam com a violência do senhor deste espaço. Diga-se que Duccio Cimatti é exímio a transmitir o calor que permeia o território, com o cineasta a não poupar nas cores saturadas e na iluminação proveniente da luz natural. O guarda-roupa é outro dos elementos essenciais para reforçar o clima quente que permeia o território, com todos os personagens a contarem com vestes leves, próprias para aguentarem o calor e o fervilhar dos sentimentos. Vale a pena realçar que o guarda-roupa aparece também como um dos vários ingredientes que permitem realçar as dicotomias entre estes adolescentes. Note-se as roupas caras e de marca que são utilizadas pelos "senhores", algo que contrasta com as vestes simples e baratas dos "cafoni".

Essas assimetrias são ainda visíveis nos espaços onde estes rapazes e raparigas habitam. Observe-se o contraste entre a casa espaçosa e dotada de alguns luxos de Marinho com a habitação rústica e relativamente precária onde Mela (Letizia Pia Cartolaro) mora com Tonino (Piero Dioniso), o seu irmão mais novo. Estamos diante de um filme que se embrenha pelas dicotomias: os que possuem a terra e aqueles que a trabalham; os ricos e os pobres; rapazes e raparigas. Esses contrastes são abordados a partir dos "cafoni" e dos "senhores", com a guerra que estes protagonizam a contar com algumas doses de violência, avanços e recuos, bem como a certeza de que existem muitos elementos que os unem e separam, seja a rivalidade, a impetuosidade, a inexperiência ou o desejo de descoberta. Os dois grupos contam com especificidades e lideranças muito próprias, com o argumento a desenvolver eficazmente as suas dinâmicas internas e a forma como estas evoluem ao longo do enredo, algo que atribui espessura a estes personagens e aos seus actos. 
 
O bando de Scaleno conta com poucos recursos, almeja impor-se junto dos "senhores", é relativamente ambicioso e tem um conjunto heterogéneo de integrantes. Um desses membros é Tonino, um jovem que desperta facilmente a nossa simpatia. Este tem uma paixoneta por Sabbrina (Alice Azzariti), a namorada de Marinho, apresenta uma enorme propensão para adormecer em qualquer lado e evita cometer actos extremamente violentos. Por sua vez, Donato Paterno transmite a revolta que percorre o seu personagem e as suas tentativas para vencer este conflito que replica disputas antigas, embora o adolescente não esteja disposto a tudo para alcançar os seus intentos. A partir de um determinado momento o grupo recebe "Cugginu" (Angelo Pignatelli), um jovem que mexe com as dinâmicas internas dos "cafoni". Com cabelos compridos, uma impetuosidade e uma ambição que deixam antever perigos, "Cugginu" permite a Angelo Pignatelli compor um personagem que provoca um impacto indelével no interior do enredo, com o jovem a conquistar praticamente a liderança dos "cafoni". 

No caso dos "senhores" sobressaem sobretudo Marinho e Luca Viale (Kevin Magrì). Este último exibe em alguns momentos a puerilidade do conflito entre os dois bandos, enquanto Pasquale Patruno imprime uma faceta aparentemente confiante, arrogante e mimada ao seu Marinho, um adolescente que procura estimular os membros do seu grupo a combater, embora comece a entrar gradualmente em conflito consigo próprio. Muitas das vezes trajado com uma camisola da selecção brasileira, ou o seu nome não tivesse sido atribuído em homenagem a um internacional canarinho (algo que permite reforçar que o enredo tem os anos 70 como pano de fundo), Marinho parece estar preso aos seus valores e ao passado da sua família. O protagonista comete inicialmente actos eivados de violência ou maldade contra os "cafoni", algo que é recíproco entre os membros dos dois grupos, embora seja particularmente notório que Mela mexe com o "senhor dos senhores". Letizia Pia Cartolaro transmite com sobriedade a mistura de força e vulnerabilidade da sua personagem, uma jovem que procura cuidar do irmão mais novo e é muito apegada a Moses, o seu cão.

A relação de Mela e Marinho é desenvolvida com precisão, com os intérpretes a convencerem no que diz respeito aos sentimentos contraditórios que ligam os dois rivais. Veja-se o trecho em que os encontramos reunidos após Marinho ter exibido os seus poucos dotes para a natação, ou o momento em que se divertem no barco do adolescente. Se boa parte destas figuras conta com alguma dimensão, já Sabbrina aparece como uma personagem unidimensional, que praticamente não abandona a sua faceta superficial e pouco perspicaz, com Alice Azzariti a ficar com um dos poucos pontos fracos da obra. É a partir destes personagens e destes cenários que "La guerra dei cafoni" coloca-nos diante de problemáticas relacionadas com a adolescência, as assimetrias sociais e a luta de classes, sempre com uma mistura de comédia, tragédia, aventura, romance e algumas doses de violência. O argumento consegue reunir estes ingredientes distintos com enorme perspicácia e inspiração, enquanto o elenco exibe competência e a banda sonora adequa-se na perfeição aos ritmos que perpassam os diversos episódios deste filme onde os adultos quase não marcam directamente presença. "La guerra dei cafoni" surge assim como uma das agradáveis surpresas da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano.

Título original: "La guerra dei cafoni".
Realizadores: Davide Barletti e Lorenzo Conte.
Argumento: Davide Barletti, Lorenzo Conte, Barbara Alberti, Giulio Calvani.
Elenco: Pasquale Patruno, Donato Paterno, Letizia Pia Cartolaro, Angelo Pignatelli, Piero Dioniso, Kevin Magrì.

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