15 abril 2018

Crítica: "Gatta Cenerentola" (2017)

 Pontuado por uma reunião improvável de elementos de fábula, obras sobre a máfia, noir, ficção científica, drama e acção, "Gatta Cenerentola", um filme de animação livremente inspirado no conto "Cenerentola" de Giambattista Basile e no musical "La Gatta Cenerentola", comprova paradigmaticamente a coragem, a criatividade, a audácia e o talento de Alessandro Rak, Ivan Cappiello, Marino Guarnieri, Dario Sansone. O quarteto de realizadores transporta-nos para o interior de uma obra com alma napolitana, que desperta um estranho fascínio e não tem problemas em envolver-se por caminhos mais crus e violentos. Não existe espaço para abóboras, ratinhos simpáticos, ou fadas "à Disney", muito menos para um príncipe encantado. Até temos um "rei", mas este é um traficante de droga com um estilo semelhante a um proxeneta, com o tráfico, a prostituição e a Camorra a serem uma realidade no interior desta obra que se embrenha por um lado mais negro dos contos. Diga-se que "Gatta Cenerentola" também se envolve por emoções bem reais, tais como o sentimento de perda, a ambição, a saudade e a melancolia, com o argumento a mesclar com acerto as diferentes componentes que integram esta obra deveras invulgar. 

A faceta de ficção científica de "Gatta Cenerentola" é visível desde os momentos iniciais, nomeadamente, quando somos colocados perante os planos de Vittorio Basile (Mariano Rigillo), um magnata do sector naval. Este conta com um forte interesse pela tecnologia e pretende transformar o porto de Nápoles num pólo dedicado à ciência e à memória. O gosto de Vittorio pela inovação é particularmente notório quando observamos o Megaride, o seu barco, um veículo dotado de uma tecnologia avançada que permite registar tudo o que decorre no seu interior e converter aquilo que capta em hologramas. Diga-se que o Megaride é o cenário primordial do filme, com a equipa responsável pela animação a transportar-nos para o interior de um espaço pontuado por imensas divisórias e luxos, que é capaz de despertar sentimentos tão díspares como encanto e receio. Observe-se os hologramas de uma miríade de peixes que trazem consigo uma certa sensação de fascínio, ou a decoração elegante e retro-futurista, embora a presença de figuras como o mafioso Salvatore Lo Giusto (Maria Pia Calzone), um traficante e cantor que se autodenomina de "rei", transportem alguns perigos para o interior deste veículo. No início do filme somos colocados perante o entusiasmo e a crença de Vittorio na humanidade e na ciência, bem como na presença do seu amor por Nápoles e pela filha, a jovem Mia. Esta encontra-se regularmente acompanhada por Primo Gemito (Alessandro Gassman), um polícia fiável e receoso que foi destacado para cuidar da segurança do viúvo.

Os momentos iniciais de "Gatta Cenerentola" são ainda marcados pelo casamento do milionário com Angelica Carannante (Maria Pia Calzone), uma cantora voluptuosa, belíssima, mãe de cinco filhas e um filho. Angelica encontra-se em conluio com Salvatore, com a dupla a efectuar um golpe que resulta no assassinato de Vittorio. Após este episódio, o enredo avança quinze anos, mais precisamente, para o dia anterior ao décimo oitavo aniversário de Mia. Com movimentos semelhantes a um felino, roupas encardidas, rasgadas e velhas, descalça, solitária e inocente, Mia tem no seu gato preto um dos poucos companheiros e nos silêncios uma forma muito própria de se expressar. O momento em que percebemos que a personagem do título praticamente nem sabe escrever é de partir o coração, tal como a frieza e a crueldade com que é tratada no presente. A herdeira de Vittorio encontra-se traumatizada ao ponto de não falar desde o dia em que o progenitor foi vítima de homicídio, com a jovem a ser ainda alvo de violência física e psicológica por parte das suas familiares. As suas irmãs (o rapaz assumiu a sua orientação sexual e começou a vestir-se e a agir como uma mulher) trabalham como dançarinas no clube nocturno do Megaride, ou como prostitutas, enquanto Angelica é a cantora deste espaço, um dos poucos cenários que se encontra a funcionar no interior do navio. Por sua vez, Mia praticamente não sai do seu quarto, embora a espaços consiga esgueirar-se pelas condutas ou observar os hologramas que conservam algumas memórias.

O contraste entre o presente e o passado é particularmente notório a partir da observação do Megaride. Outrora simbolizava esperança, sonho, vida e um futuro potencialmente radioso. No presente aparece como um espaço desprovido de vida, mais escuro, recheado de vidros partidos e tapetes rasgados, ainda que conserve no seu interior alguma da opulência de outrora. A energia e a magnificência de outros tempos surgem como pedaços de memórias que parecem simultaneamente próximas e distantes, com os hologramas a trazerem uma certa sensação de melancolia em relação a um futuro que não aconteceu e a um passado onde tudo parecia possível. O cuidado colocado pela equipa de animação na construção e aproveitamento dos espaços do Megaride é notório. Veja-se os exemplos já mencionados, ou uma secção deste veículo que é utilizada pela máfia para enterrar os corpos de figuras incómodas. Os elogios também merecem ser dados para a a breve representação das ruas de Nápoles, com o quarteto de realizadores a nunca se esquecer totalmente de inserir algumas particularidades do território no interior do enredo, inclusive no modo como os personagens dialogam.

Diga-se que o elenco vocal é bastante competente. Massimiliano Gallo insere um estilo confiante e matreiro ao seu Salvatore, enquanto Mariano Rigillo transmite bondade e optimismo como Vittorio. Já Maria Pia Calzone deixa em evidência a faceta sedutora e algo trágica de Angelica ao passo que Alessandro Gassman incute uma vertente confiável, corajosa e atormentada ao seu personagem. Primo Genito não convive bem com a morte de Vittorio, nem com o facto de ter falhado na protecção deste indivíduo, sendo que a investigação que efectua para desmascarar os negócios obscuros do "rei" acabam por levá-lo novamente para o interior da embarcação e a reencontrar o passado. O mafioso tem planos muito próprios para este espaço e para Mia, com Alessandro Rak, Ivan Cappiello, Marino Guarnieri, Dario Sansone a atirarem-se para o interior de caminhos mais negros e a conseguirem que nos preocupemos com alguns dos personagens. No caso de Mia, é impossível não pensar sobre o quão duros terão sido os últimos quinze anos da existência desta jovem, mas também nas dificuldades que esta poderá vir a conhecer nos tempos vindouros. Os traumas são imensos, embora o reencontro com Primo, no presente, traga o contacto com um pouco do calor humano do passado mais distante. 

As cenas em que Mia se depara com hologramas do pai, ou os trechos em que Primo é colocado perante episódios do passado provocam uma certa sensação de melancolia ao mesmo tempo que exacerbam o sentimento de perda que perpassa por estes personagens. Se Primo é um elemento extremamente confiável, já o "rei" surge como uma figura ameaçadora, machista e extravagante, que permite ainda realçar a atenção que "Gatta Cenerentola" concede às cores e ao guarda-roupa dos personagens. Note-se o fato vermelho que Salvatore utiliza antes da morte de Vittorio, uma cor que sublinha a personalidade traiçoeira do mafioso e a sua vertente violenta e mortífera (características que também são exacerbadas pelas tonalidades distintas dos seus olhos). Diga-se que também vamos encontrar Angelica com um vestido da mesma cor, algo que reforça o carácter sedutor e perigoso da cantora. Por sua vez, a cor branca do fato de Vittorio enfatiza a faceta confiável do progenitor de Mia, enquanto as tonalidades esbatidas das roupas de Primo reforçam o comportamento pouco efusivo e honesto do representante da autoridade. Já as vestimentas das irmãs adoptivas de Mia, seis personagens relativamente unidimensionais, fúteis e execráveis, destacam a vulgaridade do sexteto. 

Ao longo de "Gatta Cenerentola" somos colocados quer perante o poder construtivo e a bondade da humanidade, quer diante do seu lado destrutivo e da sua maldade, sempre tendo como pano de fundo um território de Nápoles que tem tanto de real como de irreal. É obra que arrisca e na maior parte das vezes consegue recolher os louros dessa audácia, que nos transporta para uma versão muito própria do conto da Cinderela, enquanto revela uma coesão surpreendente para um filme com quatro realizadores e sete argumentistas.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª Festa do Cinema Italiano.

Título original: "Gatta Cenerentola".
Realizadores: Alessandro Rak, Ivan Cappiello, Marino Guarnieri, Dario Sansone.
Argumento: Alessandro Rak, Marianna Garofalo, Ivan Cappiello, Marino Guarnieri, Corrado Morra, Dario Sansone, Italo Scialdone.
Elenco vocal: Massimiliano Gallo, Maria Pia Calzone, Alessandro Gassman, Mariano Rigillo.

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