29 abril 2018

Crítica: "Adua e le compagne" (1960)

 Adua (Simone Signoret), Lolita (Sandra Milo), Marilina (Emmanuelle Riva) e Caterina (Gina Rovere) bem tentam fugir ao passado, mas este parece fazer questão de perseguir as protagonistas de "Adua e le compagne" e de expor os contornos cruéis do destino e da sociedade italiana durante o denominado "milagre económico". Estamos diante de um filme que se move pelas franjas do drama social, sempre com alguns pedaços de humor à mistura, embora a atmosfera de desesperança contamine muitas das vezes esta obra cinematográfica que nos coloca perante quatro antigas prostitutas que tentam abrir um restaurante e mudar o rumo das suas vidas. No entanto, o destino e a sociedade parecem ter planos diferentes para estas mulheres, algo que fica paradigmaticamente demonstrado ao longo do enredo da quinta longa-metragem realizada por Antonio Pietrangeli, com o cineasta a explanar, tal como em "Io la Conoscevo Bene" (1965), o embate doloroso entre os sonhos das personagens principais e a realidade. Ficamos perante algumas das transformações da sociedade italiana durante o chamado "milagre económico", com a lei Merlin, que consiste na proibição dos bordéis, a mexer com o quotidiano das protagonistas.

É a lei Merlin que leva Adua, Lolita, Marilina e Caterina a abandonarem os seus antigos ofícios, algo exposto no início do filme, com uma parte considerável destas mulheres a acreditar que tem aqui a oportunidade ideal para mudar de vida. Não é tarefa fácil, com Adua, Caterina, Marilina e Lolita a perceberem gradualmente essa situação, sobretudo quando decidem unir esforços para abrirem um restaurante. São imensos hábitos e rotinas que têm de largar, diversas dificuldades que precisam ultrapassar e uma série de conhecimentos que vão ter de adquirir, com Antonio Pietrangeli a desenvolver com acerto as dinâmicas destas personagens. Adua é a líder do quarteto, com Simone Signoret a transmitir a experiência e o lado prático desta mulher. Aos poucos percebemos que esta também tem uma faceta mais ingénua, seja quando demonstra que acredita na possibilidade de poder obter facilmente uma licença para abrir o restaurante, ou na ocasião em que deixa cair as suas defesas e começa a corresponder aos avanços de Piero (Marcello Mastroianni), um vendedor de automóveis mulherengo, extrovertido e pouco confiável. 

As adversidades marcam o quotidiano de Adua, embora esta procure ultrapassá-las. Note-se a já mencionada dificuldade em conseguir uma licença para abrir o restaurante, algo que leva as protagonistas a caírem na alçada de Ercoli (Claudio Gora), um empresário que adquire o estabelecimento e o terreno que o rodeia, ou os focos de tensão entre estas quatro mulheres. A liderança de Adua a espaços é questionada por algumas das suas companheiras, sobretudo por Marilina, com Emmanuelle Riva a compor uma personagem complexa, simultaneamente explosiva, intempestiva e frágil. O momento em que encontramos Marilina a dirigir-se até ao bordel onde trabalhava, após discutir com Adua, ingerir uma quantidade assinalável de bebidas alcoólicas e envolver-se com desconhecidos, permite explanar tanto a faceta errática desta mulher como os seus receios em relação ao futuro. Diga-se que este momento de desespero decorre em plena noite, com a parca luz proveniente dos candeeiros a não conseguir derrotar a escuridão das sombras e dos receios que contaminam temporariamente a alma da personagem interpretada por Emmanuelle Riva, enquanto a actriz protagoniza um dos grandes trechos do filme.  

Não é que Marilina aprecie verdadeiramente o ofício de prostituta, mas todo este novo contexto criou um vazio imenso no âmago desta mulher, com o episódio mencionado a espelhar paradigmaticamente as inseguranças da personagem e as dificuldades que sente para deixar o passado de lado. Também Lolita sente alguns receios, algo notório quando se dirige até ao quarto de Adua, durante a noite, devido a não conseguir dormir sozinha e ter medo do escuro. Note-se a primeira noite destas mulheres na nova habitação, ainda sem electricidade, algo que inquieta Lolita. Diga-se que a falta de electricidade permite ainda realçar o contraste entre luz e sombras (qual metáfora para o quotidiano e o destino das protagonistas), com as velas a envolverem-se pela escuridão e a realçarem o meticuloso trabalho de Armando Nannuzzi na cinematografia (também visível na já mencionada cena nocturna que é protagonizada por Marilina). Lolita é a mais jovem e a mais despassarada do grupo, com Sandra Milo, uma colaboradora habitual de Antonio Pietrangeli, a evidenciar a personalidade algo irresponsável e provocadora desta antiga prostituta. Diga-se que a personalidade de Lolita contrasta com o feitio de Caterina, com Gina Rovere a interpretar com acerto a personagem mais discreta e contida do grupo.  

Todas as integrantes deste grupo contam com personalidades distintas, com Antonio Pietrangeli a desenvolver as dinâmicas destas mulheres quer quando se encontram a discutir ou em situações mais leves, enquanto ficamos diante das tentativas do quarteto para conseguir ultrapassar as dificuldades. A partir do momento em que o pouco escrupuloso Ercoli adquire o edifício e o terreno onde Adua, Caterina, Lolita e Marilina pretendem abrir o restaurante, estas não só conseguem encontrar um local de trabalho, mas também acabam por entrar na alçada deste empresário que cobra uma renda elevada pelo aluguer do estabelecimento e conta com planos pouco recomendáveis para o futuro das protagonistas. Aos poucos, estas conseguem reformular o espaço do restaurante, um estabelecimento que inicialmente tinha parcas condições, imensas marcas de humidade e sujidade, embora seja reabilitado pelas protagonistas, com o edifício, situado nas margens de Roma, a surgir como uma espécie de metáfora para esta fase das suas vidas. Também as antigas prostitutas precisam de reformular as suas vidas, algo que tentam ao longo do filme, enquanto utilizam a propriedade quer como local de trabalho, quer com um espaço para habitarem (na parte superior do restaurante).

Caterina, Adua, Lolita e Marilina demoram a adaptar-se a esta nova etapa, embora, gradualmente, comecem a acreditar que podem finalmente ser felizes. Note-se o caso de Caterina, que é cortejada por Emilio (Antonio Rais), um cliente habitual que pretende iniciar uma relação séria com esta mulher, ou o momento em que Marilina decide trazer Carletto, o seu filho, um petiz, para viver consigo. Temos ainda o já mencionado caso entre Adua e Piero, embora este relacionamento pareça simbolizar acima de tudo a incapacidade destas personagens em soltarem-se totalmente das marcas do passado. Marcello Mastroianni insere o seu carisma habitual a este personagem que aos poucos conquista Adua, embora não esteja interessado num relacionamento sério com esta mulher, com Piero a surgir como um dos diversos elementos que catalogaram as quatro protagonistas para o resto da vida. Já o irmão Michele (Duilio D'Amore) demonstra uma enorme prestabilidade e compreensão, com o padre a aparecer como um dos poucos elementos que não estão preocupados com o passado das personagens principais.

Michele tenta ajudar estas mulheres, enquanto elas procuram ajustar-se a toda uma nova realidade. Veja-se quando encontramos Marilina a tentar cuidar do filho, apesar de não estar totalmente familiarizada com o petiz, ou as desventuras das quatro protagonistas na cozinha. A espaços Antonio Pietrangeli insere alguns elementos de humor que permitem dotar "Adua e le compagne" de alguma leveza, sejam estes inerentes à pouca habilidade que as protagonistas apresentam a servir às mesas, ou a envolverem a lábia de Piero para as vendas, entre outras situações, apesar do drama pontuar o dia a dia destas mulheres. Em certa medida, "Adua e le compagne" traz à memória obras neorealistas como "Ladri di biciclette", "Miracolo a Milano", "Umberto D", entre outras, nas quais somos colocados diante de exemplos da incapacidade da sociedade em incluir os elementos que se encontram "à parte", com Adua, Marilina, Lolita e Caterina a lidarem de perto com os estigmas, preconceitos e assimetrias sociais do seu tempo. Têm ainda de lidar com o machismo, seja este oriundo de um empresário aproveitador ou de um galanteador, ou de um organizador de espectáculos, com Antonio Pietrangeli a abordar com acerto as dificuldades que as protagonistas encontram para fugirem ao destino que lhes querem traçar

Antonio Pietrangeli realiza um filme de claro pendor feminista, que aborda os preconceitos em relação às prostitutas, a faceta maioritariamente machista da sociedade e a forma como estas mulheres são pouco protegidas, sempre sem descurar o contexto da época, enquanto concede espaço para que Simone Signoret, Sandra Milo, Emmanuelle Riva e Gina Rovere componham personagens com espessura e densidade. O quarteto conta com desempenhos sólidos, embora Simone Signoret consiga destacar-se acima de todas as suas colegas ao interpretar a líder do grupo. Com a ajuda das suas companheiras, Adua ainda consegue que o restaurante atinja algum sucesso, embora pareça praticamente impossível que este perdure, sobretudo quando o passado começa a imiscuir-se no presente e a emperrar o futuro destas mulheres. A sociedade italiana deste período está em mudança, mas o conservadorismo a nível de valores teima em manter-se, com "Adua e le compagne" a expor estas contradições que pontuam o contexto histórico. Não faltam trocas de carros, negócios que prosperam, produtos de grandes marcas internacionais (inclusive um destaque propositado a uma Coca-Cola) e edifícios em construção, embora essa suposta prosperidade não atinja todos os elementos, que o digam as quatro personagens principais de "Adua e le compagne".

Num determinado momento do filme, encontramos Adua, Lolita, Caterina e Marilina a partirem os vários objectos do restaurante, enquanto extravasam de forma catártica os seus sentimentos. É um trecho dotado de emoção, que antecede um dos episódios mais dramáticos desta obra cinematográfica, com Antonio Pietrangeli a deixar as protagonistas a explanarem a revolta que lhes percorre a alma. Estas encontram-se constantemente entre a luz e as sombras, entre a felicidade e a infelicidade, embora na maioria das vezes acabem por lidar com as injustiças e os preconceitos sociais, algo exposto com enorme acerto pelo realizador. A certa altura da fita, a desesperança consome a esperança, a luz demonstra a sua incapacidade para iluminar uma alma destruída e Simone Signoret protagoniza um momento de partir o coração, com Antonio Pietrangeli a explanar que o destino e a sociedade não têm contemplações para com a protagonista. É um momento doloroso, que exibe paradigmaticamente o enorme talento deste cineasta que tem em "Adua e le compagne" mais uma obra que enobrece o seu recomendável currículo.

Título original: "Adua e le compagne"
Realizador: Antonio Pietrangeli.
Argumento: Ruggero Maccari, Antonio Pietrangeli, Ettore Scola, Tullio Pinelli.
Elenco: Simone Signoret, Sandra Milo, Emmanuelle Riva, Gina Rovere, Marcello Mastroianni, Claudio Gora, Antonio Rais, Duilio D'Amore.

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