12 março 2018

Crítica: "Organismo" (2017)

 "Do que eu lembro, eu sempre vi o Mundo através de frestas" comenta Diego (Rômulo Braga) nos momentos iniciais de "Organismo", a primeira longa-metragem realizada por Jeorge Pereira. É um dos vários momentos do filme em que a narração em off é utilizada para acrescentar informação e reforçar a ligação entre o protagonista e o espectador, enquanto ficamos diante de um episódio da infância deste personagem. O episódio é marcado por uma certa inocência, com Jeorge Pereira a deixar-nos perante o jovem Diego a observar uma mulher a tomar banho. Mais tarde voltamos a encontrar o protagonista a espreitar uma figura feminina através de uma fresta, em particular, Helena (Bianca Joy Porte), a sua namorada, embora o contexto seja amplamente distinto. Se no início esse olhar observador de Diego remete para uma sensação de descoberta tipicamente juvenil, já no último terço esse acto envolve uma redescoberta do desejo, uma tentativa de reaprender a lidar com o próprio corpo e a dar prazer sexual. A sensibilidade com que o cineasta coloca em diálogo o passado mais recente e o mais distante do protagonista e expõe estes episódios é algo transversal a diversos momentos de "Organismo", um pouco à imagem da metáfora das frestas, ou não estivéssemos na presença de uma obra que surge como uma janela entreaberta para o âmago do personagem principal.

No início do filme encontramos Diego acamado e aos cuidados de Valter (Arthur Canavarro), o seu fisioterapeuta e melhor amigo, após ter sofrido um acidente que o deixou tetraplégico, enquanto expressa em off que não acredita em Deus ou no pecado. Diga-se que a fé e a Religião marcam uma parte do enredo e da vida do protagonista, bem como o sentimento de perda e uma deambulação pelas memórias. Ao longo de "Organismo" ficamos diante de diversos trechos que envolvem um revisitar do passado de Diego, seja em episódios marcantes da sua infância, ou em situações vividas em plena idade adulta, enquanto este procura aprender a conviver com as novas limitações do seu corpo, tenta ganhar coragem para mergulhar no âmago do seu ser e pondera sobre o seu futuro. A metáfora do mergulho também está muito presente ao longo do filme, seja numa dança pelas águas de uma relação ou numa imersão que o protagonista tem que efectuar para chegar às profundezas da sua alma. Este mergulho é algo que Jeorge Pereira apresenta com enorme delicadeza e algumas doses de lirismo, com o cineasta a ter em "Organismo" uma obra plena de humanidade, pronta a deixar-nos diante das inquietações de um homem com o seu corpo.

Como encarar a perda da auto-suficiência e dos movimentos corporais? Como conviver com as memórias de outrora em que tínhamos essa capacidade de movimentos? Como lidar com a perspectiva de não voltarmos a exercer certas funções do nosso corpo? Estas são algumas das perguntas que certamente inquietam a mente de Diego, um personagem dotado de espessura que tem em Rômulo Braga e Guilherme Magnata dois intérpretes à altura. Guilherme Magnata interpreta o protagonista quando este ainda é um petiz, com o actor a transmitir a curiosidade do seu personagem, bem como a sua forte ligação com a mãe (Anny Rafaella Ferli como Dona Edna mais jovem; Auricéia Fraga como a personagem em idade mais avançada), a dor provocada pela morte do pai (simbolizada num relógio parado no tempo) e a amizade sincera com Valter (Maycon Douglas na juventude; Arthur Canavarro em idade adulta). Existe alguma inocência e humor a rodear estes episódios da infância de Diego, mas também algum sofrimento, com "Organismo" a efectuar uma ligação pertinente e dinâmica entre os diversos acontecimentos que deixaram marca no protagonista. Veja-se a situação em que nos deparamos com Diego de fralda, ainda a dar os primeiros passos e a conhecer o Mundo que o rodeia, um trecho que dialoga com um momento do início do filme, nomeadamente, quando encontramos o protagonista de fralda, acamado e a reencontrar-se com o seu corpo.

Rômulo Braga convence quer nos trechos em que expõe as limitações físicas de Diego e as dúvidas que apoquentam o personagem após o acidente, quer nos episódios em que ficamos diante do protagonista antes deste ter ficado tetraplégico. Este deambular no tempo permite que tenhamos uma perspectiva alargada sobre o protagonista, com o argumento a nunca retratar Diego como um personagem livre de falhas, algo que contribui para conceder uma densidade acrescida a este indivíduo. Veja-se as suas incertezas profissionais, ou o momento em que o encontramos a trair a namorada com uma familiar da mesma. Note-se ainda quando o observamos a ter uma discussão intensa com Helena, um trecho que permite explanar que o casal está a atravessar uma fase complicada. As palavras de um e de outro sobrepõem-se, a câmara agita-se e a banda sonora acompanha a intensificação gradual dos sentimentos e dos movimentos dos corpos, com Jeorge Pereira e a sua equipa a construírem um momento emocionalmente intenso, que transpira tensão e beneficia e muito do contributo dos intérpretes. É um momento que é entrecortado com outros episódios pontuados pela acalmia, com as palavras e os gestos de Helena e Diego a unirem estes trechos que permitem destrinçar as diferentes vertentes desta relação.

Bianca Joy Porte explana não só os sentimentos fortes que unem a sua personagem a Diego, mas também o cansaço de Helena no que diz respeito aos comportamentos erráticos do namorado. Esta é uma artista, trabalha num museu e apresenta uma mescla de força e fragilidade que perpassa pelo olhar da sua intérprete. Rômulo Braga deixa latente que existe alguma ambiguidade a envolver os sentimentos que Diego nutre por Helena, sobretudo antes de sofrer o acidente. Depois deste ficar tetraplégico as dúvidas não se dissipam e até aumentam, sobretudo as questões que o protagonista coloca a si próprio, em particular, sobre a sua masculinidade, algo que parece preocupá-lo mais do que à namorada. "Você tem medo de quê?" pergunta Helena a Diego. Este responde "Exposição. Rejeição. Fragilidade. São alguns...", uma situação que leva a namorada a comentar que "Todo o Mundo sente isso". O comentário de Helena reflecte paradigmaticamente a universalidade dos receios do personagem interpretado por Rômulo Braga, embora este esteja a viver uma situação muito particular. Esta troca de palavras decorre no interior de um museu, um espaço que dialoga com as falas e as inquietações do casal, enquanto a câmara deambula elegantemente pelos cenários, seja a acompanhar os personagens, a exibir as obras de arte de períodos distintos, ou a bailar em volta das mesmas.

Esse momento no museu permite reforçar os elogios ao exímio trabalho de câmara, com esta a deslizar ao ritmo dos diálogos, dos olhares, dos sentimentos e emoções, pronta a transmitir e a sublinhar as sensações, algo transversal a diversos trechos de "Organismo". Note-se a já mencionada discussão entre Helena e Diego, ou um jantar na casa dos familiares da primeira. Se a relação de Helena e Diego conta com uma série de altos e baixos e ingredientes que a tornam intrincada, já a ligação entre este último e Valter é pontuada pela simplicidade e cumplicidade. Também Edna, a mãe de Diego, tem uma enorme relevância na vida do protagonista, seja durante a infância ou quando este fica tetraplégico e começa a necessitar de ajuda para o seu dia a dia. "Organismo" retrata o isolamento inerente a esta condição, mas também as dúvidas que brotam no interior da mente de quem se depara com limitações que não conhecia, algo paradigmaticamente representado quando uma personagem relevante morre e o protagonista é confrontado com uma situação-limite. "Eu quis fazer um filme sobre a ideia do corpo como algo que está vivo, que pulsa" comentou Jeorge Pereira sobre "Organismo", algo que consegue efectuar, com o cineasta a retratar os dilemas, as crises e a relação do protagonista com o corpo com uma mistura de sobriedade e poesia que contribui para elevar ainda mais esta bela obra cinematográfica.

A banda sonora contribui para essa atmosfera dotada de algum lirismo, enquanto o realizador demonstra uma atenção latente ao desenvolvimento do protagonista e das suas relações. Num determinado momento de "Organismo" encontramos Diego, ainda petiz, a viajar de carro com a mãe. No banco de trás conseguimos observar uma caixa com uma bola, uma fotografia e certamente outros objectos que proporcionam uma série de recordações ao seu proprietário. O que assistimos em "Organismo" é a um desencaixotar das memórias de Diego. É algo efectuado de forma delicada, que nos deixa perante as especificidades do protagonista, das suas dúvidas, inquietações, defeitos, virtudes e as ligações e os episódios que de certa maneira marcaram e marcam a sua vida, enquanto este tem de redescobrir-se e reencontrar-se dentro do seu corpo, seja de forma solitária ou na companhia daqueles que o amam. Jeorge Pereira coloca-nos assim diante de alguns pedaços da vida deste arquitecto, estimula a nossa reflexão sobre o quotidiano de quem é tetraplégico e desenvolve uma série de temáticas amplamente universais, sempre com enorme delicadeza, humanidade e uma capacidade notória para deixar Rômulo Pereira e Bianca Joy Porte sobressaírem e comporem personagens dotados de complexidade.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da nona edição do FESTin.

Título original: "Organismo".
Título em inglês: "Broken Body".
Realizador: Jeorge Pereira.
Argumento: Jeorge Pereira.
Elenco: Rômulo Braga, Bianca Joy Porte, Arthur Canavarro, Maycon Douglas, Guilherme Magnata, Anny Rafaella Ferli, Auricéia Fraga.

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