03 março 2018

Crítica: "Limpam com Fogo"

 A música que abre "Limpam com Fogo" remete para os ritmos que constam nos thrillers e nos westerns. É uma escolha que não parece ter sido efectuada ao acaso. Não faltam mistérios e perigos nos casos apresentados ao longo do filme, bem como uma incerteza muito própria das cidades de fronteira dos westerns, onde a população ainda se está a estabelecer e a lei nem sempre se consegue impor ou é eficaz. O espaço citadino que aparece em pano de fundo em "Limpam com Fogo" não é uma cidade do Velho Oeste, mas sim São Paulo, em pleno Século XXI. Não temos um gang de foras da lei a colocar uma cidade em perigo, embora os problemas que ameaçam alguns dos habitantes das favelas e as suas habitações pareçam saídos do Velho Oeste, em particular, uma epidemia de incêndios que desaloja famílias, destrói vidas e propriedades e conta com uma relação promiscua com a especulação imobiliária.

"(...) Curiosamente, onde tinha maior índice de valorização imobiliária, parece que a humidade do ar também era menor. Tinha incêndio em favela durante toda a semana. Nas regiões onde o mercado imobiliário se interessava menos, parece que chovia mais" salienta o Coordenador Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Guilherme Boulos, um dos vários entrevistados deste documentário. É um comentário que exprime de forma paradigmática as coincidências esquisitas entre os incêndios e o interesse do mercado imobiliário nos terrenos onde se encontram as favelas. Esta relação entre os incêndios e a especulação imobiliária é abordada de forma dinâmica, informada e informativa ao longo do documentário, com os realizadores Rafael Crespo, Conrado Ferrato e César Vieira a denotarem que efectuaram um acurado e profundo trabalho de pesquisa.

O trio realiza um documentário que conta com um forte pendor de investigação e denúncia, que sabe colocar os discursos e a informação reunida em diálogo, tendo o mérito de informar, despertar reflexão e explanar um problema que conta com raízes profundas. Não estamos perante uma teoria da conspiração. "Limpam com Fogo" aborda de forma aprofundada esta ligação entre os desastres e o interesse do sector imobiliário nos terrenos, explana o processo de gentrificação que se encontra em curso, enquanto utiliza uma série de imagens gravadas para o efeito ou vídeos amadores ou de noticiários, para além de entrevistar moradores das favelas, políticos, sociólogos e urbanistas, ou seja, um conjunto heterogéneo de pessoas que contribuem para apresentar várias perspectivas. Os realizadores envolvem-se por cinco comunidades, nomeadamente, Piolho, Heliópolis, Vila Prudente, Moinho e Penha, algo que permite encontrar diversos traços em comum nas dificuldades sentidas pelos seus habitantes e a forma como estes estão praticamente obrigados a serem afastados dos espaços onde vivem.

Uma dessas moradoras é Dona Conceição, a primeira figura a sobressair no documentário, uma senhora que habita na Favela do Piolho. Quando a conhecemos o seu olhar reflecte tristeza, desespero e revolta, bem como as chamas que consomem o território onde habita. Ficamos perante imagens aterradoras, nas quais o fogo aparece pronto a arrasar com tudo e a tocar os céus, enquanto uma sensação de impotência e inquietação invade os habitantes deste espaço e somos expostos a algumas situações estranhas. Falta a água durante o incêndio, algo que dificulta a actividade dos bombeiros, enquanto que as causas para a catástrofe estão longe de serem conclusivas. Os documentaristas não acusam as imobiliárias de provocarem directamente o fogo, embora demonstrem que o descaso para com estas comunidades e o desinteresse que existe na permanência destas nas favelas situadas em espaços valorizados em alta contribuem e muito para alguns destes problemas.

 Eu posso atravessar a estrada sem tomar medidas de prevenção e sobreviver alguns dias sem ser atropelado, mas é quase certo que mais cedo ou mais tarde vou sofrer um acidente. A falta de medidas de prevenção e de segurança eficazes fazem com que os moradores das favelas sejam obrigados a atravessar todos os dias a estrada do destino quando o sinal está encarnado. Essa situação é visível quando ouvimos Néia, uma das líderes comunitárias da Favela do Piolho, a salientar que contam com um programa de prevenção de incêndio (o PREVIN), embora este não funcione na justa medida. O que remete para outro problema: as medidas políticas não resultam, ou estão longe de corresponder às expectativas e necessidades dos cidadãos. Diga-se que os próprios políticos estão muitas das vezes com o "rabo preso", algo exposto com factos pelo filme: em 2008 a Associação Imobiliária Brasileira fez doações para mais de metade dos vereadores eleitos da Câmara Municipal de São Paulo.

Entre esses políticos encontram-se vereadores que participaram na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos incêndios em favelas. Os contornos rocambolescos da CPI são expostos ao longo de "Limpam com fogo", tal como os depoimentos de alguns dos envolvidos, entre os quais Floriano Pesaro, Vereador de São Paulo pelo PSDB, que em determinado momento esperamos que revele acreditar em unicórnios, ou Juliana Cardoso, Vereadora de São Paulo pelo PT, que logo comenta que a CPI foi feita para "inglês ver", algo corroborado por Guilherme Simões (Coordenador Regional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Este é também o momento para realçar o meritório trabalho de Gabriel Borba na montagem, quase que a colocar os discursos dos diversos intervenientes em debate, algo que atribui um certo dinamismo, fluidez e contundência ao documentário.

O número considerável de convidados e a pertinência com que os seus discursos são seleccionados também merecem elogios. Note-se o caso dos comentários de Ana Paula Bruno, uma urbanista que acredita que existe uma vigilância para que as favelas não se consolidem, em particular, aquelas que se encontram mais próximas do centro da cidade ou nas áreas mais valorizadas. É algo que parece notório e entronca no fenómeno denominado de gentrificação, exposto de forma assertiva pela jornalista Roberta Duran. Por sua vez, o descaso dos meios de comunicação social é abordado a partir de Luciano Martins do Observatório de Imprensa, que comenta o facto da imprensa de São Paulo ser em grande parte sustentada pelo mercado imobiliário, algo que dificulta a imparcialidade e o interesse na temática. Luciano Martins levanta outra situação pertinente: a falta de recursos humanos e financeiros dos diversos meios, uma realidade que dificulta a elaboração de uma investigação séria e fundamentada. Ou seja, o discurso do jornalista explana não só o problema da relação pouco recomendável entre os media e o mercado imobiliário, mas também a crise que assola os meios de comunicação social.

Como já foi dado a entender ao longo do texto, o documentário apresenta diversas perspectivas, desenvolve várias ideias e permite explanar o quão complicado é todo este caso. O seu ponto fraco revela-se pontualmente em uma ou outra situação em que a banda sonora é utilizada de forma excessiva para mexer com o espectador, algo particularmente notório nos trechos da Vila Prudente, quando os discursos são acompanhados por uma música melancólica que praticamente pede para nos compadecermos da situação. Não era necessário. As imagens da destruição provocada pelo incêndio e as falas sinceras de indivíduos como Amaral provocam desde logo um sentimento de comoção e revolta. O apego destes moradores ao espaço onde vivem é notório, bem como o receio e uma sensação de insegurança, enquanto ficamos diante da inoperância e negligência do poder político e do papel nebuloso do mercado de especulação imobiliária. "Limpam com Fogo" surge assim como um documentário inquietante, informativo, dinâmico e questionador, que expõe um caso delicado, afasta qualquer tipo de simplismo e contribui para despertar reflexão, seja esta sobre os assuntos abordados ou no que diz respeito ao nosso papel como cidadãos e seres humanos.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da nona edição do FESTin

Título original: "Limpam com Fogo".
Realizadores: Rafael Crespo, Conrado Ferrato e César Vieira.
Montagem: Gabriel Borba.
Directora de Arte: Bianca Lutti Ortiz. 
Desenho de som e mixagem: Raphael Lupo.

Sem comentários: