31 março 2018

Crítica: "Easy" (2017)

 Andrea Magnani não poupa no humor e no drama em "Easy", um road movie de contornos agridoces que surge como a primeira incursão do cineasta pela realização de longas-metragens. É uma obra cinematográfica em que a vida e a morte são colocadas lado a lado, tal como a comédia e a tragédia, com o argumento a conciliar habilmente estas diferentes vertentes do enredo, sempre tendo Isidoro (Nicola Nocella) como figura central. O título do filme remete exactamente para a alcunha de Isidoro, um indivíduo anafado, aparentemente apático, que padece de depressão, é viciado em antidepressivos, vive com a mãe (Barbara Bouchet) e conta com uma barba que sublinha o descuido que tem para consigo. Outrora foi uma promessa no automobilismo de competição, tendo supostamente abandonado este desporto devido a ter engordado em demasia. No presente, Isidoro parece ter perdido a fome de viver, com o seu quotidiano a ser marcado pelo marasmo e inacção, algo realçado pelo trabalho de Nicola Nocella na composição do personagem.

As rotinas de Easy sofrem um valente abanão quando Filo (Libero De Rienzo), o seu irmão, um vigarista de primeira, convence o antigo piloto a efectuar um trabalho aparentemente simples: transportar o corpo de Taras, um ucraniano que faleceu num local de construção que pertencia ao segundo, até à fronteira entre a Hungria e a Ucrânia. O protagonista ainda hesita, mas logo acaba por ajudar o familiar, embora, como é de esperar, a missão não seja tão simples como Filo conjecturara. A viagem é marcada por uma miríade de peripécias, contrariedades e a entrada em cena de uma série de figuras que mexem com o protagonista e o enredo. Veja-se o camionista beberrão (Beso Moistsrapishvili) que é oriundo da Geórgia e transporta consigo galinhas, ou a simpática família chinesa que acolhe temporariamente o protagonista, ou o padre (Joseph Luis Caballero) que pretende abandonar o seu ofício para dedicar-se à sua banda, ou o encontro do personagem do título com as autoridades ucranianas.

O choque de culturas e as dificuldades de comunicação marcam a interacção entre Easy e os elementos com quem este contacta. É certo que a espaços o protagonista conta com a ajuda do tradutor do telemóvel, mas na maior parte das vezes a língua surge como um entrave. A juntar a tudo isto, Easy foge a alguns dos lugares-comuns associados aos italianos, tais como a gesticulação efusiva, algo que dificulta as dinâmicas com aqueles que o rodeiam, embora não o impeça totalmente de comunicar com alguns dos homens e mulheres com quem se depara durante o seu périplo. Andrea Magnani aproveita os diferentes espaços e gentes com quem Easy contacta para desenvolver o protagonista, dar espaço para o elenco secundário sobressair, dinamizar o enredo e efectuar algo típico das comédias à italiana, ou seja, mesclar o humor e a tragédia. Diga-se que o humor está muito presente ao longo do filme, seja em piadas banais a envolver o consumo de laxantes, ou em ocasiões arquitectadas com algum aprumo e enorme eficácia.

Um dos episódios que sobressai pela positiva é o momento em que observamos Easy a falar com o irmão ao telemóvel, enquanto em pano de fundo encontramos um conjunto de indivíduos a roubarem o carro funerário do primeiro, com os planos a serem compostos e reunidos com habilidade quer para realçar a faceta peculiar deste furto, quer a surpresa que perpassa pelo rosto do protagonista. Diga-se que não faltam outros trechos que ficam na memória. Note-se quando obrigam o personagem principal a cortar a barba. Se o episódio fosse exposto de forma directa, muito provavelmente teríamos pena do protagonista. No entanto, Andrea Magnani sabe trabalhar os timings do humor ao ponto de tudo ser montado de uma forma em que aquilo que é exibido e escondido contribui para que a revelação do rosto despido de Easy provoque um sorriso no nosso rosto. Nicola Nocella é uma peça-chave para o filme funcionar, com o actor a dominar os ritmos cómicos e a conseguir incutir densidade dramática ao seu personagem, uma figura tímida e pouco faladora. Estas características de Easy são ainda adensadas pelo facto do protagonista não saber falar a língua dos habitantes dos espaços por onde circula, com Nicola Nocella a ter de se expressar imenso com recurso à linguagem corporal e aos olhares.

O antigo piloto parte de Itália, passa pela Hungria e chega até à Ucrânia, tendo os Cárpatos como destino improvável, com Nicola Nocella a estar quase sempre em foco como este personagem que é obrigado a desafiar os seus receios e a lutar contra a depressão. A presença do caixão faz com que o protagonista se depare regularmente com a finitude da vida, algo que a espaços adensa a melancolia e o tom existencial que marcam alguns trechos deste périplo. A certa altura do filme encontramos Easy a ponderar deixar o caixão num cemitério destinado a soldados que faleceram durante a I Guerra Mundial. Pouco depois depara-se com a chegada de uma família que vem prestar homenagem a um ente querido, um acto que mexe com o protagonista e permite a Andrea Magnani criar um dos melhores momentos do filme. É um trecho emotivo, parco em diálogos, em que muito é expresso com os gestos e os olhares do personagem principal, enquanto este fica perante alguns dos motivos mais fortes para ter de ser bem-sucedido na sua tarefa: permitir que os familiares de Taras tenham a oportunidade de efectuar uma última homenagem ao falecido e possam prestar culto à sua memória.

É pelos meandros do drama e da comédia que "Easy" se movimenta com enorme destreza, sempre sem descurar a sua faceta extremamente humana e peculiar, ou a introdução de uma série de personagens que marcam a jornada do protagonista. Este começa por procurar entregar o caixão, embora, aos poucos, a viagem ganhe características mais intrincadas e contribua para que Easy se redescubra. O trabalho de Dmitriy Nedria na cinematografia contribui para realçar as especificidades dos territórios por onde o protagonista circula, sejam as tonalidades frias que exacerbam a temperatura baixíssima, ou as características montanhosas e rurais dos espaços dos Cárpatos. A viagem conta com uma série de episódios e figuras inesquecíveis, embora quem deixe sempre mais marca seja o personagem do título, com Nicola Nocella a contar com um trabalho notável como este antigo piloto que mexe com as nossas emoções.

Observação: Filme visionado no âmbito da cobertura da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano.

Título original: "Easy".
Realizador: Andrea Magnani.
Argumento: Andrea Magnani.
Elenco: Nicola Nocella, Barbara Bouchet, Libero De Rienzo, Beso Moistsrapishvili, Joseph Luis Caballero.

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