20 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Renata Pinheiro sobre "Açúcar"

 "Açúcar" coloca em diálogo o passado e o presente de uma propriedade e de uma mulher. Esse diálogo permite que o filme se envolva pela História do Brasil, seja pelas questões raciais, o esclavagismo, o racismo, as assimetrias sociais e as transformações que ocorreram ao longo do tempo, enquanto conversa com os dias de hoje e estimula reflexão. A longa-metragem realizada por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira é um dos destaques da nona edição do FESTin, algo que permitiu ao Rick's Cinema entrevistar a cineasta.

Rick's Cinema: A Maeve Jinkings já tinha trabalhado consigo no "Amor Plástico e Barulho". Em ambos os casos, a actriz conta com interpretações de grande nível. Como é que trabalhou a composição de Bethania com a Maeve Jinkings? Já tinha escrito a personagem da Bethania a pensar nela ou ela entrou depois do argumento já estar finalizado?

Renata Pinheiro: Quando o a personagem Bethania surgiu no argumento, logo pensamos em Maeve. Tínhamos saído de um processo muito construtivo no Amor, Plástico e Barulho e mais uma vez ela se encaixaria perfeitamente ao perfil da personagem Bethania. Ela é uma atriz talentosa e inteligente. Vai além da técnica. É sempre muito bom trabalhar com atores que buscam uma total compreensão do projeto e que pensam para além do ponto de vista da personagem.


RC: Você e o Sérgio Oliveira já trabalharam em conjunto em algumas obras cinematográficas, seja no roteiro seja na direção. O quanto existe de cada um no interior de "Açúcar"?

RP: Dividimos a direção e roteiro dos filmes Estradeiros (longa, doc) e Praça Walt Disney (curta, doc) ambos com carreiras bem relevantes com exibições em muitos festivais e países. Trabalharmos juntos é muito natural pois dividimos muitas inquietações. O Açúcar nasceu de um sonho que tive e partilhei com Sergio. A imagem era muito potente, um barco a vela que navegava sobre uma grande plantação de cana-de-açúcar. Essa imagem intuitiva trazia muito da história do nosso país. Sergio teve esta compreensão imediata. Frequentamos muito a casa do engenho, principalmente no momento em que tivemos nossa filha. Aprendemos a cuidar do bebé à moda antiga, a tia da minha mãe ainda era viva e nos ensinou tudo. Temos boas recordações daquele período das nossas vidas mas o duro contexto histórico daquela casa sempre nos levou a querer desenvolver um projeto ali. O Açúcar é um projeto que dividimos totalmente. Percebo hoje que nosso trabalho solo é bem diferente do que desenvolvemos juntos. Cada um tem a sua característica e juntos temos uma parceria bastante complementar.



RC: "Açúcar" coloca em diálogo o passado e o presente de uma propriedade e de uma mulher. Esse diálogo foi uma forma que encontraram para abordar temáticas relacionadas com as questões raciais, a escravatura e as assimetrias sociais? Sente que este diálogo é essencial para percebermos quem nós somos como sociedade? 

Sim. Bethania é uma metáfora da nossa classe média que perdeu privilégios. É uma personagem perdida, apegada a falsos valores e incapaz de encarar a realidade. Em nosso filme a sociedade "branca" é doentia.


RC: A propriedade onde a Bethania habita é vasta, decadente e encontra-se longe de quase tudo e todos, algo exposto em diversos planos que permitem colocar em evidência os largos terrenos de plantações e exacerbar uma sensação de isolamento em volta da Casa Grande. Quais os principais desafios de captar e transmitir as características destes cenários? 

A natureza e a geografia, num sentido amplo, são também personagens do nosso filme. Assim que montamos a equipe, levamos nosso elenco para passar alguns dias lá para conhecer os moradores da região, a natureza e mais do que compreender aquela geografia, procuramos fazer com eles sentissem a atmosfera daquele lugar. A escolha por retratar o engenho como uma ilha foi intencional. Isolando aquele contexto estávamos querendo dizer que o passado histórico ainda estava naquele lugar de forma residual. É também uma metáfora da nossa sociedade que ainda pratica atitudes decadentes e nocivas a todos.


RC: A Casa Grande permite ainda discernir o cuidado colocado na decoração de cenários interiores, ou não estivéssemos perante um espaço que reforça a ligação da protagonista ao passado. Não faltam fotografias e pinturas, móveis antigos e roupas que remetem para outros tempos, candelabros e porcelanas que carregam consigo o pó da História, entre outros objectos e elementos que trazem consigo uma série de memórias. Pode falar-nos um pouco do trabalho que foi efectuado a nível da decoração deste cenário?

RP: A casa de fato guarda muitas memórias, muitas gerações passaram por ali. Há muitos mortos naquela casa. O que percebo deste apego pela tradição é um apego também aos tempos em que havia fartura e portanto móveis de madeira imponentes e outros objetos. No Brasil a história é muito renegada, não há uma iniciativa institucional para custear essa preservação. As famílias fazem um pouco deste papel muitas vezes sem ter essa consciência histórica mais por uma necessidade de manter uma memórias afetiva.


RC: O argumento aprofunda por diversas vezes as dicotomias que pontuam o enredo: aqueles que possuem a terra e os que a trabalham; o branco e o negro; as janelas que se abrem e as que se fecham; as chegadas e as partidas; o realismo e a fantasia; o passado e o presente. Como é que trabalharam o desenvolvimento destas dicotomias?

RP: Colocamos diversas questões em contraposição para com isso provocar um contraste maior, uma confrontação maior. O filme é uma construção difícil que nos coloca num grande espelho em que nos vemos. Era preciso realçar, exagerar algumas questões dolorosas para bater diretamente no espectador. Filmamos em um espaço que, de muitas maneiras, foi fundador do país. Tudo está lá: a cana de açúcar, a casa senhorial e a "senhora de engenho", a antiga senzala e os descendentes atuais que vieram dela. Por essa razão o filme tem propositadamente uma atmosfera atemporal que perdura há séculos na estrutura social nefasta brasileira.

RC: Muito obrigado por conceder a entrevista. 

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