28 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Fernando Vendrell sobre "Aparição"

 "Aparição" é um dos representantes nacionais da competição de longas-metragens da nona edição do FESTin. Foi exactamente no âmbito da cobertura do certame que o Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar online o realizador Fernando Vendrell. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos como a relação do cineasta com a obra de Vergílio Ferreira, os principais pontos de diálogo entre a realidade de "Aparição" e os nosso dias, entre outros temas.


Rick's Cinema: Na sua entrevista ao site da David & Golias comentou que "Estamos no século XXI e tenho notado que há uma espécie de tentativa de esquecimento de alguns escritores muito importantes como Vergílio Ferreira". Qual a sua relação com esta obra seminal de Vergílio Ferreira e com os trabalhos deste autor? Para si, quais são as razões para esta tentativa de esquecimento do trabalho de escritores como Vergílio Ferreira?

Fernando Vendrell: O romance APARIÇÃO editado em 1959 colocou Vergílio Ferreira em rutura com as suas obras anteriores, inscritas no universo do neo-realismo português, lançando a sua carreira literária para um universo temático de teor “existencialista” e de cariz individual e filosófico. O que me interessou em APARIÇÃO foi esta rutura, a existência de uma obra de transição entre esses dois paradigmas, mas também o facto do escritor inscrever impressões, opiniões e suas duvidas pessoais na narrativa, tornando esta obra alegoricamente biográfica e extremamente intima.


RC: O Alberto procura estimular os alunos a pensar e a reflectir, algo que vai contra os ideais do Estado Novo e do director da escola. Ainda que com as devidas diferenças, sente que esta falta de estimulo ao pensamento e à reflexão dialoga com os nossos dias? Quais os principais pontos de diálogo entre a realidade de "Aparição" e os nossos dias?

FV: O que me chocou foi que esse discurso do professor Alberto possa ser ainda hoje pertinente, a mensagem do livro talvez seja ainda mais atual. Não existindo hoje a censura e o fascismo, a capacitação e formação dos alunos passaria pela aquisição de um livre pensamento e a valorização da pessoa/aluno e da sua subjetividade, o que assistimos é a uma necessidade de objetiva de “condicionamento” do /pessoa em nome de um “ensino funcional”, projetado para resultados e objetivos de avaliação eficazes, que negam a diferença e a individualidade. A inibição da individualidade e da liberdade de pensamento no mundo contemporâneo é algo muito preocupante.


RC: Embora tenha um tom cómico e a subtileza de um Basil Fawlty, o Machado acaba por representar o desejo de manter a ordem e fugir aos problemas de alguns sectores da sociedade durante o Estado Novo. Esses comportamentos remetem ainda para a realidade de Évora neste período. Quais foram os principais desafios de expor e captar a realidade da cidade de Évora desta época e as especificidades deste período da nossa História?

FV: O Machado é ainda um retrato de um espírito característico de alguma sociedade portuguesa atual: uma mentalidade tradicional e religiosa, mas com um espírito mesquinho na sua necessidade de poupança e de controlo. No romance original esta personagem acaba por ser desmascarada em contradição pelos seus costumes excessivos e ações que privadamente se permite. Em nada parece ser diferente de uma classe política atual que defende a austeridade (nomeadamente os cortes dos sectores culturais) e que se envolve em esquemas de luxo e de excesso na sua vida pessoal. A ideia da cidade de Évora como sendo uma sociedade fechada e difícil persiste ainda hoje para quem chega a esta cidade, o nosso maior desafio foi captar o interesse das pessoas e instituições para a concretização deste projeto, mesmo sendo APARIÇÃO um romance inscrito no imaginário coletivo da cidade de Évora.


RC: A língua que reúne os personagens interpretados por Jaime Freitas e Victória Guerra pode estar morta, mas os sentimentos que os unem estão bem vivos, com a ligação entre ambos a ser marcada pelo forte efeito que provocam um no outro e pelos momentos em que colocam os seus ideais e ideias em diálogo. Como foi trabalhar estas dinâmicas dos personagens e desenvolver as mesmas com o Jaime Freitas e a Victória Guerra? Como é que a Victória Guerra e o Jaime Freitas chegaram ao elenco do filme?

FV: Procurava alguém que pudesse conjugar a ingenuidade, o lado intelectual e o idealismo de Alberto, o Jaime Freitas foi o ator que primeiro pensei para criar este personagem. A sua maneira de ser, a intensidade do seu olhar e a sua inteligência emocional era algo que eu pretendia convocar para estabelecer este juvenil “quase alter-ego” do escritor Vergílio Ferreira. A procura de uma atriz para desempenhar Sofia foi longa e difícil, a Victoria Guerra entrou no projeto quase na véspera da rodagem e tal como o seu personagem no romance “desestabilizou” o filme, felizmente! A forte marca de Sofia, no romance, voluntariosa mas contraditória, vibrante e plena de vida, conjugou-se de uma forma instantânea com a atriz. Entre estes dois atores e os seus personagens estabeleceu-se uma reação particularmente intensa, corporalizando eles algo que estava já latente no romance original.


RC: Muitas das vezes ligada à sedução e ao amor, bem como ao perigo e à morte, a tonalidade vermelha surge em diversos momentos associada à personagem interpretada por Victória Guerra, seja no verniz, no batom, ou no guarda-roupa, algo que sublinha alguns traços da personalidade da Sofia e deixa antever alguns acontecimentos que decorrem ao longo do filme. Pode falar-nos um pouco do trabalho que efectuou quer com a Patricia Dória, quer com Márcia Lourenço e a Sandra Meleiro para que o guarda-roupa e a caracterização não só sublinhem os traços dos personagens, mas também contribuam para realçar as características do período em que decorre o enredo?

FV: Procuro sempre estimular a criatividade e a expressividade estética durante o processo de produção de um filme, o trabalho coletivo de uma equipa de filmagem durante a concretização das filmagens é algo que me interessa muito, talvez por ter começado profissionalmente como assistente de realização. Entre mim a Patrícia (figurinos), a Sandra e a Márcia (caracterização) estabeleceu-se uma natural ligação criativa e intuitiva tendo como ponto de partida a dramaturgia e o conceito do filme por mim apresentado. A existência de pequenos pormenores com mais valia expressiva, que valorizam ou potenciem a dramaturgia e a narrativa global de um projeto é algo que eu sempre ambiciono explorar nos diversos trabalhos que faço, os contributos dos técnicos e artistas com quem colaboro são determinantes para o resultado final e para o impacto do filme no espectador.


RC: Num determinado momento do filme, encontramos Alberto e Carolino a trocarem alguns diálogos marcantes em pleno Cromeleque dos Almendres. Foi o cenário ideal para exacerbar o modo distinto como estes personagens encaram a vida, a morte e o Homem? A escolha deste local tem algum valor simbólico? Aproveito ainda para perguntar se pode falar-nos um pouco da construção desta cena?

FV: No livro estes diálogos ocorrem num passeio junto de uma linha férrea abandonada. Apesar de nos anos 50 o cromeleque estar ainda em ruínas julguei que esta situação entre Alberto e Carolino questionava algo de primordial e primitivo. Eles falam sobre a existência humana e o significado da morte, Carolino tenta expor a sua inquietação: o significado do homem poder dispor da vida e da morte, equiparando-se ao divino. Questões morais, éticas e filosóficas, provocam uma crispação profunda entre discípulo e professor. A minha ideia base era enquadrar esta confrontação dos personagens num labirinto de pedras, explorando as texturas, o ritmo arquitectónico do local, perfazendo um trajeto onde os personagens podiam desaparecer e reaparecer de forma inesperada. No dia de filmagens um denso nevoeiro instalou-se no local e reforçou ainda mais a intensidade desta cena, obrigando-me a reagir a esta intrusão do inesperado.


RC: O livro "Aparição" é uma obra de pendor autobiográfico. Procurou também incutir algo de autobiográfico no interior do seu filme? O quanto é que existe do Fernando Vendrell no interior de "Aparição"?

FV: Tenho alguma dificuldade em distanciar-me das obras por mim realizadas, todos os meus filmes transportam muito de mim, da minha maneira de ser e de pensar. Durante a rodagem deste filme alguns vultos de realizadores, professores da Escola de Cinema/Conservatório e pessoas com quem trabalhei, ocorriam-me durante a rodagem, até a participação de certos atores evocava a sua presença apesar de já não estarem entre nós. O falecimento do realizador Alberto Seixas Santos, meu professor, no final das filmagens projetou em mim um sentimento de enorme solidão e de quase orfandade. Este filme que começava com a “morte do pai” do protagonista Alberto, ficou marcado de forma distinta pela minha homenagem a um sentimento de paternidade de quem orgulhosamente descendo. Dediquei-o “a meu pai”.


RC: Muito obrigado por conceder esta entrevista.  

"Aparição" estreia em circuito comercial a partir do dia 22 de Março, sendo distribuído pela NOS Audiovisuais. Podem consultar mais informações sobre o filme no site da produtora David & Golias: http://www.david-golias.com/cinema/longas-metragens/aparicao/

Sem comentários: