27 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Jaime Freitas sobre "Aparição"

 Inspirado no livro homónimo de Vergílio Ferreira, "Aparição" integra a competição de longas-metragens da nona edição do FESTin. Foi exactamente no âmbito da cobertura do festival que o Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar Jaime Freitas, o intérprete de Alberto, o personagem principal da nova longa-metragem realizada por Fernando Vendrell. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a relação do actor com a obra de Vergílio Ferreira, o trabalho na composição do personagem, entre outros temas.

Rick's Cinema: Qual a sua relação com "Aparição" e os trabalhos de Vergílio Ferreira? Sente que, perante algum esquecimento a que algumas das nossa obras literárias clássicas são votadas, é essencial que o nosso cinema transporte as mesmas para o grande ecrã?

Jaime Freitas: Mal o li senti que estava a ler coisas sobre mim. Houve um envolvimento muito intenso. As questões do Vergílio parece que se tornam nossas. Minhas neste caso. Não só as questões mas os desejos, as vontades, os sonhos... o livro Aparição é um transporte muito especial para um debate sobre a mente humana. Neste caso um debate interior. É muito especial. Como é que surge a nossa "aparição" quando nos olhamos ao espelho e temos aquele pequeno momento, aquela pausa em que nos olhámos nos olhos e perguntamos: Quem somos nós? E não é para sempre... A questão é: quem somos nós agora, com uma certa idade, depois destas experiências e revelações vividas.
 Tanta obra literária Portuguesa que gostaríamos de ver no ecrã. O grande problema é como, quem e com que dinheiro...


RC: O Alberto é um existencialista que se preocupa com questões relacionados com o Homem, a vida e a morte, a palavra e a existência. O que o atraiu neste personagem? Como trabalhou a composição do personagem? 

JF: Um pouco como respondi na questão anterior. Eu próprio sinto-me uma pessoa que vive numa constante indagação sobre a existência. Olho muito para o céu... Olho para as coisas mundanas, por vezes de uma forma estranha, quase alienígena: Como é tudo isto possível e eu poder neste momento olhar para tudo assim, com estes olhos. É muito belo. Tal como o Alberto, eu também perdi o meu pai cedo, e esse acontecimento fez avançar o meu olhar sobre o tempo de vida e pensar muito sobre a morte e sobre o que é a morte. Mas temos que negociar com a nossa relação com ela, porque ela é inevitável. Acho que o Alberto Soares está, de certo modo, nesta negociação.


RC: A língua que reúne o Alberto e a Sofia pode estar morta, mas os sentimentos que os unem estão bem vivos, com a ligação entre ambos a ser marcada pelo forte efeito que provocam um no outro e pelos momentos em que colocam os seus ideais e ideias em diálogo. Pode falar-nos um pouco do trabalho que efectuou com a Victória Guerra a desenvolver as dinâmicas entre os vossos personagens? Quais as características da relação entre o Alberto e a Sofia?

JF: O desprendimento perigoso da personagem Sofia atrai o Alberto de uma forma muito magnética. Ela é destemida em relação às escolhas que faz na vida ou mesmo na relação que tem com a morte. Ela diz que não estuda, mas parece que sabe tudo. Talvez dai o nome Sofia... Trabalhar com a Victória foi outra dádiva. Eu sentia que não precisava de fazer nada a não ser reagir, olhar para ela. Tentar ler-lhe os olhos, era como uma criatura que nunca tínhamos visto e eu estava para ali a tentar perceber o que pensava, o que sentia. Para além disso, a Victória é uma actriz incrivelmente generosa, uma actriz que ouve e que quer estar em conjunto a descobrir o melhor possível para cada cena. Extraordinária.


RC: Num determinado momento do filme, encontramos Alberto e Carolino a trocarem alguns diálogos marcantes em pleno Cromeleque dos Almendres. Foi o cenário ideal para exacerbar o modo distinto como estes personagens encaram a vida, a morte e o Homem? Existe alguma valor simbólico a rodear a escolha deste local? Como é que prepararam esta cena?

JF: Foi, tivemos muita sorte com aquele nevoeiro que foi permanente durante toda a cena. Aquilo nem encomendado. Ajuda sempre quando temos estes elementos a nosso favor. A cena foi sendo preparada conforme a fazíamos. Fazer filmes é filmar ensaios.


RC: O Alberto procura estimular os alunos a pensar e a reflectir, algo que vai contra os ideais do Estado Novo e do director da escola. Ainda que com as devidas diferenças, sente que esta falta de estimulo ao pensamento e à reflexão dialoga com os nossos dias? Quais os principais pontos de diálogo entre a realidade de "Aparição" e os nossos dias?

JF: Penso que o filme é completamente actual em vários sentidos. Vivemos tanto estas questões hoje em dia. Quem somos nós? Para onde vamos? Que escolhas fazer? Como? São as questões que nos acompanham sempre e as que nos fazem continuar a viver e a procurar a melhor vida possível para todos.

RC: Muito obrigado por conceder esta entrevista. 

"Aparição" estreia em circuito comercial a partir do dia 22 de Março, sendo distribuído pela NOS Audiovisuais. Podem consultar mais informações sobre o filme no site da produtora David & Golias: http://www.david-golias.com/cinema/longas-metragens/aparicao/

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