24 fevereiro 2018

Crítica: "Mulher do Pai" (2016)

 Estreia de Cristiane Oliveira na realização de longas-metragens, "Mulher do Pai" embrenha-se pelas fronteiras territoriais e humanas, enquanto aborda com sensibilidade uma série de assuntos que envolvem a relação entre um pai e a sua filha, o luto, a perda da memória visual, a solidão e a adolescência, sempre sem descurar as especificidades do território em que se desenrola o enredo e o modo como este influência os personagens. É um espaço onde muito e pouco acontece, no qual a tradição e a modernidade convivem e a presença uruguaia é sentida, ou não estivéssemos no interior de uma pequena cidade brasileira que se encontra situada nas proximidades da fronteira com o Uruguai. Quem habita neste território é Nalu (Maria Galant), uma das protagonistas, uma adolescente de dezasseis anos de idade, também ela em plena fronteira entre os últimos dias da infância e a chegada às responsabilidades da idade adulta.  

Maria Galant é uma agradável surpresa, com a intérprete a conseguir incutir uma mescla de maturidade e ingenuidade à sua personagem, uma jovem que se encontra a efectuar uma série de descobertas, tem de tomar algumas decisões relevantes e conta com uma curiosidade muito típica da idade. Esta habita com Olga (Amélia Bittencourt), a sua avó, bem como com Ruben (Marat Descartes), o seu pai, um indivíduo na casa dos quarenta anos de idade, que ficou cego quando era mais novo. Os momentos iniciais de "Mulher do Pai" são essenciais para estabelecer a relevância de Olga no dia a dia de Ruben e Nalu, bem como as rotinas destes personagens e as suas dinâmicas. É a veterana quem cozinha, efectua as limpezas, ajuda o filho, trabalha na fiação e educa a adolescente, com a sua morte a mexer com o quotidiano da dupla de protagonistas. 

Nalu é compelida a tornar-se na mulher da casa (a mãe falecera quando esta era mais nova), enquanto Ruben tem de assumir na prática o papel de progenitor, com as novas dinâmicas a propiciarem algumas tensões entre ambos, fruto do pouco à vontade que têm a cumprir estas funções. Marat Descartes e Maria Galant convencem-nos das dinâmicas intrincadas que envolvem o dia a dia dos personagens que interpretam e da ligação que existe entre os mesmos. O actor consegue expressar a personalidade algo conservadora e reservada de Ruben e as limitações inerentes à sua condição de invisual, mas também as dificuldades que este experimenta a lidar com a filha. Maria Galant deixa transparecer a frustração que a sua personagem sente devido a ter de assumir as funções da avó, bem como as dúvidas que a desassossegam e a proximidade (inicialmente forçada) que começa a formar com o pai. 

Marat Descartes e Maria Galant protagonizam alguns dos momentos emocionalmente mais poderosos da fita. Veja-se quando Ruben toca no rosto da filha (o tacto é um dos poucos meios deste poder perceber as feições de quem o rodeia), ou pede para ela descrever um filme, em dois episódios que sublinham de forma paradigmática os laços fortes que envolvem estes personagens. Ruben tem em Antonio (Jorge Esmoris), o dono do café local, um dos seus poucos amigos. Por sua vez, Nalu tem em Elisa (Fabiana Amorim), uma colega de escola, a sua melhor amiga, com a dupla a partilhar confidências sobre rapazes, algumas dúvidas e receios. Se Nalu hesita entre permanecer ou sair do território, já Elisa demonstra um desejo de viver com a tia e o pai em Porto Alegre, com o argumento a estabelecer com eficácia os traços em comum e as diferenças entre estas personagens que contam com uma cumplicidade latente. 

Outra figura que tem imenso relevo para a protagonista é Rosario (Verónica Perrotta), uma professora de artes plásticas que forma amizade com a jovem e o pai desta. A sua postura é pontuada pela afabilidade e simplicidade, embora a sua presença mexa com os frágeis equilíbrios desta família. Verónica Perrotta é uma das várias integrantes do elenco que conseguem sobressair, tal como Jorge Esmoris, com o argumento a conceder espaço para que os personagens sejam estabelecidos e desenvolvidos. Tudo é aprofundado de forma bastante humana, subtil e delicada, sem notas em falso ou histerismos, seja a relação entre pai e filha, ou o luto. Note-se a forma como os protagonistas lidam com a morte de Olga: não os encontramos a gritar, ou em ataques de histeria, mas sim a demonstrarem a sua dor através de algumas falas dotadas de tristeza e em alguns gestos cheios de significado. Observe-se o quarto da falecida, um espaço que é deixado intacto durante uma parte considerável do filme, algo que exibe o respeito e a afeição que Nalu e Ruben tinham pela veterana (e o cuidado colocado no design de produção). 

A casa encontra-se muitas das vezes praticamente despida de iluminação e de presença humana, algo que adensa uma certa sensação de solidão e isolamento em volta dos personagens principais. Diga-se que o local onde a casa está situada, nomeadamente, um espaço rural que se encontra a alguma distância da restante população, contribui e muito para exacerbar essa solitude. As estradas de terra de tons acastanhados rodeiam este espaço, tal como os terrenos verdejantes destinados à agricultura e à pecuária, uma cultura que tem o homem como "figura central", algo que contrasta com o papel central que Nalu assume no interior da sua casa. A adolescente é influenciada pelo espaço onde habita e pela forma como foi educada, algo notório quando inicialmente pondera permanecer no local e continuar com o negócio de tecelagem da família. Ruben também está numa zona de charneira, nomeadamente, entre deixar de ser filho e aprender a ser pai, ao mesmo tempo que lida com a angústia de estar a perder a sua memória visual. 

O tacto é praticamente a única forma que Ruben tem de manter contacto com os resquícios visuais que permaneceram na sua memória, algo que proporciona algumas situações emocionalmente demolidoras, seja quando fala sobre a progenitora, ou toca na face da filha. A proximidade que se forma entre a dupla de protagonistas é exposta com precisão, um adjectivo que também se aplica à forma como as elipses são utilizadas ao serviço do enredo, seja para dinamizar a narrativa, para deixar diversos episódios à mercê da imaginação do espectador, ou realçar a ambiguidade de alguns acontecimentos. Note-se quando encontramos Nalu a ter um encontro com Juan (Diego Trinidad), um jovem uruguaio, com a realizadora a não exibir aquilo que aconteceu, até deixar a adolescente explanar os pormenores ao telefone (em fora de campo, um recurso utilizado com imenso acerto ao longo do filme). Diga-se que Ruben escuta atentamente a conversa, ainda que às escondidas, enquanto "Mulher do Pai" deixa-nos diante da curiosidade deste personagem em relação aos actos da filha, com a dupla a formar uma ligação pontuada por alguma ambiguidade.

Tanto Ruben como Nalu são personagens dotados de espessura e complexidade, que beneficiam não só da sinceridade transmitida pelos seus intérpretes, mas também do sólido argumento de Cristiane Oliveira. Se já tinha demonstrado algum do seu talento como argumentista em obras como o recomendável "Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa", Cristiane Oliveira evidência em "Mulher do Pai" uma inegável mestria como realizadora de longas-metragens ao elaborar um drama sensível e delicado que se destaca como um dos grandes filmes da edição de 2018 do Festin.

Título original: "Mulher do Pai". 
Realizadora: Cristiane Oliveira.
Argumento: Cristiane Oliveira e Michele Frantz.
Elenco: Maria Galant, Marat Descartes, Verónica Perrotta, Amélia Bittencourt, Fabiana Amorim, Jorge Esmoris, Diego Trinidad.

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