10 fevereiro 2018

Crítica: "Il permesso - 48 ore fuori" (2017)

 Simples nas suas pretensões e na sua execução, "Il permesso - 48 ore fuori" aparece como um filme-mosaico algo irregular, nem sempre capaz de fugir às armadilhas deste formato ou de optar pela subtileza, enquanto nos apresenta a quatro presidiários que receberam permissão para passarem dois dias fora da prisão de Civitavecchia. Inicialmente não sabemos os crimes que Donato (Luca Argentero), Rossana (Valentina Bellè), Angelo (Giacomo Ferrara) e Luigi (Claudio Amendola) cometeram, embora, aos poucos, sejamos colocados diante da personalidade dos quatro protagonistas, do contexto que os rodeia e dos actos que efectuaram no passado. Diga-se que um dos pontos fortes do filme é a sua capacidade para conseguir despertar o nosso interesse em relação a alguns destes presidiários, tais como Rossana, Angelo e Luigi, sobretudo os dois últimos, com Valentina Bellè, Giacomo Ferrarea e Claudio Amendola a ajudarem a essa situação ao atribuírem alguma densidade a estes elementos.

Giacomo Ferrara exprime de forma convincente o estilo algo atrapalhado, comunicativo e leal do personagem que interpreta. Já Valentina Bellè exibe a instabilidade emocional de Rossana, uma jovem que foi detida devido a transportar dez quilos de droga para Itália e conta com uma família com imensas posses financeiras. Ainda numa fase prematura do filme, encontramos Angelo a meter conversa com Rossana e a pedir-lhe boleia para casa, com a dupla a apresentar alguma química e a formar uma relação que evolui de forma convincente ao longo da obra, seja em momentos dotados de humor, tais como o episódio em que fazem sexo no carro, ou pontuados pela sinceridade. Observe-se o momento em que jantam numa roulotte, ou o episódio em que dialogam de forma sincera nas imediações de um jardim. Diga-se que Claudio Amendola traça uma dicotomia eficaz entre o cenário e os dois presidiários, com a estabilidade do jardim a contrastar com a instabilidade da vida pessoal de ambos. Estes têm de tomar decisões difíceis para o futuro: Angelo é bem recebido pelos amigos, com a euforia a rodear inicialmente o reencontro, embora o jovem seja rapidamente confrontado com os planos destes para um furto; Rossana pondera não regressar à prisão e fugir de Itália, enquanto coloca a sua casa em polvorosa e entra em choque com a mãe (uma personagem que raramente tem espaço para se soltar das amarras dos lugares-comuns).

Donato e Luigi também são colocados perante situações intrincadas, embora os trechos protagonizados pelo primeiro sejam os mais descartáveis e desprovidos de espessura. O trabalho de Luca Argentero na composição do personagem resume-se a demonstrar feições sérias e eivadas de fúria, sempre num estilo lacónico e sisudo, praticamente sem sair do mesmo registo. Diga-se que o problema está não só no trabalho risível do intérprete, mas também no argumento, com este a falhar imenso no desenvolvimento das temáticas e de diversos personagens, algo que acontece no caso de Donato. Este procura por Sonja, a sua esposa, embora tarde em encontrar esta mulher, algo que o conduz a voltar a entrar em contacto com Sasà (Antonino Iuorio), um proxeneta e organizador de lutas ilegais. Antonino Iuorio interpreta um personagem completamente caricatural e estereotipado, sem qualquer dimensão ou interesse, com Sasà a surgir como uma figura pouco confiável, violenta e desinteressante. Escusado será dizer que o protagonista se vai envolver em confusões, inclusive num sangrento combate de rua, embora o seu maior problema seja a superficialidade com que a sua história é desenvolvida. Nesse sentido, não podemos deixar de fazer um péssimo elogio a Claudio Amendola: é melhor actor do que realizador. Veja-se a credibilidade e humanidade que concede ao personagem que interpreta, algo que torna Luigi num dos destaques de "Il permesso - 48 ore fuori". 

Luigi é um criminoso experiente que é conhecido por ter sido impiedoso no cumprimento do seu ofício. Quando regressa a casa percebe que Michele (Simone Liberati), o seu filho, encontra-se a traficar droga e enfureceu Goran (Ivan Franek), um traficante perigoso que outrora colaborou com o veterano, algo que preocupa o protagonista. As dinâmicas de Luigi com o filho e a esposa resultam, com o trio a exibir a ligação que existe no seio desta família, com os episódios protagonizados por Claudio Amendola a contarem com alguma carga dramática e espessura. No entanto, os trejeitos excessivos que Ivan Franek incute a Goran roubam negativamente as atenções, um pouco como acontece com Sasà nos trechos que envolvem Donato, com ambos a parecerem estar num filme diferente dos restantes personagens. Diga-se que a forma espalhafatosa como a banda sonora é utilizada também está longe de merecer elogios, com as músicas a aparecerem quase sempre prontas a insuflar alguns episódios, ou a atribuir-lhes uma carga dramática ou melancólica que inadvertidamente acaba por soar a falso. Note-se o momento em que encontramos Donato ferido, a respirar com enorme esforço, enquanto tenta subir um terreno recheado de terra, plantas e pedras. O desespero, a dor e o empenho de Donato deveriam ser o destaque, mas este acaba por recair totalmente na canção Iron, de Woodkid, introduzida pura e simplesmente para dar estilo a esta cena. 

  Embora conte com diversos problemas, seja a nível do argumento, da construção dos personagens ou da utilização da banda sonora, também não podemos escamotear que "Il permesso - 48 ore fuori" apresenta três protagonistas merecedores de interesse e alguns momentos bem arquitectados. Entre os protagonistas que se destacam encontram-se os já mencionados Angelo, Rossana e Luigi, algo que dá espaço para os seus intérpretes sobressaírem. No caso dos momentos dignos de nota é impossível deixar de assinalar a cena em que Luigi coloca o filho à prova no interior de um túnel. A luz encontra-se situada quer na entrada, quer na saída do túnel, enquanto a escuridão domina os corpos dos personagens e aguardamos por saber se a primeira vai dominar a segunda ou irá acontecer a situação contrária, com Simone Liberati e Claudio Amendola a expressarem com acerto a profusão de emoções que percorre a dupla. Ambos cometeram erros, tal como a maioria dos personagens que nos são apresentados ao longo do filme, com estes elementos a vaguearem por uma zona cinzenta entre o bem e o mal, enquanto efectuam decisões que certamente vão mexer com o seu futuro.

A vida é feita de escolhas. É um comentário banal, mas não deixa de ser verdade, que o digam os personagens de "Il permesso - 48 ore fuori". Todos são confrontados com o passado, enquanto têm de decidir se devem ou não prosseguir com os planos que tinham para estas quarenta e oito horas fora da prisão. Fugir ou regressar à instituição prisional? Efectuar um assalto ou deixar o mundo do crime de lado? Confrontar o passado ou evitar problemas? Estas são algumas das perguntas que devem ter percorrido a mente dos protagonistas de "Il permesso - 48 ore fuori", uma obra pontuada pela irregularidade e simplicidade, que se envolve pelos meandros dos thrillers e dos dramas, enquanto expõe alguns episódios das intensas quarenta e oito horas dos protagonistas. 

Título original: "Il permesso - 48 ore fuori".
Realizador: Claudio Amendola.
Argumento: Claudio Amendola, Giancarlo De Cataldo, Roberto Iannone.
Elenco: Claudio Amendola, Valentina Bellè, Giacomo Ferrara, Luca Argentero, Antonino Iuorio, Ivan Franek, Simone Liberati.

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