13 janeiro 2018

Crítica: "Aus dem Nichts" (Uma Mulher Não Chora)

 "Aus dem Nichts" compensa em emotividade, ritmo, energia, coragem e sinceridade aquilo que por vezes lhe falta em subtileza. Fatih Akin realiza uma obra cinematográfica que se embrenha pelas franjas de uma miríade de géneros e subgéneros, sejam estes o drama relacionado com o luto, ou o filme de tribunal e de vingança, enquanto expressa as suas mensagens de forma directa, é capaz de ser fiel aos seus personagens e consegue questionar o espectador. Estas diversas camadas de "Aus dem Nichts" são ancoradas na sua protagonista, em particular nos episódios que protagoniza e nas decisões que toma, com Diane Kruger a compor uma personagem que eleva uma carreira. A actriz contribui para a personagem deixar marca, com o seu rosto a aparecer como o semblante de todas as emoções, enquanto somos compelidos a partilhar o intenso quotidiano de Katja Sekerci, a protagonista desta potente obra cinematográfica. 

Os momentos iniciais do filme são pontuados por uma atmosfera de felicidade e alegria, ou não estivéssemos perante o matrimónio de Katja e Nuri (Numan Acar), um evento que se desenrola na prisão e é exposto a partir de um falso vídeo amador. As características amadoras do vídeo são realçadas pelos movimentos de câmara bruscos e desajeitados, algo que reforça o contexto peculiar em que decorreu o casamento e a euforia que pontuou este episódio. Após esse prólogo, somos colocados perante Katja a deixar Rocco (Rafael Santana), o filho do casal, no escritório de Nuri. A união desta família é estabelecida de forma relativamente rápida, embora seja destroçada a uma velocidade ainda maior. Quando regressa ao local de trabalho do esposo, Katja depara-se com um pesadelo transformado em realidade. O escritório foi alvo de um atentado que vitima Nuri e Rocco, algo que é confirmado através dos testes de ADN e mexe por completo com a mente e a alma da protagonista.

 O primeiro capítulo de "Aus dem Nichts" é marcado acima de tudo pela forma como a protagonista lida com o luto. O sofrimento é visível a partir do seu rosto, bem como a revolta e uma certa sensação de desespero, com a câmara de filmar a concentrar as atenções em Kruger, enquanto a actriz consegue transmitir a dificuldade que a personagem sente a lidar com a perda do marido e do filho. Veja-se quando a encontramos deitada na cama do rebento, num trecho pleno de emotividade, melancolia e angústia, que expressa uma tentativa de captar algo impossível de recuperar. A casa da protagonista encontra-se recheada de objectos de Rocco e de memórias vividas pelo trio, algo que não só exacerba o sofrimento de Katja e o sentimento de perda, mas também o cuidado colocado na decoração dos cenários interiores para que estes sublinhem elementos da personalidade dos personagens e do estado de espírito dos mesmos. Diga-se que os cenários externos também estão em destaque, sobretudo a cidade de Hamburgo, exposta como um espaço chuvoso, frio e cinzento, algo que enfatiza a angústia que percorre a protagonista.

Katja tem ainda de lidar com o preconceito que existe em relação ao esposo, algo notório nas perguntas efectuadas pelo comissário Fischer (Laurens Walter). O passado de Nuri como traficante e presidiário é mencionado, bem como o facto deste ser curdo, uma situação que conduz a polícia a iniciar as buscas dentro da comunidade muçulmana. A protagonista acredita que os culpados pelo assassinato são neo-nazis, uma situação que nos traz para outra temática do filme, nomeadamente, o modo assustador como a extrema-direita começa a ressurgir. Akin é exemplar a abordar essa emergência da extrema-direita, a forma como a presença dos partidos desse espectro político em assentos parlamentares acaba por atribuir-lhes uma estranha legitimidade e o modo bem vivo como alguns dos seus militantes expõem publicamente os seus valores, enquanto coloca o espectador perante uma ameaça que deixa cada vez mais de estar nas sombras. O cineasta demonstra ainda uma enorme competência a explorar a forma como a protagonista enfrenta a dor, enquanto esta explana estados de espírito e sensações tão díspares como raiva, mágoa, tristeza, impotência, revolta, dúvida e determinação.   

Estamos perante um filme que sabe manipular, inquietar, emocionar e manifestar que não quer despertar indiferença, seja a efectuar comentários de foro político, ou a explanar as dificuldades de Katja em lidar com o luto. O primeiro capítulo aborda o esforço que a protagonista e os seus familiares efectuam para enfrentarem a perda de Rocco e Nuri, bem como a investigação policial, até dar lugar ao segundo tomo. Este permite que "Aus dem Nichts" embrenhe-se pelos meandros do filme de tribunal, enquanto Akin coloca-nos perante situações gradativamente mais intensas, que contribuem para abordar assuntos relacionados com o sistema de justiça, o extremismo e o papel dos advogados. "(...) it was my job to make it real but at the same time very emotional", disse Akin sobre os trechos que se desenrolam no tribunal, um desiderato que consegue ao mesmo tempo que elabora alguns momentos vigorosos e envolventes. 

Do lado dos advogados sobressaem Danilo Fava (Denis Moschitto) e Haberbeck (Johannes Krisch). O primeiro é amigo pessoal de Katja e advogado desta última, com as dinâmicas entre ambos a serem pontuadas pela cumplicidade e afabilidade. O segundo é advogado de defesa do casal acusado, com Johannes Krisch a compor uma figura fria, eloquente, pronta a despertar revolta e inquietação. Também Kruger consegue destacar-se nas cenas que decorrem em tribunal. Veja-se um plano filmado em plongée total que permite expressar a relevância do episódio que está a ser exibido, em particular, a protagonista a deslocar-se até à cadeira para testemunhar, ou momento em que recebe informação detalhada sobre como ocorreu a morte do filho e o estado em que ficou o corpo do mesmo. Diga-se que o facto de Akin e Rainer Klausmann (director de fotografia) não pouparem na utilização dos close-ups permite realçar ainda mais as emoções que percorrem o rosto dos intérpretes e sublinhar a emotividade que envolve a enérgica segunda parte do filme.

O terceiro capítulo marca a entrada de "Aus dem Nichts" na esfera dos filmes de vingança e permite que Diane Kruger adicione mais uma camada à sua personagem, com a intérprete a convencer também nesta faceta "justiceira" e a exibir uma capacidade assinalável para expressar imenso apenas com as expressões do seu rosto. O argumento é fiel à personagem principal e às opções que esta tomou, enquanto consegue colocar-nos a ponderar o que faríamos no seu lugar e deixa-nos perante o que acontece a alguém que perde a esperança. Pelo meio, "Aus dem Nichts" efectua questões pertinentes e uma série de comentários sobre a nossa sociedade, brinda-nos com um plano final fenomenal e é contundente no seu desfecho. No final, a realidade e a ficção são confrontadas, quase como a dizer: se estão chocados com o filme, então tomem lá umas valentes doses daquilo que está a ocorrer ao vosso redor, ou seja, aquilo que é realmente ultrajante. 

Parte da inspiração de Akin para desenvolver o argumento de "Aus dem Nichts" partiu exactamente da realidade, nomeadamente, os assassinatos cometidos pelos membros do Nationalsozialistische Untergrund entre 2000 e 2007, algo que dialoga com o atentado que ocorre no primeiro capítulo do filme. A própria tentativa das autoridades procurarem os perpetradores dos crimes no interior da comunidade muçulmana conversa e muito com o enredo do filme, em particular, quando a polícia tenta encontrar possíveis ligações de Nuri com traficantes, ou busca aferir as suas posições religiosas e políticas. Ou seja, existe um forte comentário político e social no interior do enredo, ainda que Akin não descure as temáticas relacionadas com a dor provocada pela morte de um ente querido, ou os motivos que levam alguém a procurar cometer um acto de vingança.

Mais acima elogiei o plano final. Convém ainda salientar a capacidade de Akin para explorar as possibilidades proporcionadas por alguns planos filmados com a câmara na mão, tendo em vista a realçar as emoções que percorrem as cenas, ou a maneira sagaz como utiliza os falsos vídeos familiares para colocar em evidência a união da família de Katja e a angústia que percorre a alma desta mulher. Esta é uma protagonista marcante, daquelas que não se esquece, fruto do argumento e do excelente trabalho de Diane Kruger, com a actriz a explanar a multitude de emoções que percorre a mente da personagem principal desta obra potente e intensa, que não tem papas na língua, é incapaz de gerar indiferença e conta com uma banda sonora pronta a realçar as sensações.

Título original: "Aus dem Nichts".
Título em inglês: "In the Fade". 
Título em Portugal: "Uma Mulher Não Chora".
Realizador:
Fatih Akin.
Argumento: Fatih Akin. 
Elenco: Diane Kruger, Numan Acar, Denis Moschitto, Johannes Krisch, Rafael Santana, Laurens Walter, Ulrich Tukur, Ulrich Brandhoff, Hanna Hilsdorf.

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