28 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "O Outro Lado do Paraíso"

 Num determinado momento de "O Outro Lado do Paraíso", Fernando (Davi Galdeano), o protagonista e narrador desta delicada obra cinematográfica realizada por André Ristum, salienta o seguinte: "O sentido da vida pode não ser alcançar um sonho, mas apenas lutar por ele com todas as forças. E é essa busca incessante que nos alimenta, enquanto nos dura a vida". O comentário traduz praticamente na perfeição a mensagem de "O Outro Lado do Paraíso" e aquilo que move alguns dos personagens. Um desses personagens é Antonio Trindade (Eduardo Moscovis), o progenitor de Fernando, um indivíduo idealista e sonhador, que almeja não só conseguir dar uma vida melhor à sua esposa e aos seus três filhos, mas também encontrar um local quase perfeito para habitar com o seu núcleo familiar. Esse desejo parece concretizar-se quando, após receber um sinal quase bíblico, Antonio decide sair do interior de Minas para Brasília, um destino que parecia ser praticamente perfeito para construir o sonho de Evilath (não faltam referências bíblicas ao longo do filme, tais como a luta utópica por encontrar o país de Evilath e a figura de uma cobra que aparece em dois momentos fulcrais da vida de Antonio), ou o enredo não tivesse os primórdios da década de 60 como pano de fundo, ou seja, poucos anos depois da fundação desta cidade que ainda está a dar os seus primeiros passos. O contexto histórico fervilhante, tão propício a sonhos como a desilusões, pronto a despertar sentimentos exacerbados e uma multitude de sentimentos, raramente é esquecido ao longo do filme, bem como as referências religiosas e políticas, com André Ristum a deixar bem explícito que as contingências deste período mexeram e muito com o quotidiano da família de Fernando. Diga-se que André Ristum efectua um trabalho competente quer na procura de transmitir a atmosfera da época, quer na exposição dos acontecimentos históricos (sempre com algumas liberdades à mistura), com o realizador a utilizar assertivamente elementos como os jornais, a televisão e a rádio para exibir episódios que ocorreram no seio deste período de tempo conturbado da História do Brasil. Estes elementos surgem como um meio ágil e prático de fornecer informação sobre o contexto histórico, com André Ristum a recorrer muitas das vezes a materiais de arquivo, algo que permite evitar diálogos excessivamente expositivos sobre esta conjuntura política intensa. Estamos na antevéspera do Golpe de Estado de 1964, no Brasil, que culminou na destituição de João Goulart (Jango), o Presidente democraticamente eleito (entrou no cargo após a renúncia de Jânio Quadros, algo exposto em formato de animação nos créditos iniciais do filme), com "O Outro Lado do Paraíso" a transmitir as paixões e ódios despertadas por esta figura quase lendária da política brasileira, bem como o fervilhar de emoções que pontuou este período.

27 fevereiro 2017

Entrevista a José Pedro Lopes sobre "A Floresta das Almas Perdidas"

 Pontuado por uma realização segura de José Pedro Lopes e um desempenho digno de atenção por parte de Daniela Love, "A Floresta das Almas Perdidas" mescla assertivamente elementos de terror (inclusive conta com uma faceta slasher), drama familiar e até humor negro, tendo tudo para ganhar o estatuto de filme de culto. "A Floresta das Almas Perdidas", um exemplo raro de uma longa-metragem de terror "made in Portugal", teve a sua estreia na edição de 2017 do Fantasporto e prepara-se para ser exibido pela primeira vez em Lisboa na oitava edição do FESTin. O Rick's Cinema aproveitou o facto de "A Floresta das Almas Perdidas" estar quase a chegar ao FESTin (dia 5 de Março, às 17h30, no Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira) para entrevistar online José Pedro Lopes. O realizador demonstrou uma enorme disponibilidade para responder às questões, algo que podem comprovar já de seguida. 


Rick's Cinema - Uma das informações que encontramos no site da Anexo 82 é que os elementos da produtora resolvem os problemas como o Macgyver ("Resolvemos problemas como o Macgyver"). Produzir, realizar e escrever o argumento de uma longa-metragem independente de terror, ainda por cima em Portugal, envolve ter o talento, a criatividade e a capacidade de improviso de Macgyver?

José Pedro Lopes: Sim, mas com uma grande diferença em relação ao Macgyver que é que não conseguíamos fazer o filme sozinhos. Contamos com muitos apoios na sua produção de gente que trabalhou connosco, ou nos apoiou logisticamente, e inclusive um apoio financeiro da Fundação GDA. "A Floresta das Almas Perdidas" é uma produção pequena, e foi preciso planear tudo muito bem para conseguirmos fazer os 25 dias de rodagem (que se espalharam ao longo de dois anos) e que envolviam ir filmar a locais muito complicados como o cimo do Caramulo ou o Lago Glaciar de Sanabria.


RC: O José Pedro Lopes já realizou e produziu diversas curtas-metragens, algumas no registo do terror. É mais fácil produzir e realizar um filme de terror em Portugal ou conseguir convencer o público a assistir ao mesmo, ou encontrar meios de distribuição e exibição? 

JPL: Creio que Portugal não aposta no cinema de género.
  Há muita gente que gosta e o faz (basta ver todas as curtas fantásticas de género que surgem no Fantas e no Motelx todos os anos). Mas financiar um filme neste registo é muito difícil. E distribuí-lo também, porque o público de cinema é escasso e é bastante céptico face a cinema nacional e ao de género.
  No Fantas este ano tens uma retrospectiva de cinema de género argentino, e podes encontrar muitos filmes de género na América Latina, uns com mais sucesso que outros, e alguns a chegarem até às portas de Hollywood. Mas na América Latina há abertura a financiar cinema de género e a apoia-la. Muitos vem do fórum Blood Window da Ventana Sur. Outros são financiados por institutos de cinema. No Reino Unido ou no Canadá, mesmo na Europa de Leste, todos os anos filmes apoiados financeiramente por institutos são de género.
 O cinema português tem muitos filmes bons, e imensa gente com talento. Aliás, viu-se isso na Berlinale. Inclusive a querer fazer fantástico. Mas o cinema de género e de terror, em Portugal, não tem a oportunidade que merece.


RC: No "É a Vida Alvim", o José Pedro Lopes salientou que na Ásia os cineastas não são tão presos a realizar o filme num único registo. Podemos dizer que essa mistura de registos do cinema asiático foi uma das inspirações para "A Floresta das Almas Perdidas", onde encontramos uma mescla de terror, drama e salpicos de humor negro?

JPL: Definitivamente. "A Floresta" começa como sendo uma história de amizade, com algumas discussões bem portuguesas e divertidas. Mas é uma história sobe perda, e sobre uma família destruída. Mas tudo isto é abruptamente assombrado por elementos de terror que tomam controlo do filme. E é um filme com uma mensagem, sobre a sociedade actual. Parece um absurdo quando escrito mas quem vê o filme fica surpreendido pela extensa agenda narrativa e temática que tem.
 É sem dúvida uma mescla. Muito terror, e muito muito drama, mas também bastante humor lusitano.

Entrevista a Roni Nunes sobre a oitava edição do FESTin

 Lá diz o ditado popular, "a curiosidade matou o gato". No meu caso, a curiosidade sobre a oitava edição do FESTin conduziu-me a enviar treze questões a Roni Nunes, um dos programadores do certame. Ganha o blog com a disponibilidade do Roni Nunes para responder a esta imensidão de questões (a ideia inicial era fazer algo como "oito perguntas sobre a oitava edição do FESTin", mas, para não variar, falhei o objectivo), bem como aqueles que estiverem interessados em ler um pouco mais sobre este recomendável evento que dignifica e valoriza o cinema em língua portuguesa (vale a pena realçar que esta edição conta com exemplares bem interessantes do cinema brasileiro como "Comeback", "BR716", "Big Jato" e "Curumim", bem como obras cinematográficas nacionais como "A Floresta das Almas Perdidas" que pode, com o tempo, ganhar o estatuto de "filme de culto"). Ao longo da entrevista, Roni Nunes aborda questões relacionadas com a selecção das obras cinematográficas, a parceria com o FILMin, a retrospectiva dedicada a Margarida Gil, o novo formato da FESTinha, entre outros assuntos. Vale ainda a pena salientar que a oitava edição do FESTin começa a 1 de Março e decorre até ao dia 8 de Março.


Rick's Cinema - O ano passado salientaste que "trazer propostas ousadas é um dever de um bom festival". A ousadia foi um dos motes para a selecção dos filmes que se encontram presentes na competição de longas-metragens? Quais foram as principais linhas definidoras para a selecção dos filmes da competição de longas-metragens? 

 Roni Nunes: A competição do FESTin tem feito uma percetível viragem no sentido de se tornar mais autoral, ousada e experimental – sem que o festival como um todo, no entanto, abra mão de outras das suas características, como a mostra de cinema mais acessível e o seu vínculo social. A ideia não é trazer filmes para nichos, mas sim obras que comuniquem com o público – mesmo tendo preocupações estilísticas e uma estética apurada.


RC: Fiquei com a sensação que a Competição de Longas-Metragens procura acima de tudo desafiar e estimular o espectador ao invés de se limitar a ir ao encontro do mesmo com conteúdos que são tão fáceis de digerir como de esquecer. Foi com esse intuito, para além das qualidades que observaram nos filmes, que seleccionaram obras como "BR 716", "Big Jato", "Comeback", "Animal Político", "Quase Memória"? 

RN: Posso afirmar sem grande modéstia que a competição do FESTin este ano, como também já o foi a do ano passado, é a melhor mostra de cinema brasileiro de Portugal. Como disse, ao mesmo tempo são trabalhos bastante acessíveis – como “BR 716”, “Big Jato” ou “Comeback”.


RC: A competição de longas-metragens mescla cineastas experientes como Domingos de Oliveira, Ruy Guerra e Cláudio Assis com estreantes na realização de longas-metragens, tais como Erico Rassi, Tião e José Pedro Lopes. Esta mescla de experiência e "sangue novo" foi algo propositado na elaboração da programação? O que nos podes dizer sobre as longas-metragens dos cineastas mencionados?

RN: Mesmo entre os primeiros que citas há uma diferença de gerações. O Ruy Guerra é um ícone do Cinema Novo, o Cláudio Assis é um génio do século XXI. Não foi algo pensado conscientemente, mas ainda bem que notou isso. É uma prova da vitalidade destas cinematografias. Em relação aos filmes, “Quase Memória” é uma meditação algo nostálgica sobre o passado, com um vai-e-vem na história bastante original – enquanto “BR 716” também vai ao passado mas, neste caso, através de uma leitura a “nouvelle vague” dos anos 60, as suas grandes esperanças e desilusões. Cláudio Assis e Tião são de Pernambuco, um dos grandes impulsionadores do cinema brasileiro do século XXI. Ambos são provocadores e filosóficos – com “Animal Político” recorrendo ao surrealismo e “Big Jato” ao artifício de dois irmãos, ambos vividos pelo magnífico Matheus Natchergaele, para fazer os seus “statements”. Érico Rassi vem das curtas-metragens e o seu primeiro filme é bastante seguro e tem outro intérprete genial, Nélson Xavier, enquanto a obra de José Pedro Lopes segue uma tendência muito contemporânea – a fusão de terror com arthouse.

21 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Matrimonio all'italiana" (Matrimónio à Italiana)

 Depois de um "divórcio à italiana" com a anuência de Pietro Germi, Marcello Mastroianni protagoniza um "casamento à italiana" com a bênção de Vittorio De Sica. O humor e a tragédia estão bem presentes em ambos os filmes, bem como os comentários de foro social e o talento de Marcello Mastroianni para o humor e a sua capacidade para desfazer e satirizar a sua faceta de galã. Se em "Divorzio all'italiana", Ferdinando Cefalù, um indivíduo mulherengo, tentou ser traído pela esposa de forma a aproveitar a lei e conseguir uma pena mais leve por eliminar a cara metade, já Domenico (Marcello Mastroianni), um dos protagonistas de "Matrimonio all'italiana", apresenta uma personalidade igualmente galanteadora e um bigodinho saliente, enquanto procura não contrair matrimónio com Filumena (Sophia Loren), uma mulher de uma beleza impressionante e um carácter forte. Vittorio De Sica ziguezagueia no tempo para nos apresentar aos meandros desta relação amorosa conturbada, onde o desejo é mútuo, embora o amor não seja demonstrado pela parte masculina, com Domenico, um homem de negócios bem sucedido e endinheirado, a tardar em reconhecer Filumena de forma oficial. Os enganos entre Filumena e Domenico são imensos, com ambos a cometerem actos dos quais se arrependem, apesar de não conseguirem controlar os ímpetos, com Marcello Mastroianni e Sophia Loren a expressarem assertivamente a forma bem viva e muito própria como os personagens que interpretam expõem os sentimentos. Domenico é um indivíduo abastado e egocêntrico, que gosta de se vestir bem, fumar, cantar e desfrutar dos prazeres da vida. Filumena tem uma estampa vistosa, um olhar felino e uma personalidade mais complexa do que inicialmente pode dar a entender, com a personagem a apresentar uma evolução notória ao longo do enredo. De Sica joga com as convenções dos melodramas, com "Matrimonio all'italiana" a entrar pelos meandros deste género ao mesmo tempo que rejeita os seus ingredientes e assume a sua faceta de Commedia all'italiana. O humor e a tragédia reúnem-se, os comentários de foro social são notórios, o desejo sexual e as emoções são expostos de forma muito viva, embora não faltem momentos sentimentalmente poderosos, com "Matrimonio all'italiana" a não descurar algo de essencial, ou seja, a necessidade de existirem personagens fortes com os quais o espectador se importa e procura seguir, mesmo quando os protagonistas deixam a razão de lado para cederem ao sentimento ou ao seu ego. No início do filme, Domenico é chamado de urgência por Alfredo (Aldo Puglisi), o seu empregado, devido a Filumena, a mulher com quem mantém uma relação de longa data, estar gravemente doente. O momento é pontuado por algum humor, ou Domenico não estivesse acompanhado por Diana, a sua amante e empregada da caixa da sua pastelaria. Domenico não perde tempo e desloca-se até à sua habitação, onde ouve o médico a exibir uma preocupação notória em relação ao estado de saúde de Filumena. A face desta mulher encontra-se lívida e o seu olhar mortiço, com Domenico a parecer relativamente preocupado quando Filumena lhe pede para chamar um padre. A câmara foca o rosto de Domenico, com um close-up extremo a surgir como um meio para Vittorio De Sica expor que o protagonista entrou num momento introspectivo no qual se recorda do passado, nomeadamente, dos primeiros encontros com Filumena.

18 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "La ciociara" (Duas Mulheres)

 Cesira (Sophia Loren), a protagonista de "La ciociara", procura proteger Rosetta (Eleonora Brown), a sua filha, uma jovem de doze anos de idade, dos horrores da Guerra, um desiderato que conhece uma série de reveses e um episódio cruel e desolador que mexe com as emoções dos espectadores e dos personagens. "La ciociara" demonstra paradigmaticamente que Vittorio De Sica é um cineasta capaz de valorizar a dimensão humana dos personagens, enquanto aborda como poucos o contexto que rodeia as protagonistas e a forma como este influencia o quotidiano das mesmas. O cineasta contribui ainda para que os actores e actrizes construam figuras dotadas de dimensão, com Sophia Loren, Eleonora Brown e Jean-Paul Belmondo a terem interpretações dignas de atenção, enquanto Vittorio De Sica emociona o espectador com os acontecimentos que rodeiam os envolvidos, um pouco à imagem daquilo que tinha efectuado em "Sciuscià", "Ladri di biciclette", "Umberto D.", entre outras obras cinematográficas. O filme a ser alvo desta espécie de resenha crítica marca também mais uma feliz colaboração entre Vittorio De Sica e o argumentista Cesare Zavattini (inspirado no livro "La ciociara" de Alberto Moravia), com a dupla a contribuir para um retrato bem vivo sobre a forma como alguns italianos viveram e sentiram a II Guerra Mundial (o enredo decorre no Verão de 1943), algo conseguido através do olhar de Cesira e Rosetta, duas das personagens mais marcantes de "La ciociara". A presença das tropas alemãs contamina o território, bem como os bombardeamentos e os disparos, com a chegada de militares dos EUA e das tropas aliadas a ser sentida, com muitos destes elementos a contribuírem para a hostilidade que Cesira e Rosetta sentem nos territórios por onde se deslocam. Os sentimentos ficam muitas das vezes à flor da pele, algo notório nos momentos iniciais do filme, quando um bombardeamento aliado tem a cidade de Roma como destino. É nesse contexto intrincado que Cesira se vê obrigada a fechar temporariamente o seu estabelecimento comercial, enquanto a filha desmaia e o efeito das bombas é sentido, com o chão a estremecer, os objectos a caírem e o perigo a rondar os elementos que se encontram no interior deste cenário. Atormentada pelas consequências da II Guerra Mundial, Cesira prefere não correr riscos e partir para Sant'Eufemia, a sua terra natal, uma região rural e montanhosa, afastada dos grandes espaços citadinos, indo acompanhada por Rosetta. Sophia Loren transmite a personalidade forte, desenrascada e independente de Cesira, uma viúva que procura proteger a filha a todo o custo. Loren explana o seu talento, carisma e beleza como esta viúva de olhar felino que conta com um grande sentido prático, com a actriz a possuir ainda uma dinâmica convincente com Eleonora Brown, a intérprete de Rosetta. Eleonora Brown compõe uma personagem tímida, relativamente inocente, frágil, estudiosa e religiosa, que é confrontada com as agruras da guerra e a crueldade humana. A viagem destas duas personagens até Sant'Eufemia é marcada por alguns contratempos e um conjunto de episódios que deixam antever as dificuldades com que Cesira e Rosetta se deparam ao longo do enredo de "La ciociara", com ambas a manterem o desejo de regressarem brevemente a Roma. Cesira deixa o seu estabelecimento à guarda de Giovanni, um indivíduo casado, pai de dois filhos, que mantém um affair com a protagonista. O calor dos sentimentos que Giovanni e Cesira partilham é quase como uma pequena gota no meio de um oceano de incerteza e violência, onde as acções dos militares são sentidas e a morte paira por qualquer lugar, mesmo em espaços aparentemente calmos e idílicos como Sant'Eufemia

14 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Ladri di biciclette" (Ladrões de Bicicletas)

Vittorio De Sica aproveita os momentos iniciais de "Ladri di biciclette" para colocar o espectador diante de alguns indivíduos que se encontram nas imediações de um centro de emprego, a aguardarem por notícias relacionadas com ofertas de trabalho, embora poucos tenham a sorte de serem chamados, algo que reflecte a elevada taxa de desemprego da época, nomeadamente, no período após a II Guerra Mundial. É um contexto conturbado que marca não só o enredo de "Ladri di biciclette", mas também de outras longas-metragens de Vittorio de Sica, tais como "Sciuscià" e "Umberto D", nas quais o realizador e argumentista aborda temáticas relacionadas com a crise financeira e de valores, bem como a pobreza que assola o quotidiano de alguns personagens. No caso dos três filmes mencionados, todos exemplares recomendáveis do neo-realismo, De Sica apresenta um enorme humanismo quer na abordagem das temáticas, quer nos diálogos, quer na construção dos personagens, parecendo praticamente impossível permanecer indiferente em relação aos universos narrativos criados pelo realizador (todos contam com a presença inestimável de Cesare Zavattini na escrita do argumento). Uma das figuras centrais de "Ladri di biciclette" é Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um pai de família que é chamado no início do filme para trabalhar a colar cartazes publicitários. Um sentimento agridoce toma de assalto a mente de Ricci: está feliz por conseguir um trabalho que lhe permite voltar a pagar as contas e viver sem o espectro da miséria, mas a tristeza e a dúvida logo tomam conta da sua mente quando percebe que necessita de uma bicicleta para poder corresponder às necessidades do emprego. Esta situação conduz Maria (Lianella Carell), a esposa do protagonista, a penhorar seis lençóis, um acto que espelha quer a união deste núcleo familiar, quer a condição financeira deplorável do casal. Vale a pena salientar que Maria e Antonio não são os únicos que se encontram a atravessar uma fase marcada por dificuldades materiais e financeiras, algo que se torna paradigmaticamente notório quando o empregado da casa de penhores decide guardar os lençóis deixados pela primeira. O armazém da casa de penhores encontra-se apinhado de lençóis, algo que obriga o empregado a ter de subir bem alto para poder encaixar as peças de roupa que se amontoam neste espaço, com esta situação a evidenciar paradigmaticamente que diversas famílias se desfizeram destes bens, naquela que é uma das cenas assustadoramente marcantes de "Ladri di biciclette".

09 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "L'oro di Napoli" (O Ouro de Nápoles)

  Retrato bem vivo da cidade de Nápoles e das suas gentes, "L'oro di Napoli" surge como uma espécie de visita guiada a Nápoles, conduzida com acerto por Vittorio De Sica, com o cineasta a expor uma visão muito própria das especificidades e contradições deste território, quase como se estivéssemos perante um espaço à parte, onde tudo é sentido e vivido de forma diferente e especial, com mais intensidade e emoção, enquanto ficamos diante dos napolitanos, bem como das ruas, estradas, lojas, cemitérios, igrejas e edifícios deste local. Nápoles é a grande protagonista do filme, com esta cidade a aparecer como o ponto de união entre os seis episódios de "L'oro di Napoli", com cada capítulo a contar com histórias e intérpretes distintos. A ficção invade o território real de Nápoles, com Vittorio De Sica a filmar imensas vezes nos espaços desta cidade, enquanto aproveita as singularidades da mesma ao serviço do enredo. O humor está presente ao longo de alguns episódios do filme, mas também o drama e a tragédia, com cada capítulo a deixar o espectador na presença de pequenos fragmentos das especificidades deste território. Entre casamentos fadados à desgraça, traições, revoltas contra símbolos da opressão, um indivíduo que vende sabedoria e outro que se encontra caído em desgraça, "L'oro di Napoli" coloca o espectador perante um mosaico de personagens muito particular, com cada capítulo a contar com intérpretes de peso como protagonistas. Vittorio De Sica interpreta o protagonista de um dos episódios do filme, nomeadamente, o quarto ("I giocatori"), com o cineasta a dar vida a Prospero, um conde caído em desgraça devido ao vicio pelo jogo. Proibido pela esposa de jogar, financeiramente exaurido, sem conseguir que os empregados lhe emprestem um cêntimo, Prospero limita-se a jogar com Gennarino (Pierino Bilancioni), um jovem rapaz que é filho do porteiro. Vittorio De Sica compõe uma figura que tanto tem de trágica como de cómica, ou Prospero não partilhasse o vício pelo jogo com o cineasta e intérprete. O cineasta transpõe um dos vícios que marcou a sua vida para o personagem que interpreta, enquanto Prospero desperta sensações mistas e contraditórias no interior da alma do espectador. Por um lado é impossível não soltar um sorriso quando encontramos Prospero a exibir um desespero notório por perder constantemente para Gennarino, um jovem que despreza os discursos e atitudes do conde, por outro é impossível não perceber que estamos diante de uma figura trágica que se deixou consumir pelos vícios. Vittorio De Sica compõe um personagem que mantém uma postura altiva, embora pouco tenha para apostar, com esta figura trágica a permitir que o actor e cineasta exiba mais uma vez o seu carisma e talento para a representação. Prospero gosta de apostar mas não tem jeito, nem sorte, nem cabeça fria, com um rapazinho a conseguir humilhá-lo sem grande esforço, enquanto "L'oro di Napoli" exibe um problema bem real, nomeadamente, o vício pelo jogo, ainda que inserido no interior da realidade napolitana.

06 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Umberto D." (1952)

 Drama comovente, capaz de deixar marca, despertar angústia e uma enorme revolta, "Umberto D." apresenta uma actualidade assustadora, enquanto coloca o espectador diante da capacidade de Vittorio De Sica em abordar temáticas socialmente relevantes e despertar emoções bem fortes. As reformas baixas, a incapacidade da sociedade em integrar uma parte significativa da população idosa e as parcas condições de vida de alguns cidadãos de mais idade surgem como problemáticas que marcam o enredo de "Umberto D." e continuam na ordem do dia. "Umberto D." tem como pano de fundo o território de Itália, ainda em recuperação, após a II Guerra Mundial, um contexto que marcou outras obras cinematográficas realizadas por Vittorio De Sica, tais como "Sciuscià" e "Ladri di biciclette" (estas duas últimas no período "pré-Milagre Económico Italiano", enquanto a obra cinematográfica que é alvo desta espécie de resenha acompanha o período da recuperação económica). As três obras cinematográficas mencionadas, todas realizadas por Vittorio De Sica, surgem como exemplares recomendáveis, memoráveis e arrebatadores do neo-realismo italiano, com "Umberto D." a contar com diversas características associadas a este movimento. Veja-se as filmagens nas ruas, com a cidade de Roma a surgir praticamente como uma personagem (Vittorio De Sica e G. R. Aldo, o director de fotografia, contribuem e muito para a transmissão da atmosfera deste espaço citadino e dos comportamentos das suas gentes), ou a abordagem de temáticas ligadas aos mais desfavorecidos ou que passam por dificuldades, ou os comentários de foro social (e político), ou a utilização de um elenco composto maioritariamente por actores e actrizes amadores ou desconhecidos. Carlo Battisti, o intérprete que dá vida ao protagonista de "Umberto D.", é um dos elementos amadores que integram o elenco do filme e são capazes de se transformarem no personagem que interpretam, com o actor a contribuir para a densidade deste reformado que procura manter a dignidade no interior de uma sociedade que parece incapaz de integrá-lo. Umberto D. Ferrari (Carlo Battisti) é um indivíduo vetusto, reformado, educado e bem intencionado, que se encontra a experienciar uma série de dificuldades financeiras, com Vittorio De Sica a abordar um caso particular para expor uma problemática mais lata. Quase sempre acompanhado por Flike, o seu simpático cachorro, Umberto representa alguns dos reformados que trabalharam uma vida inteira, embora pareçam ter sido esquecidos nesta fase crepuscular das suas vidas. A reforma não chega para Umberto pagar a renda (algo que o leva a acumular dívidas), os conhecidos afastam-se da sua pessoa, enquanto que as actividades diárias estão longe de preencherem a alma deste indivíduo, ou seja o quotidiano deste antigo funcionário do Ministério do Trabalho é pontuado por uma série de dificuldades e contratempos que apenas parecem ser contrastados com os momentos de alegria dados por Flike ou pela humanidade de Maria (Maria Pia Casilio), a empregada de Antonia (Lina Gennari), a sua senhoria. Se Maria é uma jovem terna, simples e extremamente prestável, já Antonia apresenta uma frieza indelével e uma altivez praticamente indesmentível, surgindo como uma das várias personagens que apresentam um comportamento hostil para com Umberto. Antonia pretende despejar Umberto a todo o custo, apesar dos esforços deste indivíduo em reunir a verba necessária para pagar as rendas em atraso, algo inerente ao facto do reformado apresentar uma ligação muito forte com o quarto onde habita há vinte anos, embora o seu pequeno cubículo esteja localizado numa espelunca que conta com uma praga de formigas e poucas condições.

01 fevereiro 2017

Resenha Crítica: "Sciuscià" (Vítimas da Tormenta)

 O destino é duro e inflexível para com os personagens principais de "Sciuscià", os jovens Giuseppe Filippucci (Rinaldo Smordoni) e Pasquale Maggi (Franco Interlenghi), dois rapazes que contam com uma amizade aparentemente inseparável, vivem em condições miseráveis e sonham adquirir um cavalo. É um sonho que parece saído de um conto de encantar, embora o quotidiano de Giuseppe e Pasquale esteja longe de contar com grandes pedaços de alegria, com o contexto que rodeia os dois personagens a afectar e muito o modo de vida dos petizes. Estamos em plena cidade de Roma no período após a Segunda Guerra Mundial, com Giuseppe e Pasquale a sentirem a destruição que afectou o território, a economia e a sociedade italiana, enquanto Vittorio De Sica realiza um drama neo-realista de excelência. "Sciuscià" partilha diversos elementos transversais a alguns filmes neo-realistas, tais como a utilização e aproveitamento dos cenários exteriores, filmagens em espaços interiores que não fazem parte dos estúdios (mesclados com cenas filmadas em estúdio), um elenco composto por actores e actrizes maioritariamente amadores ou desconhecidos, uma atenção latente aos desfavorecidos e ao drama daqueles que se encontram em situações extremas, os comentários de foro social, entre outros exemplos. É, também, um dos primeiros filmes de Vittorio De Sica a obter um reconhecimento considerável, sobretudo a nível internacional, com o cineasta a apresentar um retrato pungente sobre a vida de dois jovens engraxadores de sapatos que vivem em condições precárias e são obrigados a descurarem os estudos, tal como boa parte das crianças deste período. Essa necessidade das crianças órfãs ou de famílias desfavorecidas terem de trabalhar é exposta desde o início de "Sciuscià", quando encontramos os rapazes a dialogarem quase como se fossem adultos, apesar de manterem um tom relativamente infantil, enquanto laboram como engraxadores para ganharem a vida. Vittorio De Sica transporta-nos para o interior de uma cidade de Roma que se encontra ferida no seu orgulho, destruída na sua moral, marcada pela presença de soldados aliados, gentes depauperadas e negócios ilegais, com o cineasta a conseguir captar a atmosfera da época e transportá-la para o interior da mente e da alma do espectador. O cineasta incute ainda elementos de drama prisional e fuga da prisão a "Sciuscià", enquanto coloca a amizade da dupla de protagonistas à prova e desfere rudes golpes no estômago do espectador ao exibir como estes jovens são afectados por uma série de episódios desfavoráveis e um contexto arrasador. A amizade de Giuseppe e Pasquale sofre fissuras irreparáveis com o avançar da narrativa, enquanto os sonhos destes jovens se quebram diante de uma realidade difícil de combater. Estes dois rapazes trabalham como engraxadores, com Giuseppe a viver com a família, enquanto Pasquale é órfão, com a dupla a contar com parcas condições financeiras. Giuseppe ajuda financeiramente os seus familiares, tendo em Pasquale um amigo inseparável que dorme na sua casa. Pasquale é um pouco mais velho e experiente do que Giuseppe, com este último a encarar o amigo como uma espécie de mentor, com ambos a parecerem inseparáveis. Giuseppe conta ainda com uma forte amizade com Nannarella (Anna Pedoni), uma jovem delicada, que nutre sentimentos afectuosos pelo rapaz, embora ambos sejam separados a partir do momento em que o protagonista é detido.