02 dezembro 2017

Resenha Crítica: "Ah-ga-ssi" (A Criada)

 "Ah-ga-ssi" é um filme de enganos e seduções, que inebria, contagia, repele e ludibria. O desejo está sempre muito presente, algo notório nas dinâmicas do trio de protagonistas, com Park Chan-wook a partir de uma premissa aparentemente simples para criar uma obra cinematográfica dotada de mistério, erotismo, alguma complexidade e uma mescla de classe, vulgaridade e extravagância que potencia as peripécias que são apresentadas. A premissa é a seguinte: um vigarista pretende seduzir uma rica herdeira japonesa, tendo em vista a roubar-lhe a fortuna e interná-la num hospício. Ele é conhecido como "Conde Fujiwara" (Ha Jung-woo). Ela é Izumi Hideko (Kim Min-hee). A ajudar o protagonista está Sook-hee (Kim Tae-ri), uma jovem coreana que trabalha para um grupo de pequenos criminosos e farsantes, sendo contratada como criada de Hideko. As três partes distintas do enredo incidem acima de tudo sobre este trio, com Park Chan-wook a inserir dinamismo à estrutura narrativa desta memorável obra cinematográfica e às ligações deste grupo de personagens.

Não faltam perspectivas distintas dos acontecimentos, algo que traz algumas surpresas e contribui para dar a conhecer novas facetas e planos dos personagens, bem como uma série de flashbacks que entram regularmente em acção e permitem discernir informação fulcral. O trabalho de montagem contribui para este dinamismo, enquanto o trabalho de câmara adensa o mistério, a tensão e a sensação de inquietação que pontua os episódios. Observe-se o momento em que Sook-hee abre a porta dos aposentos de Kouzuki (Cho Jin-woong), o tio da herdeira, com a câmara a avançar em direcção deste último e de Hideko, num movimento que adensa o efeito de surpresa, enquanto a banda sonora potencia o mistério. Sook-hee logo é proibida de entrar nesta divisória, ou não estivéssemos no interior de uma habitação dotada de imensos segredos, alguns deles escabrosos. A habitação tem uma dimensão imponente, mescla um estilo inglês e japonês e conta com uma série de luxos, algo que reforça o estatuto social de Kouzuki, um indivíduo cheio de taras, que vende livros raros, muitos deles falsificados.

Cho Jin-woong é fundamental para Kouzuki funcionar na narrativa, com o intérprete a incutir um tom excêntrico, cruel, depravado e tarado a este indivíduo que pretende casar com a sobrinha. Note-se o momento em que Kouzuki tenta descobrir todos os detalhes sórdidos de um acto sexual, com a pormenorização excessiva dos diálogos que profere a realçar a sua faceta pervertida e o bom argumento que o actor tem à disposição. No entanto, os grandes destaques do elenco são Kim Min-hee, Kim Tae-ri e Ha Jung-woo, sobretudo as duas primeiras ao protagonizarem um conjunto de cenas memoráveis. Kim Tae-ri imprime uma mescla de inocência, infantilidade e malícia à personagem que interpreta, uma vigarista que aos poucos começa a formar uma relação de proximidade com Hideko. Já Kim Min-Hee insere um estilo inicialmente introvertido, frágil e perturbado a Hideko, até começar a revelar mais características desta mulher que conta com um passado conturbado e uma capacidade indelével para a sedução e a mentira. Por sua vez, Ha Jung-woo imprime uma postura traiçoeira a este conde coreano que finge ser japonês, com o seu personagem a procurar enganar tudo e todos.

Mais cedo ou mais tarde acabamos por ser surpreendidos por este trio, com a presença regular dos espelhos no interior da casa de Kouzuki a realçar a duplicidade que envolve as dinâmicas destes personagens e a relação dos mesmos com o espectador. Park Chan-wook delicia-nos com estas reviravoltas, enquanto cria um pedaço delirante de cinema. A violência é sentida, o sexo é encarado como um meio de libertação ou de exibição de poder, ou de consumação do desejo, o humor aparece nos lugares mais inesperados e a tensão é muitas das vezes palpável. O cineasta reúne peças aparentemente incompatíveis e transforma-as em algo que muito tem de seu, ou seja, pontuado pela irreverência, capacidade de provocar o choque, para além do já mencionado humor negro, enquanto extrai interpretações meritórias do elenco e desenvolve as dinâmicas entre os personagens. A química entre Kim Min-Hee e Kim Tae-ri é extremamente convincente, com ambas a protagonizarem alguns momentos emocionalmente intensos, com as personagens que interpretam a iniciarem uma relação que lhes permite extravasarem o desejo, descobrirem uma imensidão de sentimentos e libertarem-se das amarras masculinas

 Este é também um filme sobre personagens que anseiam libertar-se, seja um vigarista que pretende manter um estilo de vida requintado e fugir à pobreza, ou duas mulheres que procuram alcançar a felicidade e desfrutar dos prazeres sexuais. Para isso têm de cometer alguns actos nem sempre recomendáveis, enquanto se envolvem em jogos dotados de erotismo, malícia e diversos enganos, sempre tendo como pano de fundo o contexto da Coreia durante a ocupação japonesa. O guarda-roupa e a decoração dos cenários realçam as características do período em que se desenrola o enredo, para além de exacerbarem alguns traços da personalidade destes personagens. Note-se o exemplo já mencionado dos espelhos para enfatizar a duplicidade, ou as roupas que as duas protagonistas usam num momento de fuga que permite exprimir os cuidados que estas colocaram na execução do plano. Também a iluminação é utilizada com aprumo ao serviço do enredo, ora para realçar as características íntimas de um momento entre Hideko e Sook-hee no quarto de um meio de transporte, ou para exacerbar a faceta lúgubre da presença de dois personagens numa sala onde são cometidos actos pouco recomendáveis, entre outros exemplos.

Entre o erotismo e a violência, o humor e o romance, os enganos e os sentimentos bem reais, situações dramáticas e episódios chocantes, "Ah-ga-ssi" surge como uma obra marcante, pontuada por personagens peculiares, uma decoração refinada dos cenários, planos compostos com primor, uma dose de saudável loucura e imensa criatividade.

Título original: Ah-ga-ssi.
Título em Portugal: "A Criada".
Realizador: Park Chan-wook.
Argumento: Park Chan-wook e Chung Seo-kyung (tendo como base o livro "Fingersmith" de Sarah Waters).
Elenco: Kim Min-hee, Kim Tae-ri, Ha Jung-woo, Cho Jin-woong.

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