02 outubro 2017

Resenha Crítica: "Lady Macbeth" (2016)

 Frieza e distância. Estes são dois ingredientes essenciais de "Lady Macbeth", a primeira longa-metragem realizada por William Oldroyd. É um drama de época de fino recorte, propositadamente frio e intrigante, que nos deixa diante de uma personagem principal incapaz de despertar simpatia ou empatia. Parece frágil e indefesa, mas o desejo de libertação e a busca pelo prazer contribuem para que protagonize uma série de atrocidades e solte o seu lado mais negro. A morte aproxima-se do seu quotidiano e do enredo, enquanto somos surpreendidos com os actos da protagonista, sobretudo a partir do momento em que o libido dilacera a razão. Essa protagonista é Katherine (Florence Pugh), uma jovem que se encontra presa a um casamento de conveniência e às convenções de uma sociedade machista e conservadora. 

Estamos na Inglaterra rural, em 1865, com Katherine a encontrar-se casada com Alexander (Paul Hilton), um indivíduo com o dobro da sua idade, que a trata praticamente como mercadoria. Boris (Christopher Fairbank), o pai de Alexander, também está longe de exibir alguma simpatia ou qualquer pingo de humanidade para com a nora. Quando Alexander parte em negócios, Katherine fica sozinha com as suas criadas, o sogro e uma série de funcionários que cuidam da vasta propriedade do esposo, entre os quais Sebastian (Cosmo Jarvis), um cavalariço que desperta o desejo sexual da protagonista. Dialogam pouco, mas o desejo é mútuo, com ambos a embrenharem-se numa relação que adquire contornos obsessivos e negros. O despertar sexual de Katherine aparece acompanhado pela morte, com a propriedade de Alexander a surgir como o palco de uma série de episódios hediondos.  

A acompanhar diversos episódios está Anna (Naomi Ackie), a criada de Katherine, uma mulher que é tratada quase como escrava e de forma desumana, seja pelos seus superiores ou pela sociedade. Naomi Ackie tem um desempenho marcado pela contenção, pelos longos silêncios e pela competência, embora o grande destaque de "Lady Macbeth" seja Florence Pugh. A actriz incute um tom aparentemente angelical e frágil a Katherine, pelo menos até começarmos a conhecer outra faceta desta mulher. O seu sorriso ou seu riso significa um desafio, um transgredir das regras apertadas que lhe colocam. Tudo e todos querem colocar-lhe regras, aprisioná-la e deter os seus instintos, embora estes se comecem a soltar de forma gradual. Oldroyd não a transforma num monstro, nem numa vítima, com o cineasta a preferir algo mais intrincado e escorregadio, que escapa às catalogações mais fáceis, embora também não fuja totalmente das mesmas.

Cosmo Jarvis interpreta com acerto o símbolo do desejo de Katherine, com o actor a compor um personagem capaz de cometer uma série de actos desagradáveis. Diga-se que Sebastian, Katherine, Boris e Alexander estão longe de despertar simpatia ou empatia, com todos a cometerem actos reprováveis e a desafiarem a nossa atenção. Este é um dos grandes trunfos de "Lady Macbeth", nomeadamente, a sua capacidade de compelir-nos a seguir alguns dos seus personagens sem que para isso tenhamos de sentir uma afinidade especial com os mesmos. Outros méritos merecem ser realçados, tais como o cuidado evidenciado no desenvolvimento das peculiares relações destes personagens, ou a escolha do guarda-roupa (pronto a exacerbar alguns traços da personalidade destas figuras), ou a decoração dos cenários (propositadamente desprovidos de elementos que proporcionem escapismo à protagonista, algo que adensa as rotinas entediantes desta mulher), ou a composição dos planos. 

A simetria marca alguns dos planos, enquanto ficamos diante de uma alternância entre uma fixidez da câmara e movimentos intensos. Para o primeiro exemplo temos os planos em que Katherine se encontra sentada ou deitada no sofá, com a sua alma rebelde a contrastar com a rigidez do meio que a rodeia. Para o segundo caso contamos com algumas cenas filmadas quer nos espaços exteriores, quer nos interiores, seja um um assassinato, ou um passeio de Katherine para despertar a atenção de Jarvis. Diga-se que a relação destes dois personagens é desenvolvida com acerto, com ambos a terem no sexo um meio de extravasarem os sentimentos e libertarem-se dos grilhões impostos pela sociedade. No final, a frieza da morte sobrepõe-se ao calor do desejo, as traições acumulam-se e as mentiras assumem uma crueldade extrema, enquanto o título desta longa-metragem ganha um enorme sentido, com Pugh a compor uma personagem simultaneamente manipuladora, fria, frágil, sedutora, ou seja, complexa, naquela que é uma estreia bastante recomendável de Oldroyd na realização de longas-metragens. 

Título original: "Lady Macbeth". 
Realizador: William Oldroyd. 
Argumento: Alice Birch (tendo como base o livro "Lady Macbeth of Mtsensk" de Nikolai Leskov).
Elenco: Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Paul Hilton, Christopher Fairbank, Naomi Ackie.

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