16 outubro 2017

Crítica: "Zombillénium" (2017)

 É uma enorme vantagem visionar um filme de animação numa sessão com crianças e pré-adolescentes, sobretudo quando a obra em questão é francamente direccionada para esta faixa etária, ainda que com imensos piscares de olho aos adultos. A vantagem é óbvia: as reacções do público são espontâneas e sinceras. Os risos surgiram em diversas ocasiões e um "bué da fixe" por parte de uns petizes no final da sessão assinalaram algo evidente: "Zombillénium" é um filme deveras simpático. Diga-se que essa simpatia é conquistada devido à criatividade e competência dos envolvidos. Os temas são desenvolvidos com simplicidade e sinceridade, sejam estes relacionados com a paternidade, a igualdade, a tolerância, o luto, ou os direitos dos trabalhadores, enquanto os personagens contam com personalidades e fisionomias que prendem facilmente a atenção, com Arthur de Pins e Alexis Ducord, a dupla de realizadores, a criarem um universo narrativo convincente.

 O título remete para um parque de diversões que conta com vampiros, lobisomens, bruxas, esqueletos, zombies e afins como trabalhadores, com os primeiros a estarem no topo da hierarquia, enquanto os últimos estão na parte inferior da pirâmide social deste espaço gerido por Francis. Este é um vampiro sensato, que responde directamente ao Diabo e encara o parque como um meio essencial para manter as diversas criaturas afastadas do Inferno e salvaguardar os zombies. Quando Hector, um inspector rigoroso, viúvo, tenta fechar o parque, Francis não tem outra alternativa a não ser morder o pescoço deste indivíduo. Por sua vez, um lobisomem também morde Hector, algo que conduz o protagonista a ficar com a forma de um demónio semelhante a Hellboy e a ser obrigado a trabalhar no parque de diversões, embora ainda tente escapulir-se, pois Lucie, a sua filha, ficou orfã. A jovem sofre com a perda do pai, ao passo que Hector tem de se adaptar às dinâmicas do parque, forma amizades e rivalidades e tenta ajudar a salvar este espaço de uma crise financeira.

Entre os rivais de Hector encontra-se Steven, um vampiro cheio de purpurina, vaidoso e egocêntrico, que parece um cruzamento entre Edward da saga "Twilight" e os irmãos Salvatore de "The Vampire Diaries". No parque encontramos ainda a presença de elementos como Gretchen, uma bruxa sarcástica, recheada de tatuagens e personalidade, que inicialmente tem de tomar conta do protagonista, com quem aos poucos inicia uma relação de proximidade. Também Sirius, um esqueleto sindicalista, forma amizade com o personagem principal, enquanto somos colocados perante uma série de episódios dotados de humor, aventura e emoção, quase todos protagonizados por estas figuras que parecem saídas dos filmes de terror de série b.

As relações entre os personagens são bem desenvolvidas, enquanto que os episódios que estes protagonizam tanto servem os propósitos do enredo como para "encher o olho". Note-se uma fuga protagonizada por Hector e Gretchen, com a publicidade à descarada ao Mini Cooper a ser sentida, tal como o ritmo e energia deste episódio, ou um concerto que envolve estes dois personagens. Temos ainda uma paródia a "Thriller" de Michael Jackson, bem como um número considerável de situações que permitem aproveitar com acerto o parque de diversões. É um espaço dotado de comboios-fantasma, uma montanha-russa, quiosques de algodão doce, carroceis, tudo tendo os mortos-vivos no seu cerne, enquanto estes procuram assustar os humanos. Pelo meio não falta um apelo ao sentimentalismo, sobretudo quando o assunto envolve Hector e Lucie, algo que é sentido, ou não estivéssemos perante dois personagens que despertam empatia.

Ao longo do filme são ainda abordadas temáticas relacionadas com o capitalismo selvagem, a intolerância, as assimetrias sociais, as lutas dos trabalhadores, a crise financeira, entre outras que muito dizem aos adultos e chegam aos mais novos a partir dos acontecimentos protagonizados por estes monstros dotados de humanidade. É certo que uma ou outra situação é demasiado previsível, tal como Hector redescobrir o seu "lado mais humano" quando se transforma num monstro, mas também estaríamos a mentir se disséssemos que os lugares-comuns são mal utilizados. Se o parque do título conhece uma crise, algo que leva Hector a tentar ajudar os seus novos companheiros, já "Zombillénium" surge como um filme de animação dotado das doses certas de humor, sentimento, aventura e uma simplicidade muito própria de quem sabe as suas principais virtudes e limitações.

Título original: "Zombillénium".
Realizadores: Arthur de Pins e Alexis Ducord
Argumento: Arthur de Pins e Alexis Ducord (inspirado na banda desenhada homónima do primeiro).
Elenco vocal: Emmanuel Curtil (Hector), Alain Choquet (Francis), Kelly Marot (Gretchen), Alexis Tomassian (Steven), Mathieu Monnaert (Sirius).

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