11 outubro 2017

Crítica: "Kiss and Cry" (2017)

 Em "Kiss and Cry", Sarah Bramms interpreta uma personagem inspirada em si própria, nomeadamente, Sarah, uma jovem de quinze anos de idade, que lida com as expectativas elevadas da sua mãe (Dinara Drukarova), os desejos e inquietações típicos da adolescência e a rigidez das regras inerentes à patinagem artística. "Kiss and Cry" aborda estas temáticas de forma simples e eficaz, sem se perder em demasia ou entrar por caminhos escorregadios, sempre num tom quase documental. É um exemplar competente da chamada docuficção, com Chloé Mahieu e Lila Pinell, as realizadoras desta longa-metragem, a fazerem com que a ficção invada a realidade e vice-versa, para além de contarem com uma série de intérpretes não profissionais a dar vida a versões de si próprios. 

Entre esses elementos encontra-se Xavier Dias a interpretar um treinador rígido, bastante ríspido nas expressões que utiliza e apaixonado pela patinagem no gelo. Também Ilana Bramms, irmã de Sarah na vida real, interpreta a irmã da protagonista, enquanto cabe a Dinara Drukarova surgir como uma das poucas actrizes profissionais contratadas, nomeadamente, para dar vida à progenitora da personagem principal. Drukarova transmite eficazmente a obsessão da sua personagem em relação ao sucesso da filha, com as atitudes desta mulher a adensarem a pressão sobre a patinadora. As interpretações são convincentes, sobretudo de Bramms, com a intérprete a colocar em evidência as dúvidas que começam a assolar a mente da adolescente e o desejo que esta tem de descobrir todo um mundo que extravasa o ringue de patinagem e os treinos. Diga-se que inicialmente Sarah não é bem recebida em Colmar, o local onde regressa na companhia da mãe e da irmã, tendo em vista a treinar no clube de patinagem artística. 

Aos poucos, Sarah começa a integrar-se no grupo e a formar amizades, enquanto ficamos diante das dinâmicas destas adolescentes e da forma como as rotinas inerentes à patinagem afectam o seu quotidiano. Ao longo de "Kiss and Cry" acompanhamos os seus treinos, as suas conversas no balneário, a sua sede de descobertas, as parvoíces que cometem, as suas saídas, as suas paixonetas e as dúvidas que as inquietam, com Sarah a estar no centro de quase tudo. Num determinado momento do filme encontramos a protagonista a desabafar e a expor a necessidade de se libertar das responsabilidades que lhe colocam aos ombros. Revela alguma fragilidade, mas também imensa personalidade, enquanto lida com os dilemas típicos da adolescência e enfrenta a pressão inerente ao aproximar do campeonato de patinagem do gelo. As actividades ligadas aos treinos e à preparação para o campeonato são expostas de forma cuidada e genuína, tal como o rigor que envolve cada coreografia e a beleza do espectáculo, com Mathieu e Pinell a regressarem a um desporto que já tinham abordado na curta "Boucle piqué".

No caso do filme em análise, as cineastas deixam-nos perante um drama que se envolve pelos anseios muito próprios desta fase de transição para a idade adulta, um período da vida em que as regras nem sempre são bem aceites, a identidade está a ser formada, tudo é sentido com mais intensidade e a sede de descobertas é imensa, algo que começa a mudar a perspectiva de algumas adolescentes em relação à patinagem artística. Os diálogos e os actos destas personagens são credíveis, com tudo a ser desenvolvido de forma simples, sóbria e competente, sem grandes escorregadelas ou acrobacias falhadas, com "Kiss and Cry" a surgir como uma proposta interessante desta 18ª Festa do Cinema Francês.
 
Título original: "Kiss and Cry".
Realizadoras: Chloé Mahieu e Lila Pinell.
Argumento: Chloé Mahieu e Lila Pinell.
Elenco: Sarah Bramms, Dinara Drukarova, Xavier Dias, Ilana Bramms.

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