15 outubro 2017

Crítica: "Compte tes blessures" (2016)

 Kévin Azaïs tem em Vincent um personagem que marca uma carreira, com o actor a conseguir explanar as diferentes vertentes deste jovem complexo e intrigante. O intérprete começa por expor a faceta segura, intensa, inquieta, revoltada e carismática de Vincent como vocalista e líder de uma banda de hard rock. Mais tarde, exibe o lado inseguro e frágil do protagonista quando está na presença de Hervé (Nathan Willcocks), o seu pai, com quem vive num apartamento, após o falecimento da mãe. Posteriormente transmite a delicadeza, a capacidade de sedução e a irreverência do personagem principal de "Compte tes blessures", nomeadamente, quando está na companhia de Julia (Monia Chokri), a namorada do progenitor. Azaïs convence em todos os momentos anteriormente mencionados ao mesmo tempo que se exibe como um intérprete exímio a expressar-se quase sem proferir uma única palavra.

O corpo de Azaïs tanto pode servir para expor o lado mais intimidativo e rebelde de Vincent como a sua fragilidade, enquanto o seu olhar transmite uma imensidão de sentimentos, com Morgan Simon a aproveitar ao máximo o talento do seu intérprete. Estreante na realização de longas-metragens, Simon tem em "Compte tes blessures" uma cápsula de sentimento e emoção, uma espécie de tatuagem que marca a pele, avança pela carne e prende-se à nossa alma. É filme para não deixar ninguém indiferente, que inebria, choca, mexe com as emoções, que se lixa para as convenções e atira-se furiosamente ao espectador para lhe dar algo inesquecível. Marcante é um adjectivo que peca por escasso e por ser demasiado fácil para descrever esta obra cinematográfica, ou não estivéssemos diante de um filme em que uma reunião familiar pode contar com mais intensidade e agressividade do que um concerto de hard rock. Nem a música de Julio Iglesias está a salvo, com a banda sonora a ser utilizada com tanta inspiração como são desenvolvidas as ligações destes personagens.

As dinâmicas entre Hervé e Vincent são marcadas pela distância e pela falta de comunicação. É uma relação pontuada por silêncios, longas discussões, ressentimentos antigos e tentativas falhadas de aproximação. A frieza da ligação destes dois personagens é exposta de maneira paradigmática nos momentos iniciais do filme, quando Vincent tatua a cara da mãe e do pai em lados distintos do pescoço. Hervé exibe imediatamente o seu desagrado, de forma rispida, dura e directa, enquanto o jovem fica magoado, mas contém os sentimentos. Diga-se que o cantor prefere deixar as demonstrações de fúria e dor para os seus concertos, onde extravasa as emoções e explana um lado distinto. A chegada de Julia atiça o fogo que arde no interior deste jovem, com a dupla a formar uma estranha ligação de proximidade. Esta tem um emprego que não a motiva, é algo solitária e mantém uma relação morna com Hervé. Vincent e Julia passam em pouco tempo da afinidade dos diálogos trocados à atracção dos corpos, com a química entre Azaïs e Monia Chokri a ser evidente e a trazer consigo a sensação de que uma explosão de sentimentos aproxima-se a qualquer momento. 

 Um dos episódios definidores é uma ida de Julia a um concerto de Vincent, com o ambiente a ser propício à união dos corpos e à libertação das emoções, com o poder da música a antecipar a intensidade do desejo. Os números musicais são filmados com engenho, com a câmara a movimentar-se de forma a seguir os ritmos deste género musical. Diga-se que a câmara surge quase sempre em movimento, pronta a acompanhar os sentimentos intensos que envolvem as relações destes personagens. Note-se um dos episódios mais marcantes, nomeadamente, o primeiro jantar a três de Hervé, Vincent e Julia, com a cinematografia a sobressair, bem como o trabalho de iluminação e o desempenho dos actores. A iluminação é bastante contida, a câmara foca-se no rosto de cada um dos intervenientes, enquanto pai e filho começam a dialogar de forma calma até entrarem numa feroz troca de argumentos. Cada rosto é exibido separadamente, em close-up, até um plano de conjunto exacerbar o silêncio constrangedor que antecipa o extravasar da fúria.

"Compte tes blessures" também é um filme de silêncios, com aquilo que não é dito a ter em alguns momentos quase tanto valor e poder como aquilo que é mencionado. Hervé é incapaz de dizer que ama o filho, tendo mais facilidade em pedir para que este saia de casa. Trabalha como peixeiro, sustenta a casa e é incapaz de compreender o rebento, com Nathan Willcocks, actor-fetiche de Simon, a explanar a faceta introvertida, amargurada e inflexível do personagem que interpreta. Se a relação entre pai e filho é assinalada pela irrisão, afastamento, incompreensão e os habituais choques de gerações, já a dinâmica de Vincent com Julia conta com alguma leveza, trocas de sedução e partilha de ansiedades, com a entrada desta em cena a mexer com os sentimentos dos homens da casa. Chokri é outra das intérpretes que sabe trabalhar os silêncios, com a actriz a protagonizar algumas cenas marcantes, nas quais o desejo e a irracionalidade estão muito presentes. 

No centro de quase tudo está Vincent, com "Compte tes blessures" a desfazer por completo a ideia que podemos formar antecipadamente sobre o jovem. É um personagem dotado de dimensão e complexidade que, tal como o filme, mescla no seu interior uma faceta simultaneamente feroz e delicada, enquanto arrasa com os preconceitos e beneficia do magnífico argumento de Simon. Nada é desnecessário, com tudo a ter um sentido ou a servir um propósito. O objectivo é inebriar, chocar e desassossegar o espectador, deixá-lo diante do dilacerar de uma família, do poder do desejo e do amor, do mundo da música underground e das inquietações de um jovem adulto. Tudo isto é alcançado, sempre com enormes doses de energia, emoção e sedução. Está encontrada a grande surpresa da 18ª edição da Festa do Cinema Francês.

Título original: "Compte tes blessures".
Título em inglês: "A Taste of Ink".
Realizador: Morgan Simon.
Argumento: Morgan Simon.
Elenco: Kévin Azaïs, Monia Chokri, Nathan Willcocks.

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