03 setembro 2017

Resenha Crítica: "Logan Lucky" (Sorte à Logan)

 Não faltam prisioneiros amotinados que não acreditam no tempo excessivo que George R. R. Martin está a demorar para terminar de escrever o novo livro da saga "Game of Thrones", um grupo de "hillbillies" que planeia um assalto que aparentemente tem tudo para correr mal, dispositivos explosivos efectuados com recurso a sacos de gomas, personagens peculiares, uma banda sonora cheia de estilo e uma série de reviravoltas em "Logan Lucky", o filme que retirou Steven Soderbergh do seu curto exílio da realização cinematográfica. É um regresso em grande estilo e de grande nível, muito à "Ocean's Eleven" e a trazer à memória alguns dos bons exemplares dos filmes de assalto (sobretudo aqueles dotados de imenso humor à mistura), ainda que os protagonistas de "Logan Lucky" não tenham nem metade da perícia do grupo de Danny Ocean. Diga-se que em alguns momentos "Logan Lucky" quase que parece um "anti-Ocean's Eleven", ou Steven Soderbergh não despisse os seus protagonistas de glamour, inteligência e de capacidade para efectuarem planos intrincados. Um desses personagens principais é Jimmy Logan (Channing Tatum), um antigo trabalhador da construção civil. Outrora um jogador promissor de futebol americano, Jimmy caiu recentemente no desemprego devido ao facto dos seus superiores terem descoberto que este padece de um problema no joelho, algo que limita os seus movimentos. Jimmy é pai de Sadie (Farrah Mackenzie), uma jovem que vive com Bobbie Jo (Katie Holmes), a ex-mulher do protagonista, com Channing Tatum e Farrah Mackenzie a transmitirem que existe uma ligação forte a unir os personagens que interpretam. Diga-se que essa ligação entre pai e filha é estabelecida eficazmente desde os momentos iniciais do filme, com Steven Soderbergh a exibir imensa perícia a explanar rapidamente algumas das características dos personagens. Note-se quando Jimmy envolve-se numa cena de pancadaria no interior de um bar, com o olhar de Channing Tatum a permitir discernir a léguas que o protagonista vai partir para a luta e tem uma personalidade algo impulsiva. Channing Tatum insere um estilo simples, duro e pleno de humanidade a Jimmy, com o actor a incutir um sotaque tipicamente sulista a este indivíduo pouco polido e algo azarado.


 Supostamente existe uma maldição a rodear os Logan, ou, pelo menos, é nisso que Clyde Logan (Adam Driver), o irmão de Jimmy, acredita. Clyde trabalha como empregado de bar, utiliza uma prótese na mão e no antebraço devido a ter perdido estas partes do corpo enquanto cumpria serviço militar no Iraque e demonstra algum comodismo em relação ao estado amorfo em que se encontra a sua vida. Adam Driver é um dos intérpretes que mais se destaca ao longo do filme, com o actor a exibir um domínio notável dos timings da comédia e a saber aproveitar o argumento que tem à disposição para exacerbar a faceta cómica de "Logan Lucky". Note-se o estilo excessivamente ponderado e pormenorizado com que Clyde exibe o seu apreço pelo irmão ter tostado bem o bacon, embora demonstre logo de seguida que está consciente de que essa simpatia envolve algum plano manhoso do familiar, ou a forma como Adam Driver deixa muitas das vezes o seu rosto quase sem expressão para exacerbar a faceta peculiar do personagem que interpreta e a maneira muito própria como este encara os acontecimentos que o rodeiam. De cabelos compridos, uma prótese na mão, roupas de cores mais discretas do que o irmão, Clyde parece muitas das vezes a voz da razão, ou simplesmente o lado mais pessimista dos Logan, enquanto Jimmy é a face mais impulsiva, com Channing Tatum e Adam Driver a contarem com uma dinâmica bastante convincente. A completar o clã dos Logan está Mellie (Riley Keough), uma cabeleireira com uma personalidade forte, que sabe guiar carros como poucos e tem um conhecimento latente sobre veículos, para além de exibir um gosto notório por utilizar roupas que realcem as suas formas corporais e dotadas de cores bem vivas. As roupas permitem exacerbar a personalidade vincada de Mellie, com Riley Keough a voltar a interpretar uma personagem sulista e a destacar-se em bom nível, enquanto incute um tom desenrascado e forte a esta figura marcante dos Logan. Como o caro leitor já percebeu, o texto continua a avançar e pouco foi mencionado sobre o assalto. Culpa deste escriba que se estende em demasia em pormenores desnecessários, mas também de Steven Soderbergh, do argumento de Rebecca Blunt e do elenco de "Logan Lucky", ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica dotada de bons personagens, momentos que tanto são capazes de despertar alguns risos como deixar o espectador a reflectir, enquanto acompanhamos um assalto concebido à base da melhor lei do "desenrasca". 


 A ideia de colocar um furto em prática parte de Jimmy, com este a pretender assaltar a pista de corrida de Charlotte Motor Speedway, tendo para isso de aceder ao sistema subterrâneo de armazenamento de dinheiro do local. Ao invés de colocar o espectador diante de um plano orquestrado com minúcia, tal como encontramos em obras do género como "Ocean's Eleven", "The Italian Job", "The Asphalt Jungle", entre outras, Steven Soderbergh prefere seguir um caminho diametralmente oposto. Nesse sentido, "Logan Lucky" deixa-nos a observar o desenrolar dos acontecimentos, sem uma cena na qual o plano é exposto ao detalhe, enquanto somos estimulados para procurarmos saber como Jimmy, Clyde e Mellie vão safar-se com este esquema descabelado onde o improviso e a falta de preparação parecem imperar. Quem também está inserido neste assalto é Joe Bang (Daniel Craig), um especialista em arrombamentos e em explosivos que merecia um filme a solo. Com tatuagens nos dedos "à Robert Mitchum" em "The Night of the Hunter", cabelo oxigenado, um estilo aparentemente duro, uma propensão para dizer aquilo que pensa e um olhar expressivo, Joe Bang permite que Daniel Craig componha um personagem carismático, deliciosamente sardónico e disponível para envolver-se em confusões. Diga-se que, quando é chamado por Jimmy e Clyde, Joe Bang está preso, algo que não parece impeditivo para os Logan, com Steven Soderbergh a colocar-nos diante de um assalto rocambolesco que conta com uma série de episódios em que a faceta muito peculiar dos personagens que povoam "Logan Lucky" vem ao de cima. É praticamente impossível não sorrir diante dos irmãos de Joe Bang (Brian Gleeson e Jack Quaid) a exibirem o seu lado desastrado, ou das demonstrações de incompetência do director da cadeia onde o personagem interpretado por Daniel Craig está encarcerado. O humor está presente em diversos episódios, seja devido às características dos personagens ou associadas ao território, ou à interacção entre as diversas figuras que povoam o enredo, com Steven Soderbergh a saber extrair interpretações de bom nível do elenco principal. Note-se os casos já mencionados de Channing Tatum, Adam Driver, Daniel Craig e Riley Keough, mas também de Hillary Swank, Katherine Waterston e até de Seth MacFarlane.


 Hillary Swank interpreta Sarah Grayson, uma agente que apresenta quase tanta competência para o seu ofício como os protagonistas para os furtos. Já Seth MacFarlane insere um tom odioso e propositadamente caricatural a Max Chilblain, um homem de negócios arrogante, enquanto que a personagem interpretada por Katherine Waterston permite reforçar o estilo caricato e pouco polido de Jimmy, bem como o isolamento a que estão sujeitos alguns territórios do interior dos EUA, ou esta não surgisse como uma enfermeira que trabalha num posto móvel de vacinação. Steven Soderbergh consegue inserir alguns temas mais sérios no interior da leveza que pontua diversos episódios e reviravoltas de "Logan Lucky". Note-se as assimetrias sociais, o desemprego, entre outros temas que aparecem em pano de fundo. Tanto Jimmy como Clyde viram os seus sonhos caírem por terra. Jimmy nunca conseguiu seguir uma carreira no futebol americano, ou contar com um emprego seguro. Clyde cumpriu serviço militar no Iraque, não parece ter grandes objectivos de vida, nem recebe o respeito que merece daqueles que o rodeiam. Os personagens que nos são apresentados estão longe de contarem com material topo de gama para concretizarem o assalto ou uma perspicácia acima da média, com Steven Soderbergh a colocar-nos diante de um grupo de pessoas completamente normais, por vezes dotadas de algumas doses de parvoíce e falta de inteligência, que pretendem dinheiro fácil. O golpe ocorre em pleno Coca-Cola 600, um evento bastante popular, algo que dificulta ainda mais a tarefa destes incautos assaltantes, enquanto "Logan Lucky" deixa-nos diante de um furto dotado de situações caricatas e inesperadas. Steven Soderbergh consegue surpreender-nos em diversas situações e sabe como roubar os nossos risos e agarrar a nossa atenção, com muito daquilo que funciona nos momentos de humor a remeter também para a forma exacta e precisa como o cineasta arquitecta as diversas sequências do filme. Diga-se que o cineasta exibe ainda uma atenção notória aos cenários, seja a expor a faceta solarenga dos espaços exteriores por onde circulam os protagonistas, ou o aspecto monocromático e frio do espaço prisional onde Joe Bang está "instalado", com "Logan Lucky" a contar com uma série de acertos que contribuem e muito para elevar esta obra cinematográfica. Com uma série de personagens que despertam a nossa simpatia e interesse, boas interpretações, um cuidado notório na escolha do guarda-roupa para realçar a personalidade de algumas figuras que pontuam o enredo, "Logan Lucky" marca um regresso bastante feliz de Steven Soderbergh à realização de longas-metragens.


Título original: "Logan Lucky".
Título em Portugal: "Sorte à Logan".
Realizador: Steven Soderbergh.
Argumento: Rebecca Blunt.
Elenco: Channing Tatum, Adam Driver, Daniel Craig, Riley Keough, Farrah Mackenzie, Katie Holmes, Katherine Waterston,Dwight Yoakam, Hilary Swank.

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