07 setembro 2017

Resenha Crítica: "La fille de Brest" (150 Miligramas)

 Eis um filme que se preocupa com os personagens e o trabalho dos actores, que apresenta uma protagonista dotada de complexidade e insere uma emoção palpável aos acontecimentos retratados. Falamos de "La fille de Brest" (em Portugal: "150 Miligramas"), uma obra cinematográfica inspirada em episódios e acontecimentos reais, nomeadamente, a luta que Irène Frachon (Sidse Babett Knudsen) travou para comprovar e denunciar os efeitos secundários do Mediator, um medicamento fabricado e comercializado pelos laboratórios da Servier. O medicamento em questão provoca doenças cardíacas, embora tenha sido comercializado por mais de trinta anos e prescrito por um número significativo de especialistas. O enredo começa em Abril de 2009 e acompanha um conjunto de episódios que marcaram esta luta intrincada entre Irène e uma grande empresa farmacêutica. Todos nós gostamos de uma boa luta entre David e Golias (a não ser que estejamos no grupo deste último). Emmanuelle Bercot está consciente disso e expõe os acontecimentos de "La fille de Brest" a partir da perspectiva de Irène Frachon, uma pneumologista que inicia uma batalha hercúlea. Esta situação leva a que Sidse Babett Knudsen, uma intérprete que é sinónimo de fiabilidade, esteja quase sempre em destaque, com a actriz a brindar o espectador com uma interpretação maravilhosa. Sidse Babett Knudsen imprime humanidade e sensibilidade a esta mulher de personalidade vivaz e emotiva, que pensa acima de tudo no bem-estar e na segurança dos seus doentes. É médica num hospital de pouco estatuto, não é uma investigadora, mas isso não a impede de lutar pelos seus objectivos, bem pelo contrário. Emmanuelle Bercot não descura o desenvolvimento das diferentes vertentes desta médica, seja a sua faceta de esposa e mãe, ou o seu lado de pneumologista e colega. Irène tem uma relação de proximidade com o esposo e os filhos, com a habitação desta família a aparecer como um espaço onde a harmonia e a leveza predominam. No hospital, situado em Brest, Irène tem de conciliar os combates em várias frentes, seja a luta contra as doenças dos pacientes, ou a participação na investigação que visa comprovar os efeitos nocivos do Mediator.


 As dinâmicas de Irène com os colegas e os doentes são expostas e desenvolvidas de forma eficaz e credível. Entre os doentes de Irène destaca-se Corinne (Isabelle de Hertogh), uma paciente que sofre de asma e de problemas cardíacos, que se locomove com dificuldade e tem peso a mais. Isabelle de Hertogh consegue expressar as dificuldades desta mulher e contribui para que Emmanuelle Bercot atribua uma dimensão humana aos números que aparecem nas estatísticas relacionadas com as vítimas do Mediator, com Corinne a ter um papel de relevo no enredo. Por sua vez, Antoine Le Bihan (Benoît Magimel) é o colega de Irène que está mais em destaque. Antoine Le Bihan é um médico investigador menos impetuoso e mais receoso do que Irène, que tem de enfrentar uma série de contratempos e lidar com um caso que transcende as suas expectativas iniciais. Benoît Magimel coloca em evidência a enorme cumplicidade que existe entre Antoine e Irène, mas também aquilo que une e separa estes personagens, com ambos a terem de lidar com a pressão mediática, o descrédito de alguns colegas e a força da Servier. Note-se quando o estudo de Antoine é inicialmente desacreditado, com "La fille de Brest" a exibir de forma paradigmática que Irène e os seus colegas estão a enfrentar vários adversários de peso. Parece certo que o Mediator é a causa para a morte ou para as doenças cardíacas de diversos pacientes de Irène. O problema é que comprovar os efeitos nocivos deste medicamento não é tarefa fácil, algo que "La fille de Brest" exibe de forma bem viva. A banda sonora acentua imensas vezes a tensão e a dramaticidade de alguns episódios, a câmara de filmar exacerba a atenção de Emmanuelle Bercot para com os personagens, enquanto a realizadora exibe competência a expor aquilo que pretende, ou seja, a luta de Irène Frachon para defender os pacientes e comprovar e denunciar os efeitos secundários perversos do Mediator. Embora tenhamos vários elogios para distribuir, também não podemos escamotear que nem sempre tudo funciona ao longo de "La fille de Brest", sobretudo a estrutura narrativa demasiado linear e previsível que Emmanuelle Bercot incute ao filme. No entanto, existe uma fascinante dimensão humana a envolver uma parte considerável dos personagens principais e secundários, algo que contribui para que diversos intérpretes se destaquem. Veja-se o caso de Bruno (Patrick Ligardes), o esposo de Irène, um indivíduo ponderado e sensato, que permite reforçar a harmonia que existe no interior do lar da protagonista, ou Catherine Haynes (Myriam Azencot), uma epidemiologista decidida que se envolve na investigação contra o Mediator.


 Não podemos ainda esquecer Arsène Weber, ou o "père Noël", uma figura inicialmente misteriosa que contribui para encontrarmos laivos de "All the President's Men" em "La fille de Brest". Também "The Insider" vem à nossa memória, mas pela forma superior como Michael Mann retratou a luta que um indivíduo travou contra a indústria do tabaco. No entanto, é de elogiar a maneira eficaz como Emmanuelle Bercot evitou cair nas malhas do drama médico que podemos ver em diversas séries televisivas, com a cineasta a criar algo capaz de prender a nossa atenção e de mexer com as nossa emoções. Sobretudo por acreditarmos nos personagens e na sua luta. Mas também pelo prazer de observarmos intérpretes como Sidse Babett Knudsen, Benoît Magimel e Myriam Azencot a contarem com desempenhos assinaláveis. Já os representantes da Servier raramente ganham destaque, embora o objectivo de Emmanuelle Bercot centre-se acima de tudo em explanar a jornada de Irène Frachon e a personalidade muito própria desta mulher. É um filme que não se assume como feminista, mas que contribui mais para a causa do que muitas obras-panfleto, com Emmanuelle Bercot a deixar o espectador perante uma protagonista relevante, plena de humanidade, dotada de complexidade, que ri, chora, ama, erra, efectua conquistas, luta pelos seus valores e exibe um sentido de ética merecedor de elogios. Estamos diante de uma obra cinematográfica que se recomenda, dotada de um argumento eficaz, bons personagens e uma interpretação de relevo por parte de Sidse Babett Knudsen (algo que nunca é demais repetir). Esta faz com que os gestos e as expressões que insere a Irène soem como algo natural, contribui para que as falas da protagonista soem como verdadeiras e eleva (muito) esta obra cinematográfica. 


Título original: "La fille de Brest".
Título em Portugal: "150 Miligramas".
Realizadora: Emmanuelle Bercot.
Argumento: Séverine Bosschem e Emmanuelle Bercot.
Elenco: Sidse Babett Knudsen, Benoît Magimel, Isabelle de Hertogh, Patrick Ligardes.

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