27 setembro 2017

Resenha Crítica: "Hotel" (2004)

 Sem recorrer a sustos rápidos, ou a soluções fáceis, "Hotel" embala-nos de mansinho, seja para sentirmos o impacto dos gritos finais, da entrada nas trevas, ou para sermos consumidos por uma certa sensação de dúvida. O mistério é inserido de forma subtil, seja em pequenas pistas, ou com recurso ao design de som ou ao meticuloso trabalho de câmara. É uma obra pontuada por elementos de drama e mistério, que a espaços exibe a sua faceta de terror, sempre com enorme contenção, algumas doses de secura e uma ambiguidade latente. Existe uma estranha sensação de perigo e uma atmosfera enigmática a envolver alguns dos episódios que decorrem no interior ou nas redondezas do hotel do título, um estabelecimento situado nos Alpes austríacos, que conta com um ambiente aparentemente pacífico. Diga-se que a falta de respostas sobre o desaparecimento de Eva, uma recepcionista, traduz eficazmente algum do mistério que rodeia este espaço. Será que Eva fugiu? Será que foi morta? Quais as causas para o seu desaparecimento? Quem é contratada para o seu lugar é Irene (Franziska Weisz), uma mulher na casa dos vinte e poucos anos de idade, de cabelos loiros, algo curiosa e reservada, que tenta aferir aquilo que aconteceu à sua antecessora, embora apenas receba respostas fugidias, ou misteriosas, prontas a transmitir a ideia de desconhecimento, ou receio. É o quotidiano desta mulher no espaço hoteleiro e no território que o rodeia que acompanhamos em "Hotel", com Franziska Weisz a estar quase sempre em foco, enquanto incute uma faceta simultaneamente receosa, decidida e curiosa a Irene. O elenco é bastante competente, embora o destaque óbvio seja Franziska Weisz, com a intérprete a transmitir eficazmente quer a forma contida como Irene "vive" os episódios que protagoniza, quer algumas das inquietações que fervilham no âmago desta mulher. 


Irene inicia um romance, tem uma relação complicada com alguns colegas de trabalho, gosta de nadar, tenta descobrir informações sobre Eva e sente uma estranha atracção pelo bosque que rodeia o hotel. É neste espaço que Irene contacta com uma caverna que desperta uma certa sensação de perigo, sobretudo por estar associada à lenda da "Senhora do Bosque". De acordo com a lenda, a "Senhora do Bosque" foi acusada de feitiçaria e queimada na estaca em 1591. Muitos anos mais tarde, nomeadamente, em 1962, um grupo de peregrinos desapareceu nas proximidades da caverna. O momento em que a lenda é revelada não é inocente, com a história da "Senhora do Bosque" a trazer uma dose de mistério e misticismo ao enredo ao mesmo tempo que lança a dúvida se esta figura estará ou não ligada ao desaparecimento de Eva. Não vamos aqui revelar se existe ou não essa ligação, embora não seja uma surpresa salientar que Jessica Hausner evita conceder uma resposta a todas as nossas questões e inquietações. Por vezes ocorre a falsa sensação de que nada acontece, ou de que está a faltar algo, embora quase tudo tenha um sentido ou diversos significados. A ambiguidade percorre quase todos os poros do enredo, bem como o cuidado em desconcertar e tirar o tapete ao espectador. Note-se logo no início do filme, quando encontramos Irene a receber instruções sobre os procedimentos que deve efectuar no cumprimento da sua função e a conhecer o espaço do porão, com o cuidado que é colocado na utilização do som, da iluminação e da paleta de cores a ficar desde logo em evidência. As luzes azuis que pontuam o porão trazem uma sensação de frieza e mistério, enquanto o som que percorre este espaço tem tanto de comum como de inquietante.

Não podemos ainda deixar de mencionar os momentos em que Irene percorre os corredores do espaço hoteleiro e as paredes parecem oprimir a protagonista, ou a fotografia em que Eva está presente, com Jessica Hausner e a sua equipa a exibirem que pouco ao nada é deixado ao acaso. As paredes brancas exponenciam o tom impessoal deste espaço hoteleiro, quase como se aprisionassem a recepcionista, enquanto que a fotografia aumenta o mistério em relação a Eva e às figuras que conviviam com a desaparecida. Temos ainda o trecho em que Irene decide utilizar os óculos vermelhos de Eva, quase que a assumir a faceta de duplo da desaparecida, qual Judy Barton a ser "transformada" em Madeleine Elster, com a tonalidade vermelha a exacerbar os perigos que envolvem a recepcionista. Se os óculos permitem efectuar uma associação entre Irene e Eva, já o crucifixo que a protagonista utiliza ao pescoço surge como um amuleto cobiçado que adensa a faceta associada às lendas e aos mitos de "Hotel". A perda do amuleto pode ou não significar a entrada em cena do perigo, com as dúvidas a constarem no âmago de "Hotel", bem como os mitos que geram uma estranha e perigosa atracção. A segunda longa-metragem realizada por Jessica Hausner surge assim como uma experiência cinematográfica cozinhada em lume brando, estimulante e inquietante, que procura fazer com que o espectador pense, reflicta, coloque questões e a não assuma uma postura passiva.

"Hotel" está disponível no Filmin a partir de dia 28 de Setembro: https://www.filmin.pt/filme/hotel.

Título original: "Hotel".
Realizadora: Jessica Hausner.
Argumento: Jessica Hausner.
Elenco: Franziska Weisz, Birgit Minichmayr, Marlene Streeruwitz.

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