13 setembro 2017

Resenha Crítica: "Big Trouble in Little China" (As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim)

 "Big Trouble in Little China" (em Portugal: "As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim") é um filme que sabe aquilo que quer, nomeadamente, proporcionar uma esfuziante dose de entretenimento ao espectador. Também sabe aquilo que não quer, ou seja, levar-se totalmente a sério ou entrar por questões complexas. É um filme que encontra no caos o seu porto de abrigo, que tem na falta de sentido o seu sentido e na aventura e na fantasia os seus ingredientes mais preciosos, enquanto nos deixa diante de uma história onde não faltam lendas chinesas, artes marciais, estereótipos, a desconstrução da figura do "macho", algumas doses de romance e humor, bem como a habitual capacidade de John Carpenter para colocar os personagens em problemas no interior de espaços fechados (e o prazer de deixar umas pontas soltas no final do filme). Tal como em diversos filmes deste magnífico cineasta, a banda sonora tem um papel de relevo para sublinhar os acontecimentos que nos são apresentados, com a música a transmitir a mescla de aventura, fantasia e leveza que pontua esta obra cinematográfica dotada de uma série de episódios marcantes. Num determinado de "Big Trouble in Little China" encontramos Jack Burton (Kurt Russell) a aventurar-se pelo covil de Lo Pan (James Hong), o antagonista, um feiticeiro lendário, enquanto efectua uma entrada triunfal, acompanhado de diversos personagens, entre os quais Wang Chi (Dennis Dun), um amigo. Tudo parecia correr bem, até Jack expor a sua faceta desastrada e disparar de forma descoordenada para o ar, uma situação que conduz a que algumas pedras caiam em cima da sua cabeça e deixem-no temporariamente fora de combate. Não é o primeiro, nem o último momento em que John Carpenter aproveita a figura de Jack Burton para desconstruir a figura do herói e do "macho", enquanto permite que Kurt Russell componha um personagem icónico, com o actor a imprimir um tom extrovertido, desprendido e sardónico ao protagonista de "Big Trouble in Little China", um camionista com uma enorme propensão para se envolver em confusões e um gosto notório por camisolas de manga de cava. Note-se logo no início do filme, após o prólogo, quando encontramos Jack Burton a jogar com Wang Chi e mais outros elementos no interior de um estabelecimento situado na Chinatown de San Francisco, com o primeiro a exibir a sua faceta peculiar e algo fanfarrona.


 Pouco tempo depois de ganhar mais uma aposta, algo que deixa os restantes jogadores em desespero, Jack acaba por dar boleia a Wang Chi até ao aeroporto, onde este último espera encontrar Miao Yin (Suzee Pai), a sua noiva, uma chinesa de olhos verdes. No aeroporto encontramos Gracie Law (Kim Cattrall), uma advogada que se deslocou ao local para ajudar Tara (Min Luong), uma jovem chinesa que é alvo de um ataque por parte de alguns membros do Lords of Death, um gang composto por chineses. Após uma breve tentativa de meter conversa com Gracie Law (um apelido excelente para uma personagem que é advogada), Jack logo acaba por se envolver numa confusão com os criminosos ao mesmo tempo que evita que Tara seja raptada. O problema é que os membros do Lords of Death acabam por raptar Miao Yin, algo que compele Jack e Wang a protagonizarem uma aventura rocambolesca que conta com uma estrutura semelhante a um jogo de computador onde os protagonistas enfrentam uma série de desafios até combaterem o "boss" final. Primeiro deparam-se com um duelo aparatoso entre membros dos Chang Sing e dos Wing Kong, em plena Chinatown, com a acção a permear estes momentos, sobretudo quando Thunder (Carter Wong), Rain (Peter Kwong) e Lightning (James Pax), também conhecidos como "The Three Storms", entram em cena e adensam a balbúrdia. O trio é perito em artes marciais, conta com poderes consideráveis e uma habilidade enorme para proferir diálogos risíveis, com Carter Wong (um actor que não poupa na expressividade excessiva), Peter Kwong e James Pax a destacarem-se apenas pelas habilidades para o combate. Este episódio permite ainda que Jack e Wang entrem pela primeira vez em contacto com Lo Pan, um feiticeiro amaldiçoado que surge quer com a aparência de um idoso decrépito e praticamente descarnado, quer como uma espécie de monarca de tez desprovida de vida, gestos imponentes e um plano maléfico para colocar em prática. O objectivo inicial de Jack e Wang centra-se no resgate de Miao Yin, mas, aos poucos, acabam por lidar com um caso mais intrincado, sobretudo quando Lo Pan decide casar com a noiva do segundo ou com Gracie, tendo em vista a quebrar uma maldição e recuperar a carne, o sangue, o coração e a juventude. Para isso, Lo Pan tem de sacrificar uma mulher de olhos verdes e entregá-la ao Deus do Leste, aquele que o amaldiçoou, com Miao Yin e Gracie a surgirem na linha da frente para serem sacrificadas.


 Relembro o caro leitor que no início do texto mencionei que "Big Trouble in Little China" tem no caos o seu porto de abrigo. Nesse sentido, é quase impossível abordar algumas das principais qualidades do filme sem expor esse estilo deliciosamente caótico. Não faltam entradas triunfais no seio de um bordel, ou uma série de episódios rocambolescos no interior da Bolsa Wing Kong, o covil não tão secreto de Lo Pan, com John Carpenter a não poupar no humor (muitas das vezes físico), na acção e na aventura, com os ingredientes destes três géneros a surgirem como um modo para o cineasta avançar com o enredo enquanto consegue deixar-nos diante de um grupo de personagens que desperta o nosso interesse e simpatia. Jack Burton é exemplo desses personagens que despertam simpatia, com Kurt Russell a transmitir que estamos diante de um protagonista (ou personagem secundário de luxo) peculiar, que tanto quer ser um herói como exibe uma inépcia enorme no cumprimento dos actos de heroísmo. Já Wang Chi surge praticamente como o protagonista de serviço (ou o personagem principal não oficial), com Dennis Dun a imprimir leveza e humanidade a este indivíduo com uma enorme habilidade para as artes marciais. É Wang quem tem quase sempre de se envolver na pancadaria, tal como Egg Shen (Victor Wong), um motorista de autocarros de turismo que conhece o passado de Lo Pan e o perigo que o feiticeiro pode provocar. Temos ainda Gracie Law, com a advogada a surgir como a mulher hawksiana de John Carpenter, com Kim Cattrall a expor com eficácia a desenvoltura e a personalidade forte da personagem que interpreta e a contar com uma dinâmica bastante convincente com Kurt Russell. Os diálogos são trocados a grande velocidade, as diferenças de personalidade são exacerbadas, enquanto Gracie e Jack acabam por formar uma ligação bastante peculiar. Não podemos ainda deixar de mencionar Eddie Lee (Donald Li) e Margo (Kate Burton), dois personagens secundários que exibem a perícia com que John Carpenter se descarta de elementos que nem sempre funcionam no enredo. Margo é uma jornalista com uma propensão notória para expor alguma informação e levantar situações que nem sempre interessam, enquanto que Eddie trabalha no restaurante do tio de Wang e demonstra algum interesse na primeira, com a dupla a ser praticamente "chutada para canto" numa fase decisiva do enredo.


 A surgir quase como um personagem de relevo está o edifício da Bolsa Wing Kong, um cenário decorado de forma a exacerbar a faceta mística e misteriosa de "Big Trouble in Little China". Note-se o lugar onde decorre a cerimónia de casamento de Lo Pan, um cenário pontuado por uma série de néones e imenso espaço para o combate, com as cenas de acção a remeterem para os wuxia, enquanto "Big Trouble in Little China" demonstra beber inspiração em diversas fontes, seja nos filmes de artes marciais, nas comédias screwball ou nas duas primeiras obras da saga "Indiana Jones". O humor é outro dos ingredientes essenciais do filme, com John Carpenter a exibir uma propensão notória para não levar totalmente a sério aquilo que está a apresentar. Note-se quando Lo Pan expõe que demorou mais de dois mil anos a encontrar a mulher ideal para quebrar a maldição, com Jack Burton a destruir a falta de lógica desta situação com um "I'm supposed to buy this shit? 2,000 years and he can't find one broad to fit the bill? Come on, Dave, you must be doin' somethin' seriously wrong". Temos ainda o trecho em que Jack Burton decide efectuar mais uma entrada heróica, ainda que apareça com os lábios completamente pintados de vermelho, após ter beijado Gracie Law, algo que sublinha o tom inusitado que envolve este episódio. São momentos pontuados por doses consideráveis de leveza, com Kurt Russell a deixar bem claro o lado mais rebelde e sardónico de Jack Burton, um personagem icónico de uma obra cinematográfica que é um magnífico pedaço de entretenimento.


Título original: "Big Trouble in Little China".
Título em Portugal: "As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim".
Realizador: John Carpenter.
Argumento: Gary Goldman e David Z. Weinstein.
Elenco: Kurt Russell, Kim Cattrall, Dennis Dun, James Hong, Carter Wong, Peter Kwong, James Pax, Min Luong.

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