12 agosto 2017

Resenha Crítica: "Wind River" (2017)

 Na sua superfície, "Wind River" é um thriller que envolve uma investigação intrincada no interior de uma reserva indígena. No seu núcleo, é um filme sobre o sentimento de perda e a dor provocada pela morte de alguém que amamos. É, também, um filme sobre um território de fronteira marcado pela forte presença da neve e da solidão, com Taylor Sheridan a não poupar nos planos bem abertos que nos deixam perante o isolamento, a desesperança e as características algo opressoras desta reserva situada no estado do Wyoming. As árvores estão despidas, as cores frias predominam, os predadores andam à solta, a falta de elementos que façam cumprir a lei dificulta o combate ao crime, enquanto que a neve cobre praticamente todos os poros da segunda longa-metragem realizada por Taylor Sheridan, quase que a dar o mote para a frieza e desolação que marcam alguns dos cenários que são apresentados e a acentuar uma certa sensação de insegurança e instabilidade. A banda sonora adensa essa atmosfera de insegurança, com o trabalho de Nick Cave e Warren Ellis a tanto contribuir para despertar um sentimento de melancolia e de desesperança como de receio e opressão. Diga-se que a insegurança contamina quase todos os poros desta reserva, algo que podemos comprovar desde os momentos iniciais do filme, com Taylor Sheridan a deixar um aperitivo para a violência que vai permear uma parte significativa desta obra cinematográfica. Nos momentos iniciais de "Wind River" somos colocados perante Natalie (Kelsey Asbille), uma índia de dezoito anos de idade, enquanto esta corre de forma desesperada e avança por um cenário hostil, pontuado pela presença forte da neve e do frio. Mais tarde descobrimos que esta faleceu. Antes de obtermos essa informação, "Wind River" deixa-nos perante Cory Lambert (Jeremy Renner), um caçador com ares de cowboy solitário, a disparar de forma certeira sobre um grupo de lobos. O sangue tinge a neve e realça a perícia de Cory para caçar predadores, algo que conduz as autoridades locais a designarem o protagonista para eliminar um ou mais pumas que estão a dar cabo do gado de Dan (Apesanahkwat), o pai de Wilma (Julia Jones), a ex-mulher do caçador. Regularmente vestido com roupas castanhas, uma tonalidade que remete para o isolamento e para a disciplina do protagonista, Jeremy Renner incute seriedade, dureza e melancolia a Cory, um caçador letal e perspicaz, especialista em analisar pistas, que nem sempre consegue dar a atenção devida a Casey (Teo Briones), o seu filho, embora ame o rapaz, enquanto lida com a dor provocada pela morte da filha.


 Cory aprendeu a conviver com o sofrimento, algo visível no seu rosto e no seu olhar, mas a sua alma continua inquieta devido a não saber a causa da morte da filha, com Jeremy Renner a deixar transparecer que o destino nem sempre foi simpático para com o personagem que interpreta. Jeremy Renner tem um trabalho assinalável a compor este caçador de personalidade algo fechada, respeitado pelos nativos que habitam na reserva, a espaços dotado de algum mistério, moralmente ambíguo, que tem a perfeita noção da insegurança que permeia o território que o rodeia e da incapacidade das autoridades para conseguirem que a lei seja respeitada. Essa incapacidade das autoridades e a dor provocada pela morte da filha podem ajudar a explicar o facto da morte de Natalie mexer tanto com Cory, com o protagonista a ter um papel fulcral na investigação que visa averiguar as razões que conduziram ao falecimento da jovem. Diga-se que é Cory quem encontra o corpo de Natalie, caído no meio do solo, com o rosto da jovem a escorrer sangue, enquanto os seus pés já se encontram queimados devido ao gelo que cobre o cenário, com este episódio a exacerbar a insegurança que percorre o território e a surgir como um acontecimento fulcral do enredo. É um momento dotado de algum negrume, que provoca o choque e adensa a sensação de malaise, com "Wind River" a não ter problemas em exibir por diversas vezes a violência que envolve alguns actos cometidos pelos seres humanos e o lado negro da Humanidade. A descoberta do corpo leva a que as autoridades da Reserva Indígena, lideradas por Ben (Graham Greene), contactem com o FBI. A única representante do FBI que é enviada para o terreno é Jane Banner (Elizabeth Olsen), uma agente que demonstra uma enorme determinação e interesse em relação a este caso, embora também denote uma falta de conhecimento notória sobre o território por onde se aventura. Se Jane tem a autoridade inerente à sua profissão e ao seu estatuto, já Cory possui um profundo conhecimento deste território onde as leis são regularmente quebradas e os predadores tanto podem surgir na figura de um animal selvagem como de um ser humano. É uma reserva que remete muitas das vezes para as cidades de fronteira dos westerns, marcadas pela violência e pelo crime, onde a justiça praticamente apenas é obtida através das próprias mãos, com Taylor Sheridan a exacerbar a atmosfera de insegurança que pontua este território ao mesmo tempo que expõe as especificidades deste espaço que parece num limbo entre o passado e o presente.


 Estamos diante de um cenário simultaneamente vasto, opressor e inóspito, exposto numa miríade de planos bem abertos que deixam transparecer as dificuldades das autoridades em defender o território, que o diga Jane, uma agente do FBI que surge como uma espécie de "peixe fora de água". Elizabeth Olsen transmite eficazmente a mescla de fragilidade e vigor desta agente do FBI que procura fazer de tudo para descobrir a identidade dos elementos que conduziram Natalie a fugir para o interior de um território inóspito. Nesse sentido, Jane procura contar com o apoio de Cory, com esta investigação labiríntica a permitir que "Wind River" não só aborde temáticas relacionadas com a violência e o tráfico de droga nesta reserva, mas também desenvolva as dinâmicas da dupla de protagonistas, com Jeremy Renner e Elizabeth Olsen a contarem com uma química relativamente convincente. Taylor Sheridan evita o caminho fácil de desenvolver um romance entre Cory e Jane, com o cineasta a preferir prosseguir por um percurso mais seco e certeiro, sempre com uma enorme atenção aos personagens e ao trabalho dos actores, enquanto exacerba a tensão e a brutalidade que se começa a apoderar de todos os poros do enredo. A brutalidade e a violência marcam alguns trabalhos de Taylor Sheridan como argumentista, tais como "Sicario" e "Hell or High Water", bem como a sensação de que estamos diante de uma espécie de western e personagens com uma noção muito própria da lei, algo que se repete em "Wind River". Essa violência é particularmente visível no último terço, quando o território parece enclausurar os personagens, as emoções confundem-se com o ribombar das balas e a morte aproxima-se de diversos elementos. Diga-se que Taylor Sheridan não poupa no uso das balas e na violência, embora também nunca descure algumas situações de acalmia. Note-se o momento em que encontramos Cory e Jane no interior da caravana do primeiro, banhados por uma luz ambiente, enquanto o caçador expõe alguma da dor provocada pela morte da filha. É certo que a utilização da câmara da mão não resulta neste momento mais íntimo e sensível, mas também é difícil deixar de destacar o sentimento que Jeremy Renner incute aos diálogos que profere. Atente-se ainda ao momento em que Cory dialoga com Martin (Gil Birmingham), o progenitor de Natalie, um nativo americano com quem o protagonista tem uma notória relação de respeito, com Taylor Sheridan a sublinhar que estamos diante de dois pais que se encontram a enfrentar a dor inerente a uma perda. Temos ainda o trecho em que ouvimos Martin (sólida interpretação de Gil Birmingham) a chorar de forma compulsiva, em fora de campo, com "Wind River" a contar com um ou outro momento que prima pela sensibilidade e pela capacidade de nos compelir a acreditar nos personagens.


 "Wind River" surge assim como um thriller de investigação com traços de drama, enquanto se embrenha pelo interior de um território marcado pela extensão e pelas características algo inóspitas, com Taylor Sheridan a deixar a sensação de que a reserva é praticamente uma personagem de relevo. O salve-se quem puder e a lei da sobrevivência parecem marcar o quotidiano dos elementos que habitam neste espaço, enquanto a investigação permite expor um lado mais negro de alguns dos habitantes deste território, com "Wind River" a aparecer como um thriller relativamente eficaz a cumprir aquilo a que se propõe. Diga-se que, embora seja mais conhecido pelo seu trabalho como actor e argumentista, Taylor Sheridan tem em "Wind River" uma segunda longa-metragem onde exibe uma série de bons apontamentos, ainda que não esteja livre de um ou outro tropeço. Note-se a utilização nem sempre eficaz da câmara na mão, ou a falta de subtileza com que Taylor Sheridan insere algumas metáforas ou repete algumas ideias (veja-se a necessidade de repetir a informação de que Cory é um especialista a caçar predadores), ou a falta de coragem para fugir a alguns lugares-comuns, ou a inclusão de um personagem completamente unidimensional (a roçar o ridículo) como um dos elementos com um papel fulcral no último terço, ou a forma como "Wind River" ignora a partir de um determinado momento o filho do protagonista. Já a atenção que Taylor Sheridan concede aos seus personagens principais é de elogiar, bem como às características do território e à comunidade nativa, para além de arquitectar algumas cenas de acção que provocam impacto e servem o propósito da narrativa. Pelo meio temos direito a um flashback que promete dividir opiniões, embora permita exibir um episódio de relevo e expor mais uma vez o lado negro e violento de alguns personagens, enquanto serve quer para explanar mais um comentário de foro social (a insegurança, a violência sexual sobre as nativas), quer como aperitivo para mais alguns momentos intensos que pontuam o enredo. Os cenários por onde circulam os personagens de "Wind River" podem ser marcados pela presença da neve e do frio, mas aquilo que Taylor Sheridan apresenta é uma obra que está longe de despertar os sentimentos mais gélidos, bem pelo contrário.


Título original: "Wind River".
Realizador: Taylor Sheridan.
Argumento: Taylor Sheridan.
Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Julia Jones, Graham Greene, Apesanahkwat, Teo Briones

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