08 agosto 2017

Resenha Crítica: "Wiener-Dog - Uma Vida de Cão"

 "Wiener-Dog" não funciona como comédia negra. Também não funciona como comédia de costumes, nem acerta quando tenta avançar por caminhos mais dramáticos. Os seus personagens são completamente desinteressantes, o seu argumento é de uma pobreza franciscana e a realização de Todd Solondz é demasiado insossa, enquanto que os actores e as actrizes que constam na ficha do elenco apenas se limitam a compor caricaturas superficiais e desprovidas de dimensão. É um filme que nos deixa com a amarga sensação de apenas termos perdido tempo da nossa vida, que se acha mais divertido e inteligente do que é na realidade, que quer à força provocar o choque e o riso, mas apenas desperta indiferença. Tal como em "Happiness", Todd Solondz coloca-nos diante de um núcleo alargado de personagens, ainda que o enredo de "Wiener-Dog" esteja dividido em quatro histórias, com todos estes capítulos a serem unidos pela presença de uma cadela da raça dachshund. Diga-se que a pobre cadelinha surge como uma mera desculpa para Todd Solondz colar quatro histórias sensaboronas com cuspo, enquanto procura satirizar alguns elementos da sociedade dos EUA. No primeiro capítulo, "Wiener-Dog" coloca-nos perante Danny (Tracy Letts), um indivíduo financeiramente abonado que decide adquirir uma dachshund para Remi (Keaton Nigel Cooke), o seu filho, um rapaz que outrora padeceu de cancro. Por sua vez, Dina (Julie Delpy), a esposa de Danny e mãe de Remi, exibe desde logo a sua insatisfação pela presença da cadela, enquanto que o rapaz demonstra um certo entusiasmo por contar com a companhia desta criatura dotada de enormes doses de fofura. Não demora muito tempo para percebermos que Danny e Dina não gostam de cães, nem sabem lidar com os mesmos, algo notório quando deixam a cadela fechada numa espécie de gaiola e exibem uma faceta questionável para com o animal de estimação. É uma maneira simplista de Todd Solondz satirizar aquele grupo de pessoas que compra cães, mas não tem paciência, nem tempo para educá-los e acompanhá-los, com "Wiener-Dog" a deixar-nos diante de um casal desagradável e de um jovem extremamente ingénuo, com o trio a não despertar o nosso mínimo interesse ou atenção. Diga-se que a crítica efectuada por Todd Solondz até é pertinente (continua-me a fazer confusão quando percebo que algumas pessoas compram ou adoptam cães sem saberem minimamente as características das raças, algo que gera muitas das vezes abandonos ou devoluções), mas é efectuada sem a mínima inspiração ou mordacidade, algo que retira algum do possível impacto a esta história.


 A segunda história envolve Greta Gerwig a interpretar mais uma variação de Greta Gerwig, bem como diálogos constrangedores, piadas falhadas, temáticas relevantes que não são desenvolvidas, uma viagem que provoca pouco impacto e o esboçar de um romance que nunca nos convence. Temos ainda mais duas histórias e um intervalo que divide os quatro capítulos do filme. O intervalo é o melhor momento do filme, com Todd Solondz a deixar de lado os personagens humanos e a centrar as atenções na cadela dachshund, enquanto esta circula impávida e serena por diversos cenários. Não dá para nos fazer rir à gargalhada, mas sempre é menos constrangedor do que os momentos em que Todd Solondz finge que tem algo para nos dar. Outra dessas histórias-embuste é centrada em Dave Schmerz (Danny DeVito), um argumentista falhado, que dá aulas de escrita de argumentos e possui a já nossa conhecida dachshund. É uma oportunidade para Todd Solondz efectuar algumas piadas sobre um meio que bem conhece, sempre num tom pseudo-ácido, pronto a não incomodar totalmente os seus pares, embora não deixe de escarnecer os estúdios, agentes e académicos. Realce-se o trabalho de Danny DeVito como este argumentista em crise, com o actor a incutir alguma alma a um personagem conservador, pouco talentoso e pessimista. A quarta pessoa a tomar conta da nossa dachshund é Nana (Ellen Burstyn), uma idosa que se locomove com o apoio de uma arrastadeira. Nana é visitada por Zoe (Zosia Mamet), a sua neta, bem como por Fantasy (Michael Shaw), o namorado desta última, com a idosa a perceber desde logo que a familiar pretende dinheiro "emprestado". Poderia existir uma abordagem relacionada com a solidão desta mulher, mas Todd Solondz não parece estar para aí virado, com o cineasta a limitar-se a realçar o lado pitoresco e a faceta peculiar dos elementos que pontuam o enredo do filme, ou a tentar provocar o choque. A quarta história permite ainda um suposto momento de humor que é definido quer pela sua previsibilidade, quer pela tentativa do cineasta em provocar o efeito "oh não, o Todd Solondz não acabou de fazer isto", embora apenas nos deixe a pensar uma série de palavras que a boa educação não permite reproduzir neste texto. Não chega a ser um filme ofensivo, é apenas completamente desinteressante, desprovido de graça ou inteligência, que desafia a nossa paciência e utiliza o cão do título como um modo pueril de colar quatro histórias. No press kit, Todd Solondz salienta o seguinte: "I love dogs and would love one of my own, the only problem being that I don't like walking them or feeding them or cleaning them or having to stay home because of them". Alguém que o avise que também não sabe como utilizar cães em filmes, já que a cadela do título apenas surge como uma figura meramente decorativa ao longo desta obra cinematográfica que pensa ser mais inteligente do que é na realidade.


Título original: "Wiener-Dog".
Título em Portugal: "Wiener-Dog - Uma Vida de Cão".
Realizador: Todd Solondz.
Argumento: Todd Solondz.
Elenco: Tracy Letts, Keaton Nigel Cooke, Julie Delpy, Greta Gerwig, Kieran Culkin, Danny DeVito, Ellen Burstyn, Zosia Mamet, Michael Shaw.

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