21 agosto 2017

Resenha Crítica: "Dog Eat Dog" (Como Cães Selvagens)

 "From the creator of Taxi Driver and Raging Bull". Esta frase marca um dos posters de "Dog Eat Dog" (em Portugal: "Como Cães Selvagens"), a nova longa-metragem realizada por Paul Schrader. Diga-se que essa frase atormentou a minha mente ao longo da visualização de "Dog Eat Dog". Como é que alguém que escreveu o argumento de duas obras-primas conseguiu encontrar potencial em algo tão desprovido de interesse como "Dog Eat Dog"? É certo que a carreira de Paul Schrader já conheceu melhores dias, mas é simplesmente frustrante verificar como o cineasta não consegue oferecer mais do que um thriller banal, marcado por diálogos maioritariamente risíveis, péssimos efeitos especiais, acção estilizada e personagens desprovidos de dimensão. Junte-se um Nicolas Cage capaz do melhor e do pior, com uma interpretação que apenas contribui para exacerbar a incoerência que incute à composição do personagem a quem dá vida e "Dog Eat Dog" começa a despertar um interesse semelhante a um acidente: sabemos que é mau, mas não conseguimos desviar o olhar. Outra das perguntas que me ocorreu após ter visionado "Dog Eat Dog" é a seguinte: Quem é que achou que seria boa ideia colocar Nicolas Cage a imitar a voz e os trejeitos de Humphrey Bogart? É algo simplesmente ridículo e caricato, que exibe a falta de rumo de um filme que pensa ser mais irreverente e audacioso do que é na realidade. Nicolas Cage interpreta Troy, um indivíduo que saiu recentemente da prisão e permite que o intérprete exiba alguns dos seus cageísmos. Troy gosta de recorrer aos serviços de prostitutas, admira Humphrey Bogart e protagoniza alguns crimes ao lado de Mad Dog (Willem Dafoe) e Diesel (Christopher Matthew Cook). Willem Dafoe é o grande trunfo do filme, com o actor a incutir um estilo niilista, tresloucado e cocaínado a Mad Dog, um personagem viciado em drogas e propenso a tomar as piores decisões.


 Os diálogos nem sempre ajudam, sobretudo quando "Dog Eat Dog" decide tentar incutir uma falsa profundidade a Mad Dog, mas Willem Dafoe é capaz de transmitir a faceta violenta, atormentada e impulsiva deste criminoso. Note-se a forma delirante como Mad Dog é apresentado no prólogo, o melhor momento de "Dog Eat Dog", com as tonalidades cor-de-rosa a marcarem as imagens e a contrastarem com a violência que se avizinha. Veja-se como um quarto recheado de unicórnios surge como o caricato palco para um assassinato, enquanto um criminoso viciado em cocaína expõe o seu lado mais violento e Paul Schrader exibe alguns lampejos de brilhantismo. Se Willem Dafoe protagoniza alguns dos melhores momentos de "Dog Eat Dog", já Christopher Matthew Cook está longe de convencer como o desinteressante Diesel, um criminoso com uma enorme habilidade para o disparo e uma péssima capacidade para nos convencer dos diálogos que profere. Troy desperta a confiança de Mad Dog e Diesel, embora estes não pareçam acreditar muito um no outro, apesar do trio ainda efectuar dois trabalhos em conjunto. São três criminosos erráticos, violentos, niilistas, que não estão aqui para despertar simpatia ou gerar empatia, bem pelo contrário. Note-se quando encontramos Troy a beijar à força uma mulher, ou o trio a raptar um bebé, entre outros episódios que evidenciam a falta de valores morais destes ex-presidiários que têm no crime o seu modo de vida. Quem consegue diversos trabalhos para o grupo é Grecco (Paul Schrader), o intermediário de Troy, um indivíduo com alguns contactos no mundo do crime. O primeiro trabalho que o trio tem de efectuar é pontuado por algum humor negro, violência e um comentário sobre a discriminação racial, com Troy, Mad Dog e Diesel a terem de obrigar Moon Man (Omar Dorsey) a revelar onde guarda a sua fortuna. Já o segundo trabalho é mais intrincado, nomeadamente, o rapto um bebé, tendo em vista a obrigar o progenitor da criança a pagar uma verba elevada como resgate. É uma tarefa complicada, com a desorganização e a incompetência do trio a contribuir para dificultar a concretização desta missão.


Os episódios que se seguem ao rapto contam com algumas mortes, reviravoltas, violência, tentativas frustradas de humor, um comentário sobre as armas e a acção policial e uma procura notória de exacerbar o estilo em detrimento da substância. Note-se quando os tons vermelhos contaminam um tiroteio que perde boa parte do seu efeito quer pelo tom caricatural que Nicolas Cage incute a Troy, quer pela artificialidade que Paul Schrader insere a este momento. Temos ainda o momento em que Mad Dog e Diesel dialogam no interior de um bar, com a profusão de cores provenientes das luzes a exacerbarem a tormenta do primeiro, embora esta sequência contribua mais para "prender" o ritmo da narrativa do que para incutir densidade ao personagem interpretado por Willem Dafoe. Se conseguisse manter o fôlego da sua espécie de prólogo, marcado por um tom delirante, violento e estilizado, "Dog Eat Dog" poderia surgir como um thriller irreverente, deliciosamente negro e saudavelmente desenvergonhado. O problema é quando começa a expor todas as suas debilidades, com o momento em que Nicolas Cage tenta imitar Humphrey Bogart a aparecer como a cereja do topo deste bolo desconjuntado. Note-se a falta de tensão e mistério a envolver os trabalhos do trio de protagonistas, ou a incapacidade de Paul Schrader para explorar o humor negro inerente a algumas situações que pontuam o enredo de "Dog Eat Dog". Temos ainda algumas situações incómodas que revelam algum desleixo na escrita do argumento, bem como no desenvolvimento do filme. Veja-se a forma rápida como Grecco sabe que os protagonistas envolveram-se em problemas durante o rapto, embora a informação não tenha sido exposta pelos únicos elementos que testemunharam esse episódio, ou a falta de desenvolvimento dos personagens principais, ou a maneira superficial como a admiração de Troy por Humphrey Bogart é inserida no enredo. Na sua entrevista ao The Guardian, Paul Schrader salienta o seguinte: "I’ve been fortunate over my career to be involved in some important and prestigious films. Dog Eat Dog is not one of them". Estou completamente de acordo e ainda acrescentaria que "Dog Eat Dog" não teria recebido nem metade da atenção que recebeu se não tivesse o nome de Paul Schrader no cargo de realizador.


Título original: "Dog Eat Dog".
Título em Portugal: "Como Cães Selvagens".
Realizador: Paul Schrader.
Argumento: Matthew Wilder (baseado no livro "Dog Eat Dog" de Edward Bunker).
Elenco: Nicolas Cage, Willem Dafoe, Christopher Matthew Cook, Paul Schrader, Omar Dorsey.

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