23 julho 2017

Resenha Crítica: "Valerian and the City of a Thousand Planets" (Valerian e a Cidade dos Mil Planetas)

 Num determinado momento de "Valerian and the City of a Thousand Planets" (em Portugal: "Valerian e a Cidade dos Mil Planetas"), encontramos o personagem do título (Dane DeHaan), um agente espácio-temporal, a desferir um murro em Arün Filitt (Clive Owen), o seu comandante. É um momento de alguma inquietação, mas a Sargento Laureline (Cara Delevingne), a companheira, colega de trabalho e namorada de Major Valerian, logo salienta que ensinou este movimento ao protagonista, algo que permite aliviar a tensão e despertar um largo sorriso no espectador. Diga-se que este momento permite ainda exibir de forma paradigmática a faceta leve, bem disposta e confiante de "Valerian and the City of a Thousand Planets", ou não estivéssemos perante uma space opera que não tem problemas quer em abraçar o seu lado camp, deliciosamente extravagante e delirante, quer a exibir que não pretende ser mais do que um pedaço de duas horas e pouco de puro escapismo. Luc Besson não se envolve por questões profundas ou complexas, por vezes parece que se perde no "parque de diversões" maravilhoso que criou, a espaços aparenta querer percorrer os caminhos mais simples ou aqueles que fazem pouco sentido, mas também não deixa de ser notório que o cineasta tem em "Valerian and the City of a Thousand Planets" uma space opera divertida, dotada de uma série de figuras e cenários que captam a atenção e uma dupla de protagonistas que desperta facilmente a nossa simpatia. Tem ainda o mérito de saber despertar a nossa boa vontade em relação às suas limitações, tais como aquelas que já foram mencionadas, com Luc Besson a realizar uma obra cinematográfica de alto orçamento que mantém uma certa ingenuidade e uma leveza que aos poucos nos conquista e encanta. Os seus momentos iniciais permitem colocar-nos perante um aperitivo do arsenal de efeitos especiais que Luc Besson tem à sua disposição, com o cineasta a não se poupar a esforços para justificar cada cêntimo que gastou ao criar todo um conjunto de cenários e seres que contribuem para a riqueza visual do filme. No caso dos momentos iniciais (após o prólogo), ficamos perante o planeta Mül, um espaço dotado de areais límpidos, um céu de uma tonalidade azul bastante viva, uma atmosfera harmoniosa e características paradisíacas, sendo habitado pelos Pearls, um povo inteligente, calmo e ponderado. 


 A paz dos Pearls é conspurcada pela destruição que chega dos céus, fruto de uma batalha entre dois povos que atinge esta população que não estava envolvida no conflito bélico. Segue-se um trecho de maior leveza, que decorre em pleno ano de 2740, com Valerian a acordar repentinamente (um pouco a fazer recordar a forma como o protagonista de "The Fifth Element" é apresentado, nomeadamente, a despertar de forma abrupta), no interior do simulacro de uma praia, após ter um suposto pesadelo onde sonhou com a destruição do planeta Mül, até Laureline chegar e Dane DeHaan e Cara Delevingne terem tempo para expor alguns dos traços da personalidade dos personagens que interpretam, bem como as dinâmicas que envolvem a dupla de protagonistas. Cara Delevingne é a principal surpresa, ou confirmação, com a actriz a explanar o tom confiante, mordaz e enérgico de Laureline, enquanto exibe um enorme à vontade quer nas cenas de acção, quer quando é obrigada a expor o seu lado mais cómico, quer nos trechos que está ao lado de Dane DeHaan, com a dupla a contar com uma dinâmica bastante convincente. Dane DeHaan imprime um estilo aventureiro e mulherengo a Valerian, um indivíduo habituado a cumprir ordens, que ama Laureline e tarda em perceber que guarda no seu interior a alma de uma extraterrestre. Luc Besson preocupa-se com estes personagens e percebe que se gostarmos desta dupla é meio "caminho andado" para sermos compelidos a seguir os episódios que Laureline e Valerian protagonizam e a termos alguma preocupação com os seus destinos, seja nos momentos de acção ou de maior humor. Após alguns momentos de leveza, Laureline e Valerian são enviados pelo Ministro da Defesa (Herbie Hancock) até Kirian, onde têm de se infiltrar no Grande Mercado e capturar um conversor que se prepara para ser vendido por Igon Siruss (voz de John Goodman), um criminoso que a espaços nos traz à memória Jaba the Hutt. Quem pretende adquirir este conversor são alguns dos sobreviventes do planeta Mül, com os Pearls a ganharem uma relevância crescente com o avançar do enredo, enquanto Valerian procura abortar o negócio e envolve-se pelos espaços do Grande Mercado, onde acaba por ser deparar com uma série de criaturas distintas. O conversor é um ser que conta com um aspecto adorável, o último de uma espécie do planeta Mül, com a criatura a conseguir replicar os objectos que se inserem no seu interior, tais como pérolas. Esta missão surge quase como um aperitivo para o que aí vem, sobretudo quando Valerian e Laureline são colocados diante da informação de que uma força misteriosa está a infectar e colocar em perigo a estação espacial Alpha, também conhecida como "Cidade dos Mil Planetas", uma metrópole em constante expansão onde espécies de todas as partes do universo convergem e trocam conhecimento. 


 Uma ameaça coloca a "Cidade dos Mil Planetas" em perigo, bem como o equilíbrio do universo, com Valerian e Laureline a depararem-se com um caso intrincado, sobretudo a partir do momento em que o Capitão Arun Filitt (Clive Owen) é raptado e percebem que foi ocultada informação sobre a extinção do planeta Mül. A dupla desloca-se pelo interior de diversos espaços da estação espacial Alpha, enquanto se depara com uma série de peripécias, intrigas e aventuras rocambolescas que prometem desafiar os seus ideais e as suas capacidades. Primeiro Laureline salva Valerian. Depois Valerian salva Laureline, com estes episódios a contarem sempre com algum humor, aventura e acção à mistura, enquanto Luc Besson se diverte a explorar as possibilidades proporcionadas pelo universo destes personagens. Note-se a extravagância do Pleasure Alley, um espaço que conta com uma série de clubes nocturnos, onde Valerian se depara com Jolly the Pimp (Ethan Hawk num modo delirante como um proxeneta peculiar) e uma artista chamada Bubble (Rihanna tem um número musical aprazível como esta personagem que pode mudar de fisionomia). Temos ainda os aposentos de Boulan Bathor III, um espaço no qual decorre uma batalha caótica onde somos brindados com uma luta de espadas e imensa confusão, ou uma trecho hilariante em que a falta de comunicação entre Laureline e a sua interlocutora impera. É um espectáculo visual no qual as cores são utilizadas com alguns excessos assumidos e imenso engenho, onde a nossa admiração é conquistada e uma sensação de encantamento é despertada, enquanto nos deparamos com as aventuras de Laureline e Valerian. A missão destes personagens raramente ganha sentido de urgência, nem Luc Besson tem tal objectivo, com o cineasta a preferir antes deixar-nos a vaguear por esta aventura enérgica, pontuada por efeitos que servem o enredo e uma dupla de protagonistas carismática. Não podemos ainda deixar de realçar o número avultado de criaturas que povoam o enredo deste filme inspirado na série de livros de banda desenhada "Valérian et Laureline", criada por Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, com Luc Besson a exibir todo o cuidado colocado neste quesito, seja a deixar-nos diante do adorável conversor, ou de três aproveitadores (os Doghan Daguis) que completam os diálogos uns dos outros e concedem informação ao melhor preço, ou de um extraterrestre com uma cara pândega que aprecia escolher a roupa alheia, entre outros já mencionados ao longo do texto.


 É certo que a espaços Luc Besson favorece o estilo em detrimento da substância, mas também não deixa de ser notório que parte do charme de "Valerian and the City of a Thousand Planets" está nessa faceta de pretender despertar a nossa admiração e provocar uma sensação de deslumbramento. A contribuir para essa admiração estão intérpretes como Cara Delevingne e Dane DeHaan, como uma dupla enérgica, confiante e propensa a envolver-se em problemas, com o dueto a estar em destaque ao longo do filme. Por sua vez, Clive Owen interpreta uma figura praticamente desprovida de densidade, embora permita a espaços quase que fazer um comentário sobre a política externa à la Terminator dos EUA, com a destruição do planeta dos Pearls a trazer à memória outras incursões desastradas dos yankees. Temos ainda um comentário sobre a imigração ilegal, exposto de forma desajeitada a partir da personagem interpretada por Rihanna, com Luc Besson a falhar nos momentos em que tenta incutir um pouco mais de complexidade ao filme. Este é também um filme sobre um cineasta que apostou num projecto que parece destinado a fracassar junto do grande público e gerar um certo culto, que muito tem de Luc Besson (as personagens femininas fortes, o estilo a ultrapassar a substância, a estética inebriante, as cenas de acção bem arquitectadas, a capacidade de contribuir para interpretações competentes da parte dos seus protagonistas) e muito nos agrada, que valoriza a space opera com gosto, cor, boa disposição e um certo tom camp (quase a trazer um "cheirinho" a "The 5th Element"), enquanto explora as capacidades proporcionadas pela tecnologia e não descura algo de essencial: a massa humana de que é feita a sua dupla de protagonistas. Pelo meio não falta aventura, naves espaciais, humor, acção, revelações que nem sempre surpreendem, um guarda-roupa que se adequa à atmosfera do filme, informação redundante a ser exposta, interpretações competentes de Cara Delevingne (boa surpresa) e Dane DeHaan, imensa extravagância, cenas de acção coreografadas de forma hábil e coerente, uma utilização digna de atenção da paleta de cores e a sensação de que "Valerian and the City of a Thousand Planets" conseguiu aliviar a nossa mente dos problemas quotidianos ao longo da sua duração. Não lhe peçam é para proporcionar mais do que duas horas e pouco de escapismo.  


Título original: "Valerian and the City of a Thousand Planets".
Título em Portugal: "Valerian e a Cidade dos Mil Planetas".
Realizador:
Luc Besson.
Argumento: Luc Besson.
Elenco: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Herbie Hancock.

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