08 julho 2017

Resenha Crítica: "Paterson" (2016)

 Paterson (Adam Driver) é um indivíduo ponderado, sensato, calmo e observador, que encontra poesia nos locais mais simples e improváveis. Este trabalha como motorista de autocarros, escreve poemas nos tempos livres, passeia o cão todas as noites e ama profundamente Laura (Golshifteh Farahani), a sua esposa. Laura é uma mulher sonhadora, criativa e terna, que aprecia a poesia do esposo e compreende-o na perfeição, com o casal a contar com uma união bastante forte, algo exposto de forma credível e encantadora ao longo desta longa-metragem realizada por Jim Jarmusch. Essa união é visível nos pequenos actos de Paterson e Laura, com Adam Driver e Golshifteh Farahani a inserirem credibilidade e candura às dinâmicas dos personagens que interpretam, enquanto acompanhamos o casal ao longo de um período de cerca de sete dias. Note-se a forma terna como Paterson encoraja as ideias da esposa, ou a maneira sincera como esta pesquisa informação relacionada com poetas como Dante e Petrarca para incentivar o marido a escrever, com uma simples troca de olhares a dizer muito sobre a cumplicidade que pontua a relação destes personagens. Essa intimidade é adensada pela atenção que Jim Jarmusch concede aos pequenos pormenores que envolvem o dia-a-dia de Paterson e Laura e transmitem imenso sobre a personalidade destes personagens. Veja-se quando encontramos caixinhas adornadas a preceito no interior da lancheira de Paterson, ou uma tangerina com a casca pintada, com as refeições deste indivíduo a serem preparadas e primorosamente decoradas por Laura. Temos ainda os momentos em que Laura decide inventar receitas, ou aprender a tocar guitarra, com Paterson a aderir às ideias da esposa e a incentivá-la. Adam Driver imprime uma ponderação notória a Paterson, com o actor a transformar-se neste poeta de gestos simples, palavras certeiras e postura observadora. Um simples pacotinho de fósforos permite que Paterson deixe a imaginação fluir, enquanto traduz as suas ideias e sentimentos em poemas que deixam transparecer a sua personalidade fascinante. Golshifteh Farahani imprime uma faceta cândida e sonhadora a Laura, com esta mulher a contar com sonhos bem vivos, uma doçura que nos encanta e uma criatividade deveras peculiar. Veja-se os cortinados às bolinhas efectuados por esta mulher, ou os quadros manhosos com as pinturas que efectua de Marvin, um bulldog inglês bastante expressivo e carismático, que gosta de dormir no sofá, comandar os passeios e, tal como a maioria dos cães, aprecia um bom pedaço de papel, inclusive se este material estiver num caderno. 


 É num caderno que Paterson escreve os seus poemas, enquanto expõe os seus sentimentos e traduz a sua interpretação sobre aquilo que o rodeia e o amor que nutre por Laura. O personagem interpretado por Adam Driver é um homem de hábitos, que não parece estar cansado das suas rotinas, bem pelo contrário, com a personalidade ponderada e pura deste indivíduo a contribuir para conquistar facilmente a nossa admiração e a simpatia daqueles que o rodeiam. Este é o protagonista de "Paterson", um título que remete quer para o nome do motorista, quer para a cidade onde este nasceu, trabalha e habita, quer para o poema épico escrito por William Carlos Williams, um poeta que o personagem interpretado por Adam Driver admira, com Jim Jarmusch a deixar bem claro a relevância que a poesia e este espaço citadino têm no interior da narrativa. Jim Jarmusch capta a poesia do dia-a-dia em Paterson, muitas das vezes a partir do ponto de vista do protagonista, seja quando este conduz, ou deambula a pé pela cidade, algo que nos permite dar a conhecer a heterogeneidade deste local. Note-se quando a câmara acompanha os movimentos do autocarro guiado por Paterson ao mesmo tempo que expõe as lojas e os monumentos desta cidade, com Jim Jarmusch a evidenciar a importância que esta urbe e as suas gentes têm para o enredo e para o protagonista. A heterogeneidade da população de Paterson é evidente ao longo do filme, com diversas etnias e culturas a juntarem-se e a contribuírem para a atmosfera especial que rodeia este espaço. Veja-se os diálogos e as pessoas que o protagonista escuta e observa no interior do autocarro, ou o episódio em que Paterson encontra um rapper (Method Man) a cantar em plena noite, no interior de uma lavandaria, com o poeta a contemplar com admiração o acto deste desconhecido a soltar a imaginação. É também de noite que Paterson frequenta o bar de Doc (Barry Shabaka Henley), um indivíduo simpático e bem-falante com quem o protagonista dialoga quase todas as noites. O quotidiano de Paterson é feito de imensas repetições (veja-se o percurso que efectua quando passeia o cão à noite, ou a regra de só beber uma caneca de cerveja por dia), bem como de algumas pequenas derrotas e conquistas, com o protagonista a trabalhar de 2ª a 6ª, a acordar quase sempre bastante cedo e a dialogar de forma terna com a esposa antes de sair, até chegar ao autocarro e efectuar o mesmo percurso e observar os espaços e as pessoas que o rodeiam, tendo nos intervalos do trabalho uma oportunidade para escrever poemas.


 Jim Jarmusch capta a poesia do quotidiano e expõe-a de forma apaixonante e apaixonada em "Paterson", por vezes com alguma melancolia à mistura, enquanto nos coloca perante os pequenos episódios do dia-a-dia de um indivíduo aparentemente comum. As suas palavras parecem sinceras (mérito do argumento e de Adam Driver), os seus actos surgem muitas das vezes acompanhados por uma sensibilidade muito própria, enquanto que os poemas deste indivíduo resultam da sua capacidade de observação e de se exprimir através da escrita. Paterson gosta de manter os seus poemas escondidos, com este personagem a surgir como uma peça rara num tempo em que muito se expõe e pouco se esconde nas redes sociais. Este não tem um telemóvel, nem acede à internet, tendo no seu caderno de papel o meio preferencial para se expressar. A esposa compreende-o. Por sua vez, Paterson compreende a esposa. Jim Jarmusch não procura colocá-los em conflito, nem destruir as suas rotinas, com o cineasta a optar antes por abordar o quotidiano aparentemente comum de um casal que desperta a nossa simpatia e interesse. O próprio lar do casal desperta a nossa atenção, com a habitação a reflectir os gostos pessoais de Laura e Paterson. Desde os livros de poesia que Paterson conserva, passando pelos retratos que este guarda na mesinha de cabeceira, até à decoração moderna e feita de forma pessoal por Laura, a casa destes personagens reflecte e muito a estranha harmonia que envolve o matrimónio de ambos. O enredo começa e termina numa Segunda-Feira, com a sua estrutura a dividir-se por capítulos que acompanham cada dia da semana, enquanto observamos o quotidiano de Paterson, seja os momentos com a esposa (tanto a dialogar de forma romântica, como a observá-la a decorar cupcakes, ou a ir com Laura ao cinema para verem "Island of the Lost Souls"), ou os passeios que efectua (como para observar a cascata do Rio Passaic), ou os diálogos com os clientes do bar de Doc (inclusive com Marie e Everett, um casal em ruptura), ou a breve troca de palavras com um turista japonês (Masatoshi Nagase) que aprecia poesia e evidencia uma enorme sensatez, ou os trechos em que escreve poemas. O humor pontua alguns destes episódios, tal como o drama, com Jim Jarmusch a inserir no interior de "Paterson" os sabores agridoces que pontuam o quotidiano. Estamos diante de um filme sobre os pequenos episódios quotidianos, bem como sobre poesia, a relação de um casal que se ama, as rotinas de um motorista e as vitórias e derrotas que conhecemos no dia-a-dia, com Jim Jarmusch a incutir uma enorme humanidade a todas estas situações e a permitir que Adam Driver tenha uma interpretação digna de atenção ao longo daquela que é uma das grandes estreias cinematográficas nas salas de cinema portuguesas em 2017.


Título original: "Paterson".
Realizador: Jim Jarmusch.
Argumento: Jim Jarmusch.
Elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, Barry Shabaka Henley, Masatoshi Nagase, William Jackson Harper, Chasten Harmon, Method Man.

"Paterson" é distribuído em Portugal pela Leopardo Filmes.

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