14 julho 2017

Resenha Crítica: "Ma vie de Courgette" (A Minha Vida de Courgette)

 É possível despir as emoções durante a visualização de um filme? "Ma vie de Courgette", a primeira longa-metragem realizada por Claude Barras, atesta de forma paradigmática que essa é uma tarefa praticamente impossível de alcançar, ou não estivéssemos perante um filme de animação que consegue mexer de forma indelével com as nossas emoções e o nosso estado de alma. É um filme terno e encantador, dotado de enorme sensibilidade e humanidade, que nos toca profundamente, seja ao nosso "eu" adulto ou ao lado mais juvenil, enquanto desperta uma miríade de emoções e aborda temáticas relevantes. Em cerca de uma hora e pouco de duração, "Ma vie de Courgette" leva-nos do riso às lágrimas, da melancolia à euforia, do pessimismo à esperança, enquanto nos deixa diante da história do pequeno Icare (Gaspard Schlatter), mais conhecido como Courgette. Este é um rapaz de nove anos de idade, algo tímido e sensível, que conta com cabelo azul, nariz vermelho e anda quase sempre acompanhado por um papagaio de papel. Não sabemos ao certo se o pai de Courgette desapareceu e nunca mais entrou em contacto com o rapaz, ou se faleceu, enquanto que a mãe do protagonista é viciada em bebidas alcoólicas, sobretudo cerveja, algo que afecta a relação entre o jovem e a progenitora. Nos momentos iniciais de "Ma vie de Courgette", encontramos Courgette no interior do seu quarto, enquanto brinca sozinho com um papagaio de papel (com um desenho de um super-herói que representa o pai), ou efectua um castelo com latas de cerveja vazias. Por sua vez, a mãe de Courgette encontra-se na sala, enquanto consome bebidas alcoólicas de forma compulsiva e pragueja com a televisão, até decidir entrar no quarto do filho e começar a discutir com o petiz, com as nuvens negras a cobrirem o céu e a exacerbarem a atmosfera desoladora que envolve os momentos iniciais do filme. Pouco depois, deixamos de ouvir esta mulher, até recebermos a notícia que faleceu, algo que conduz Raymond (Michel Vuillermoz), um polícia com um bigode saliente e uma personalidade afável, a transportar o protagonista em direcção ao orfanato local. Courgette leva consigo o papagaio de papel, bem como uma lata de cerveja (a única recordação material que guarda da mãe), enquanto se depara com uma realidade que não deseja, nem lhe agrada, embora os responsáveis do orfanato demonstrem uma enorme simpatia e prestabilidade. Veja-se o caso de Paul (Adrien Barazzone) e Rosy (Véronique Montel), um professor e uma auxiliar (e par romântico) que mantêm uma grande proximidade com os petizes, ou de Madame Papineau (Monica Budde), a directora, uma senhora relativamente simpática e cordial.


 "Ma vie de Courgette" não representa o orfanato como um local pontuado pela desumanização ou pela violência, bem pelo contrário, com Claude Barras a evitar os estereótipos fáceis e a desenvolver as dinâmicas dos jovens com enorme humanidade e subtileza. Estamos perante um espaço onde os jovens encontram uma espécie de lar, com os professores e a directora a fazerem de tudo para fornecer algum calor humano aos rapazes e raparigas que vivem no interior do orfanato. O grupo de jovens que habita e estuda no interior deste orfanato é bastante heterogéneo, sendo composto inicialmente por Simon (Paulin Jaccound), Ahmed (Raul Ribera), Alice (Estelle Hennard), Jujube (Elliot Sanchez), Béatrice (Lou Wick) e Courgette. O protagonista apresenta alguma desilusão em relação a ter sido obrigado a viver neste espaço, algo que dificulta a sua adaptação ao orfanato, com o jovem órfão a ter ainda de lidar com a desconfiança de Simon, um rapaz rebelde que surge inicialmente como uma espécie de bullie. Simon é um petiz de cabelos ruivos, bastante traquina, que se veste com roupas de tonalidades vermelhas (algo que realça a sua faceta rebelde e evidencia o cuidado colocado na escolha da paleta de cores), gosta de liderar os jovens que se encontram a habitar no orfanato e apresenta uma atitude algo desencantada em relação a este espaço. Essa atitude algo desencantada advém da relação distanciada que este personagem mantém com os pais, dois toxicodependentes que raramente entram em contacto com o filho, uma situação que contribui quer para a rebeldia de Simon, quer para o pessimismo que este evidencia em questões relacionadas com o orfanato (inclusive em assuntos relacionados com a possibilidade de adoptarem alguém da sua idade). Diga-se que quase todos os jovens que se encontram a viver no orfanato foram sujeitos a episódios traumáticos: Alice foi alvo de abusos sexuais por parte do pai; a mãe de Jujube padece de uma doença grave do foro psicológico; a progenitora de Béatrice é uma imigrante ilegal que foi deportada; o progenitor de Ahmed foi preso num assalto à mão armada. Temos ainda Camille (Sixtine Murat), uma jovem de dez anos de idade, que chega ao orfanato algum tempo depois do protagonista. O pai de Camille assassinou a mãe da jovem e posteriormente cometeu suicídio, com a petiz a ser levada para o orfanato pela tia (Brigitte Rosset), uma figura opressiva que conta com pouca apetência para lidar com crianças.


 Todos os episódios mencionados deixaram marcas nos jovens, algo notório quando nos deparamos com os tiques nervosos de Alice, ou Béatrice a gritar pela mãe quando ouve um carro a surgir na entrada do orfanato, ou Jujube a comer pasta de dentes devido ao facto da progenitora ter dito que é um hábito saudável, ou a desilusão de Simon quando não recebe uma carta. Courgette, Alice, Béatrice, Camille, Simon, Ahmed e Jujube surgem como um ponto de partida para Claude Barras expor temáticas relacionadas com abusos sexuais sobre menores, toxicodependência, demência, homicídios, furtos, o sentimento de perda, a orfandade, imigração ilegal e maus tratos, com "Ma vie de Courgette" a abordar estes temas de forma subtil e a colocar em evidência um lado mais negro da humanidade (contrastado com a inocência destes rapazes e raparigas que viveram uma série de situações traumáticas). É de elogiar a sensibilidade com que Claude Barras explana estas situações melindrosas, enquanto expõe os espectadores mais novos a uma realidade que acontece no mundo que os rodeia, com "Ma vie de Courgette" a conciliar com sucesso a sua faceta bem disposta com o seu lado mais cru e dramático. O humor faz parte do filme, seja quando encontramos os jovens a atirarem água para cima de Raymond devido a não apreciarem polícias (embora gostem deste personagem), ou a envolver as falas sardónicas que Camille troca com Simon, ou a forma inocente como os petizes falam sobre assuntos de cariz sexual. As dinâmicas destes personagens são bem trabalhadas, enquanto ficamos diante de temáticas associadas à criação de laços entre jovens, ao primeiro amor, à formação da personalidade destes rapazes e raparigas, entre outros assuntos que são abordados com primor ao longo deste filme de animação em stop-motion. O trabalho a nível de animação é irretocável (note-se a criatividade colocada no visual dos personagens e dos cenários, ou a forma certeira como é utilizada a paleta de cores, ou os olhos expressivos das figuras que pontuam o enredo), tal como o argumento escrito por Claude Barras, Germano Zullo, Morgan Navarro e Céline Sciamma (inspirado no livro "Autobiographie d'une courgette"), com a presença desta última a não poder ser descurada (estamos diante de uma "especialista" a abordar assuntos relacionados com os jovens), com "Ma vie de Courgette" a mesclar com acerto e sensibilidade a inocência e a crueza que pontuam os actos e o quotidiano destes petizes.


 Essa reunião entre a crueza e a inocência é particularmente visível quando encontramos os jovens a observarem uma mãe a cuidar do filho, após este último ter caído quando estava a esquiar. O enfoque é colocado no rosto dos jovens (como podem reparar na imagem inserida no lado esquerdo do texto), enquanto estes parecem sentir uma certa melancolia por não terem um pai ou uma mãe que os ampare em situações complicadas. O mais próximo que Courgette tem de um pai é Raymond, com o jovem e o polícia a formarem uma terna relação de amizade, pontuada por alguns momentos de humor e candura. Veja-se quando encontramos Raymond a visitar Courgette no orfanato, ou o momento em que estes dois saem juntos com Camille. Courgette tem de aprender a confiar naqueles que o rodeiam, com o jovem a formar no orfanato as primeiras amizades a sério, a conhecer uma série de sentimentos próprios da idade e a protagonizar uma miríade de episódios marcantes, sobretudo a partir do momento em que conhece Camille. A cumplicidade entre Courgette e Camille é latente, com estes dois jovens a formarem uma relação de amizade que facilmente nos encanta e enternece. Note-se quando encontramos Camille e Courgette a dialogarem na neve, durante a noite, naquele que é um dos vários momentos belíssimos do filme, com Claude Barras a conceder uma atenção notória aos pequenos gestos e às relações de confiança que se formam entre estes jovens. Seria muito fácil para Claude Barras abordar estas temáticas de forma açucarada, ou lamechas, ou sensacionalista, mas o cineasta opta sempre pelo caminho mais subtil, sincero e complexo, enquanto apresenta um enorme capacidade para abordar os assuntos a que se propõe de forma precisa e concisa. Estamos diante de um filme terno e sensível, dotado de uma grande beleza visual, personagens com personalidades bem definidas e uma enorme capacidade para mexer com as nossas emoções, com "Ma vie de Courgette" a surgir como um pequeno e apaixonante tesouro cinematográfico que nos enriquece como seres humanos e sacia os nossos anseios cinéfilos. Bela estreia de Claude Barras na realização de longas-metragens.


Título original: "Ma vie de Courgette".
Título em Portugal: "A Minha Vida de Courgette".
Realizador: Claude Barras.
Argumento: Céline Sciamma, Claude Barras, Germano Zullo, Morgan Navarro.
Elenco vocal: Gaspard Schlatter, Paulin Jaccoud, Sixtine Murat, Lou Wick, Monica Budde, Elliot Sanchez, Brigitte Rosset.

"A Minha Vida de Courgette" é distribuído em Portugal pela Outsider Films: https://www.facebook.com/outsider.films.portugal/

O filme já se encontra disponível no Filmin: https://www.filmin.pt/filme/a-minha-vida-de-courgette

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