07 julho 2017

Resenha Crítica: "Le meraviglie" (O País das Maravilhas)

 Não é obra do acaso, nem mera coincidência, que os planos finais de "Le meraviglie" destaquem a propriedade da família de protagonistas. É o sublinhar da importância deste cenário para os personagens principais, seja como uma espécie de "castelo" que é administrado de forma muito própria, ou como um espaço que em alguns momentos transmite a falsa sensação de que não é influenciado pelo contexto que o rodeia, ou como um limbo no qual os sonhos são aprisionados. Estes planos permitem ainda exprimir a relevância deste cenário para as características simultaneamente ancoradas na realidade e fabulescas da segunda longa-metragem realizada por Alice Rohrwacher, com a cineasta a desenvolver com acerto as dinâmicas da família que habita nesta casa e a abordar a vida no campo sem romancear o quotidiano nos espaços rurais. Parece algo contraditório salientar que "Le meraviglie" tanto conta com uma faceta de fábula e dotada de algum lirismo como transmite o quotidiano da vida no campo de forma objectiva e ancorada na realidade, mas é precisamente isso que acontece ao longo do filme, com Alice Rohrwacher a conciliar habilmente estas dicotomias. Diga-se que estas contradições andam de braço dado com as idiossincrasias do território onde fica localizado o "castelo" em que se desenrola boa parte do enredo, com o "rei" a procurar que as ameaças externas não influenciem a sua propriedade, embora essa tarefa seja praticamente impossível de concretizar. Localizada num território rural nas imediações da Umbria, esta propriedade tem em Wolfgang (Sam Louwyck), um imigrante de origem alemã ou belga, o seu "rei". Este é um indivíduo de barba saliente, pouco dado a aceitar grandes alterações nas suas rotinas, que educa as filhas de forma peculiar e tenta ser fiel aos seus ideais, mesmo que estes contem com umas boas doses de ingenuidade. Wolfgang é casado com Angelica (Alba Rohrwacher), de quem tem quatro filhas, as jovens Gelsomina (Maria Alexandra Lungu), Marinella (Agnese Graziani), Luna (Maris Stella Morrow) e Caterina (Eva Lea Pace Morrow). Temos o "rei", as "princesas", a "rainha" conciliadora, a "fada" (já lá vamos) e um "castelo" dotado de uma dimensão considerável, onde existem divisórias para a família habitar e tratar da produção de mel e terrenos para as ovelhas circularem. É uma habitação dotada de características rústicas, com as marcas das histórias das quais foi protagonista e cenário a serem evidentes, sejam estas os espaços restaurados ou as paredes recheadas de tijolos despidos, algo que ajuda a exacerbar a sensação de que a família de Gelsomina habita no interior de um "castelo" que se encontra entre o presente e o passado. As dinâmicas da família que vive no interior desta habitação são muito específicas, com as jovens, todas menores de idade, a ajudarem os pais nas tarefas diárias, tais como a produção de mel, enquanto os progenitores, sobretudo Wolfgang, procuram afastar as raparigas do mundo exterior. Esta é uma tarefa complicada, sobretudo quando a curiosidade começa a apoderar-se de Gelsomina e a contaminar os sentidos desta jovem de doze anos de idade.


 Gelsomina é praticamente a chefe do lar, com a pré-adolescente a contar com uma maturidade surpreendente e uma habilidade latente para o trabalho que envolve a produção de mel. É Gelsomina quem procura os enxames nas árvores, que organiza a extracção de mel, carrega as colmeias e coordena boa parte dos trabalhos relacionados com esta actividade, para além de ajudar a cuidar das três irmãs mais novas. Maria Alexandra Lungu beneficia e muito da atenção que Alice Rohrwacher concede aos silêncios e aos momentos de maior contemplação, com a intérprete a evidenciar através do olhar e das expressões do seu rosto alguns dos sentimentos que perpassam pela alma de Gelsomina. É uma pré-adolescente tímida, que conta com uma curiosidade muito típica da idade, própria de quem está a formar a sua identidade e personalidade, com Maria Alexandra Lungu a transmitir a faceta introvertida desta jovem que nem sempre exprime os seus sentimentos pela via da palavra. Não é que os diálogos não tenham importância em "Le meraviglie", bem pelo contrário, ou não estivéssemos diante de um filme que utiliza a língua falada quer como um meio para os personagens se exprimirem, quer como um modo de encontrarem privacidade e refúgio. Veja-se quando encontramos Wolfgang a dialogar em francês com Angelica, tendo em vista a que as filhas não percebam aquilo que estão a falar, ou a troca de palavras em alemão entre o primeiro e Cocò (Sabine Timoteo). Alba Rohrwacher imprime uma postura conciliadora a Angelica, com a actriz a conseguir que acreditemos na cumplicidade que esta mulher tem com o esposo e as filhas. Por sua vez, Cocò não é da família, mas anda lá perto. Esta é uma imigrante de origem alemã, que ajuda a família de Wolfgang nas tarefas diárias e surge como uma espécie de "convidada permanente" que tem uma confiança muito grande com os elementos que povoam este "castelo". Quem conta com uma grande proximidade com Wolfgang é Gelsomina, a herdeira do "reino", com esta a assumir muitas das vezes o papel de líder do lar. As irmãs respeitam Gelsomina, enquanto esta procura conciliar os anseios próprios da idade com as responsabilidades que lhe colocam aos ombros, tais como coordenar as tarefas relacionadas com a produção de mel. Na prática estamos diante de trabalho infantil, com Wolfgang e Angelica a cuidarem das filhas com regras muito próprias ao mesmo tempo que tentam encontrar um meio de contornarem as dificuldades financeiras e procuram evitar que as mudanças que afectam o mundo rural comecem a ser sentidas no seu lar.


O que Wolfgang não pode mudar é o forte efeito que a chegada do "Il paese delle Meraviglie", um programa televisivo destinado a realçar as "maravilhas" do mundo rural, provoca em Gelsomina. Se "Le meraviglie" evita romancear a vida nos espaços rurais, ou apresentá-la de forma estritamente idílica, já o programa realça o lado pitoresco da ruralidade, com a equipa desta espécie de concurso a trazer todo um aparato ao território que mexe com a mente e as rotinas de diversos habitantes. O vencedor do concurso ganha uma quantia considerável em dinheiro, para além de beneficiar de um ampla divulgação dos seus produtos, algo que conduz diversos camponeses a tentarem inscrever-se nesta iniciativa. Gelsomina pretende concorrer ao "Il paese delle Meraviglie", com a jovem a exibir um fascínio notório quer pelo concurso, quer pela apresentadora Milly Catena (Monica Bellucci), uma figura que desperta facilmente a atenção daqueles que a rodeiam. Dizem que o seu cabelo é como a espuma do mar, fruto da sua cabeleira de tonalidade branca e da postura que a distingue dos elementos do campo, com Monica Bellucci a transmitir a aura distinta que envolve esta apresentadora aparentemente superficial. Aos poucos percebemos que existe algo de mais profundo a rodear esta "fada", sobretudo quando tira os ganchos e exibe um lado mais genuíno e um interesse verdadeiro na protagonista. O programa apresentado por Milly Catena conta com características exóticas e algumas doses de extravagância ("Le meraviglie" ganha um aroma quase surreal quando o "Il paese delle Meraviglie" está a ser gravado), com a equipa a procurar descobrir as origens etruscas do território em que se desenrola o concurso e a expor de forma muito própria o quotidiano dos concorrentes. A presença da equipa de filmagens e de todo o aparato relacionado com o programa exacerbam a inevitabilidade das mudanças que ocorrem no interior deste espaço rural, embora Wolfgang tarde em aceitar que o mundo que o rodeia está em constante transformação. Wolfgang exibe por diversas vezes que é liminarmente contra situações que possam alterar as dinâmicas e as características do seu "reino", algo que colide com a vontade de Gelsomina em participar no programa televisivo, bem como com o desejo de alguns camponeses em investirem no agroturismo, com "Le meraviglie" a colocar-nos diante destes modos distintos de encarar a entrada da "modernidade" nos espaços rurais.


Seja a falar em italiano, alemão ou francês, Sam Louwyck convence como este camponês protector e algo irresponsável que procura criar uma espécie de redoma em volta da sua habitação. Estamos diante de um camponês que valoriza pouco o dinheiro e os bens materiais, que a espaços parece acreditar que consegue fugir às alterações que afectam os espaços rurais e nem sempre pondera devidamente as suas acções, com Sam Louwyck a compor um personagem que foge a catalogações fáceis. O idealismo de Wolfgang supera e muito o seu pragmatismo, sobretudo quando rejeita mudanças que parecem praticamente inevitáveis, sejam estas relacionadas com a colocação em prática das novas regulamentações europeias para a produção do mel (embora também não tenha dinheiro para investir nas obras necessárias), ou mudanças que envolvem a utilização de pesticidas, ou a chegada de turistas ou de possíveis compradores dos terrenos deste espaço rural. Os pais de Gelsomina produzem mel de forma rudimentar e algo peculiar, enquanto fogem ao cumprimento das regras relacionadas com a segurança e higiene alimentar, para além de tornearem as leis laborais ao contarem com a colaboração das petizes no trabalho do campo. O quotidiano destes personagens é exposto num tom quase documental, pronto a criar a sensação de que estes elementos vivem uma série de situações bem reais e a exacerbar as características do território, enquanto observamos Gelsomina e a família quer em actividades relacionadas com a produção de mel, quer a manterem alguns momentos de maior leveza ou tensão, com Alice Rohrwacher a criar um ambiente credível em volta destas figuras. Existem ecos neorrealistas a vaguear por "Le meraviglie", sempre acompanhados por algumas porções de poesia e crueza, enquanto Alice Rohrwacher parte da perspectiva desta família de camponeses para abordar uma série de temáticas do foro social e económico. A chegada de Martin (Luis Huilca), um delinquente juvenil de catorze anos de idade, de origem alemã, remete para as dificuldades que Wolfgang tem em conseguir ajudantes e contribui para alterar algumas das rotinas da família de Gelsomina. Martin chega à quinta no âmbito de um programa de reintegração social, com o jovem a evidenciar uma postura silenciosa, uma enorme habilidade para assobiar e pouco talento para a apicultura. A relação de Wolfgang com Martin está longe de ser pacífica, sobretudo quando o jovem demonstra ser pouco útil para a apicultura e aos poucos parece surgir como mais um elemento que traz os inevitáveis ares de mudança para o interior da casa do primeiro.


 Os benefícios económicos relacionados com o programa de reinserção social foram essenciais para Wolfgang trazer Martin para a propriedade, bem como a possibilidade de ter mais um ajudante e a companhia de uma figura masculina, embora o patriarca logo entre em conflito com o rapaz e exiba a sua desconfiança para com o jovem. Por sua vez, Martin desperta a curiosidade e atenção de Gelsomina, algo que é recíproco, com a jovem a protagonizar um conjunto de episódios e descobertas que prometem marcar a sua existência. A personagem interpretada por Maria Alexandra Lungu tem de amadurecer precocemente, com "Le meraviglie" a expor que a vida no campo não é tão colorida e idílica como é exposta no programa "Il paese delle Meraviglie". É certo que o território conta com alguns cenários belíssimos, mas o quotidiano dos habitantes deste espaço está longe de ser apenas marcado por facilidades ou momentos de contemplação. A propriedade de Wolfgang simboliza de forma paradigmática este espaço rural: presa ao passado mas marcada por diversas alterações efectuadas ao longo do tempo. Gelsomina é a habitante desta casa que apresenta uma atitude mais aberta em relação às mudanças, algo que mexe com as dinâmicas que esta tem com o progenitor, com "Le meraviglie" a explorar com acerto o convívio intrincado entre pais e filhos, bem como o quotidiano no interior de um espaço rural que parece à parte de tudo e de todos. Claro está que este espaço não se encontra totalmente fechado ao exterior, com a entrada da equipa do programa, a chegada de Martin e as alterações impossíveis de travar a propiciarem a abertura de algumas fendas no "reino" de Wolfgang. Alice Rohrwacher preocupa-se com estes personagens e transmite que Wolfgang, Gelsomina, Angelica, Cocò e companhia contribuem e muito para dar um tom especial ao território onde habitam e trabalham, com a cineasta a desenvolver as dinâmicas destes elementos com enorme precisão e a permitir que os intérpretes sobressaiam em bom nível. Todos estes acontecimentos mencionados decorrem durante o Verão, com o calor a pontuar os cenários e os sentimentos, enquanto ficamos diante de um espaço rural que influencia e é influenciado pelos seus habitantes, tais como Gelsomina e a sua família, com Alice Rohrwacher a ter em "Le meraviglie" uma obra cinematográfica que comprova a sua maturidade como cineasta.


Título original: "Le meraviglie".
Título em Portugal: "O País das Maravilhas".
Realizadora: Alice Rohrwacher.
Argumento: Alice Rohrwacher.
Elenco: Maria Alexandra Lungu, Sam Louwyck, Alba Rohrwacher, Sabine Timoteo, Monica Bellucci, Agnese Graziani, Luis Huilca, Maris Stella Morrow, Eva Lea Pace Morrow.

O filme é distribuído em Portugal pela Midas Filmes: http://www.midas-filmes.pt/estreias/estreados/o-pais-das-maravilhas.

"Le meraviglie" foi visto no Filmin Portugal: https://www.filmin.pt/filme/o-pais-das-maravilhas

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