11 julho 2017

Resenha Crítica: "La fille inconnue" (2016)

 Disse para mim mesmo que tão depressa não voltaria a escrever sobre filmes que não gostei, ou que me desiludiram. O que eu quero fazer é uma coisa, outra diametralmente oposta é aquilo que consigo efectuar. É nessa tradição de me contradizer que decidi escrever uma resenha crítica sobre "La fille inconnue". Curiosamente, também em "La fille inconnue" existe essa dicotomia entre o que os irmãos Dardenne pretendem para o filme e o resultado final desta obra cinematográfica. Nenhum cineasta está livre de um tropeço, inclusive os irmãos Dardenne, algo que podemos comprovar em "La fille inconnue", um obra cinematográfica que se envolve pelas franjas do drama social e do filme de investigação, sempre de forma algo inconsequente, enquanto deixa um travo amargo na nossa mente. Esperávamos mais de um filme dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, mas aquilo que estes nos dão é uma obra cinematográfica que sabe aquilo que quer dizer, embora se desoriente imenso pelo caminho, com as subtramas e as reviravoltas a nem sempre provocarem o efeito pretendido. Essa situação é particularmente visível nos momentos finais de "La fille inconnue", quando as revelações nem sempre convencem, sobretudo quando somos colocados perante a chegada da irmã de uma figura que conta com um relevo indelével no interior do enredo, com o aparecimento desta personagem a surgir como um recurso demasiado artificial. Não é que estes momentos sejam desprovidos de sentido, mas são inseridos de forma pouco subtil e algo extemporânea no interior do enredo, embora se perceba a intenção dos irmãos Dardenne e se elogie as suas preocupações sociais (e a atenção dada à "população das margens"). O problema é que por muito bem intencionados que sejam nas suas preocupações, os cineastas nem sempre, ou muito raramente, conseguem criar uma harmonia entre a exposição do quotidiano de Jenny Davin (Adèle Haenel), uma médica, na clínica em que esta trabalha, ou a acompanhar os pacientes ao domicílio, com a investigação levada a cabo pela protagonista. Jenny nem sempre efectua os actos mais pragmáticos, ou toma as decisões mais compreensíveis, com Adèle Haenel a incutir sobriedade a esta médica e a surgir como um dos elementos em destaque no filme. Quando conhecemos Jenny, a médica encontra-se prestes a integrar os quadros de uma clínica mais luxuosa do que aquela em que trabalha, enquanto evidencia uma postura metódica a tratar dos doentes e tenta ensinar Julien (Olivier Bonnaud), o seu estagiário, um jovem adulto que nem sempre consegue deixar as emoções de lado no cumprimento do seu ofício.


 A relação entre Jenny e Julien é algo turbulenta e problemática, com a primeira a tentar que o segundo não ceda aos sentimentos, enquanto o estagiário evidencia uma vontade notória em desistir do curso de medicina. A dinâmica entre a médica e o estagiário não convence, tal como as constantes tentativas da protagonista em contactar com Julien, com a estranha ligação entre estes dois elementos a surgir como uma das várias subtramas que pouco ou nada acrescentam ao enredo. Ao pedir ao estagiário para ignorar o toque da campainha e não abrir a porta da clínica, Jenny acaba por cometer um acto que mexe com o enredo A jovem mulher que tocou à campainha aparece morta, algo que abala Jenny ao ponto da médica abandonar a ideia de mudar de clínica e iniciar uma investigação algo atabalhoada para descobrir quem é esta desconhecida e as razões que conduziram à morte da mesma. As autoridades encontram-se a averiguar as causas da morte, bem como a tentarem descobrir a identidade da falecida e os possíveis familiares da mesma, embora Jenny decida envolver-se no caso por sua conta e risco, seja a questionar os seus pacientes ou a embrenhar-se por locais que a podem colocar em perigo, com a médica a parecer estar quase sempre à frente da polícia, apesar da investigação estar longe de convencer. Diga-se que "La fille inconnue" é bem mais competente quando se envolve pelas dinâmicas de Jenny com os doentes (e a expor a população mais desfavorecida que frequenta estes centros de saúde) do que a explorar as peripécias desta investigação algo amorfa, com os irmãos Dardenne a apresentarem alguma inépcia no que diz respeito a conciliar estas duas vertentes do filme (por vezes uma retira "poder" à outra). Jenny é médica e confidente dos seus pacientes, com a protagonista a trabalhar e a habitar na clínica, enquanto cumpre funções que extravasam e muito o seu ofício, com "La fille inconnue" a expor uma amostra da miríade de casos e clientes com quem esta tem de lidar, com Adèle Haenel a exibir de forma competente as posturas distintas que esta personagem assume consoante cada circunstância. Veja-se a postura firme, mas temerosa, que Jenny apresenta quando um casal pede de forma agressiva que esta passe um atestado médico falso, ou a faceta mais compreensiva que evidencia no momento em que atende um imigrante ilegal que aparece gravemente ferido. Temos ainda casos como a relação afável entre a médica e um jovem que padece de cancro, ou a postura decidida de Jenny a cuidar de um rapaz que sofre uma convulsão, entre outros exemplos que evidenciam a dedicação da protagonista.


 Se a maioria dos pacientes de Jenny não têm grande espaço para sobressair, com estes elementos a servirem sobretudo para explorar as rotinas da protagonista como médica, já o jovem Bryan (Louka Minnella) e os seus pais (Jérémie Renier e Christelle Cornil) contam com algum destaque, sobretudo a partir do momento em que são inseridos no interior da investigação. Bryan sabe algo mais sobre a falecida do que pretende falar, com os comportamentos do adolescente a nem sempre fazerem sentido, enquanto os irmãos Dardenne bombardeiam o espectador com uma série de reviravoltas a envolver este personagem e o pai. Pelo caminho não faltam situações perigosas e comentários relacionados com a imigração ilegal (algo que os irmãos Dardenne abordaram de forma bem mais complexa em "La promesse"), a prostituição, o tráfico de droga e uma investigação que a espaços coloca Jenny a assumir uma postura inconveniente junto dos seus pacientes e a esconder informação das autoridades, embora a iniciativa da médica raramente ganhe um sentido de urgência. Muitas das vezes é praticamente impossível não nos questionarmos sobre o pouco contacto que existe entre a protagonista e a polícia, embora a investigação protagonizada por Jenny assuma uma faceta quase irracional que remete e muito para o efeito que a morte da desconhecida provocou na médica. Quais as razões que conduziram Jenny a interessar-se por descobrir a identidade da falecida? O sentimento de culpa é uma das razões, bem como a curiosidade e a humanidade desta personagem que nem sempre compreendemos na totalidade (por vezes fica a dúvida se existe uma má construção da personagem ou se os irmãos Dardenne pretendem incutir alguma ambiguidade a esta médica), enquanto a acompanhamos quer a atender os pacientes, quer a efectuar a investigação no interior de Seraing. Nunca chegamos a conhecer profundamente a falecida, embora o interesse de "La fille inconnue" esteja sobretudo centrado na protagonista e na investigação, enquanto são efectuados alguns comentários sobre situações do foro social que afectam não só este território como diversos locais ao redor do Mundo, algo particularmente notório quando encontramos Jenny a lidar com os doentes. A câmara acompanha Jenny de forma atenta, com os planos de longa duração a captarem os sentimentos desta mulher e as características dos espaços em que esta circula, enquanto Adèle Haenel domina as atenções ao longo deste tropeço dos irmãos Dardenne. No entanto, nem por isso deixa de ser um tropeço com algum sumo para espremer.


Título original: "La fille inconnue".
Realizador: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne.
Argumento: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne.
Elenco: Adèle Haenel, Olivier Bonnaud, Jérémie Renier, Louka Minnella, Christelle Cornil, Olivier Gourmet, Pierre Sumkay, Ben Hamidou.

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