28 julho 2017

Resenha Crítica: "Il magnifico cornuto" (1964)

 O adultério e o desejo de cariz sexual surgem como temáticas que marcam o enredo de diversas comédias à italiana, tais como "Divorzio all'italiana", "Signore & Signori", "Brutti, sporchi e cattivi", "Drama della gelosia", "Matrimonio all'italiana", "L'oro di Napoli", entre outras obras cinematográficas deste subgénero. Estas contam com uma capacidade indelével para abordarem assuntos sérios com recurso ao humor, com a reunião entre a comédia e a tragédia a estar bastante enraizada neste subgénero, algo que acontece em "Il magnifico cornuto", uma obra cinematográfica onde o adultério e o desejo de cariz sexual estão presentes em quase todos os poros do enredo e mexem com o âmago dos personagens principais. O desejo parece levar muitas das vezes a melhor, com uma simples conferência sobre chapéus a contar com cochichos, jogos de sedução e a certeza de que as traições marcam o quotidiano de boa parte dos personagens que nos são apresentados. Um dos elementos mais em foco nesses cochichos é Roberto Mariotti (Bernard Blier), um vendedor de roupas e tapetes em pele, conhecido como o "corno de ouro". Quem não parece ter este tipo de preocupações é Andrea Artusi (Ugo Tognazzi) e Maria Grazia (Claudia Cardinale), com o casal a contar com uma relação marcada pela confiança e cumplicidade. Vestem-se bem, contam com uma casa dotada de diversos luxos, preparam a mudança para uma habitação requintada e participam em diversos eventos pontuados por vários convivas que não têm problemas financeiros. Andrea confia na esposa e não tem problemas em que esta exiba os seus atributos físicos. Maria Grazia também acredita no esposo, com o casal a parecer complementar-se praticamente na perfeição, apesar das tentações aparecerem imensas vezes pelo caminho. Se Maria Grazia procura inicialmente desviar-se desses caminhos sinuosos que podem levar a traições, já Andrea acaba por iniciar um affair com Cristiana (Michèle Girardon), a esposa do presidente do clube frequentado pelo protagonista e de diversas associações (José Luis de Vilallonga). Michèle Girardon compõe uma personagem sedutora e aparentemente experiente na arte da traição, que gosta de despertar a atenção dos homens e não parece sentir qualquer sentimento de culpa por trair o esposo. Andrea sente-se atraído por esta mulher, com um encontro num hotel a selar uma traição que tem o condão de servir de alavanca para o protagonista começar a questionar se a esposa está a traí-lo. É o início de "uma bela" obsessão, sobretudo pela facilidade com que a imaginação de Andrea funciona, algo que o conduz a protagonizar actos que desafiam o bom senso, com "Il magnifico cornuto" a envolver-se pelos meandros de uma relação matrimonial que é claramente afectada pelo espectro da traição.


 Ugo Tognazzi incute um carácter impulsivo e destrambelhado a Andrea, um indivíduo que tanto apresenta uma mentalidade aberta como exibe uma postura machista e conservadora, com o actor a transmitir a faceta simultaneamente cómica, trágica e problemática deste personagem. Andrea é um magnata que herdou um "império" de produção de chapéus, que conta com finanças desafogadas e se encontra inserido no interior da burguesia urbana, com "Il magnifico cornuto" a resvalar imensas vezes para a comédia de costumes e a satirizar com sucesso alguns dos hábitos dos elementos deste grupo social. As traições fazem parte do quotidiano destes personagens, bem como o gosto pelos rumores e as tentativas vãs de manterem as aparências, com Antonio Pietrangeli, a efectuar um retrato mordaz da sociedade do seu tempo. Estamos diante de uma Itália a conhecer ainda os efeitos do chamado "Milagre Económico", com a forma aberta como os personagens de "Il magnifico cornuto" lidam com a sexualidade a remeter para essas transformações, com Andrea a saborear o sucesso financeiro e os benefícios deste boom, embora as dúvidas em relação à fidelidade da esposa comecem a afectar imenso o quotidiano do protagonista. Ugo Tognazzi contribui para que Andrea nunca se torne num personagem completamente repulsivo, mesmo quando os actos do protagonista desafiam a razão e o bom senso, com a ideia de ser traído a estimular a imaginação e a paranóia do chapeleiro. Veja-se quando Maria Grazia consegue a autorização necessária para a construção de um muro na sua nova residência, com Andrea a imaginar desde logo que a esposa se envolveu com o vereador (Gian Maria Volontè) responsável pela obtenção do documento. As divagações de Andrea não se ficam por aí. Note-se ainda quando Andrea encontra um flyer a fazer publicidade ao hotel Impero, algo que conduz o protagonista a imaginar que a esposa tem um esquema para as traições que se assemelha ao de Cristiana (uma personagem que perde relevância assim que o foco do personagem interpretado por Ugo Tognazzi vira para a possível traição da cônjuge). Essa paranóia é adensada quando Andrea descobre uma multa referente ao carro que é habitualmente utilizado por Maria Grazia. A multa foi emitida por volta das 21h00, num local que costuma ser frequentado por amantes, com Andrea a deparar-se com esta informação na festa da inauguração da sua nova casa, algo que contribui não só para adensar as dúvidas deste indivíduo, mas também para a formação de uma série de rumores em volta de Maria Grazia. O que se segue são momentos que tanto têm de rocambolescos como de inquietantes ou delirantes, com Antonio Pietrangeli a explorar ao máximo as obsessões de Andrea e a forma como os comportamentos deste indivíduo começam a corroer os alicerces do seu matrimónio e a infernizar o dia-a-dia de Maria Grazia.


 Claudia Cardinale imprime uma postura delicada e algo naïf a Maria Grazia, com a intérprete a transmitir a perplexidade da personagem que interpreta quando se depara com os devaneios do esposo. A situação torna-se praticamente insustentável, com Andrea a não descansar enquanto não ouve que a esposa o trai, embora o mais certo é que as atitudes deste indivíduo conduzam-no a ganhar o epíteto do título desta recomendável longa-metragem realizada por Antonio Pietrangeli. O cineasta explora as dinâmicas do casal de protagonistas com acerto, até exibir os efeitos que a paranóia de Andrea traz ao casamento e as alterações de comportamento de cada cônjuge, com Claudia Cardinale e Ugo Tognazzi a protagonizarem alguns momentos que variam entre o bom humor e o dramatismo. Veja-se quando Andrea decide acelerar o carro em plena estrada, enquanto coloca a sua integridade física e a de Maria Grazia em risco, tendo em vista a obter uma resposta desta última em relação a uma possível traição. Temos ainda momentos dotados de algum humor, tais como os devaneios de Andrea, ou o momento em que este incumbe Belisario (Salvo Randone), um dos funcionários mais importantes da fábrica de chapéus, de vigiar Maria Grazia. Salvo Randone conta com mais um papel secundário em que tem oportunidade para sobressair, com o actor a conceder uma enorme humanidade a este personagem com pouca habilidade para as investigações. Vale ainda a pena realçar Philippe Nicaud, com o actor a destacar-se sobretudo no último terço do filme, nomeadamente, como um médico com quem Maria Grazia se sente à vontade para desabafar. Diga-se que esta mulher conta com um número avultado de pretendentes, inclusive Gabriele (Paul Guers), um antiquário, com Claudia Cardinale a evidenciar com sucesso a facilidade com que Maria Grazia desperta as atenções daqueles que a rodeiam. Ficamos diante de uma crise conjugal, provocada por uma obsessão que aos poucos consome um indivíduo, com Antonio Pietrangeli a encontrar o humor em situações deveras dramáticas, um ingrediente que pontua diversas comédias à italiana. Da comédia à italiana encontramos ainda os comentários sobre a sociedade, bem como o bom aproveitamento dos cenários exteriores, com diversos espaços de Brescia a serem utilizados ao serviço do enredo e a contribuírem para inserir esta história ficcional no interior de territórios e sentimentos reais. Entre traições, desejos incapazes de serem contidos, mal-entendidos e um matrimónio em erupção, "Il magnifico cornuto" surge como uma commedia all'italiana que conta com uma série de ingredientes que tornam este subgénero tão especial, sendo bem acompanhada por interpretações de bom nível de Claudia Cardinale e Ugo Tognazzi, uma banda sonora pronta a acentuar os momentos de humor e um argumento que sabe reunir com acerto a tragédia e a comédia.


Título original: "Il magnifico cornuto"
Título em Portugal: "A Eterna Dúvida".
Realizador: Antonio Pietrangeli.
Argumento: Diego Fabbri, Ruggero Maccari, Stefano Strucchi, Ettore Scola.
Elenco: Ugo Tognazzi, Claudia Cardinale, Bernard Blier, Michèle Girardon, Salvo Randone, Gian Maria Volontè, José Luis de Vilallonga, Philippe Nicaud, Paul Guers.

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